Rodrigo Abecasis

Chega a Werner Herzog, realizador e escritor, a notícia da doença de Lotte Eisner, e este logo decide que tem de a visitar, afirmando para si mesmo que, mediante a sua própria vontade, Eisnerin (diminutivo com que por vezes trata a doente) não morrerá, nem poderá morrer. O caminho a percorrer para cumprir este estranho desígnio tem de ser o mais árduo, uma prova de resiliência, mas também tem de ser o mais demorado. Como se pode apaziguar o ímpeto inevitável da natureza, que a morte a todos leva, senão através do que nos parece ser um esforço que quase vai além do comum mortal, um esforço cuja expressão mais significativa nunca poderá deixar de ser a tolice que é comum a todos os homens? De Munique até Paris, então, e a pé.

Herzog faz-se viajante, caminha levando consigo pouco mais do que um casaco, uma sacola, uma bússola (que acabará por perder), cartas militares que cobrem apenas metade do trajecto planeado e um par robusto de botas. Além destes objectos, todos eles com a sua utilidade particular, o caminhante leva um diário, em cujas páginas brancas vai inscrevendo os seus dias. A cadência das frases acompanha o cansaço dos seus pés, e a desordem das palavras é semelhante à das suas ideias, que andam soltas pelo ar, como se em esforço por capturar com precisão as sensações únicas que caracterizam uma viagem tão singular. À medida que Herzog avança, este diário vai-se tornando mais denso e mais frenético; os trechos descritivos e os laivos de imaginação misturam-se de tal maneira que nem sempre é fácil distinguir entre aquilo que é visto com os olhos e aquilo que é criado pela mente.

Das páginas que percorrem as cerca de três semanas que Herzog demorou de Munique a Paris, várias são as histórias que se poderia contar: a de um misantropo que aceita melhor a companhia de animais do que a companhia dos homens (“Um caçador, acompanhado por um segundo caçador, perguntou-me o que andava eu a fazer por ali. Respondi-lhe que gostava mais do seu cão do que do dono”, p. 24), e no entanto um misantropo que caminha somente por causa de outra pessoa, para chegar até ela; a de um homem que precisa de estar a sós consigo mesmo, e que por isso caminha sempre sozinho, falando para si em voz alta, rodeado por um cenário que pouco tem de acolhedor, mas antes é desolado e hostil, sublime na mais firme afirmação do indivíduo que assim permite; a de uma viagem difícil, que do viajante quase exige a totalidade da sua sanidade mental, uma viagem marcada pela opressão da chuva e da neve, onde os corvos são prenúncios de uma misteriosa catástrofe inevitável, como um cataclismo iminente que permanece e paira sobre todos os cenários, animais, casas, carros, estradas e pessoas que povoam o caminho; a de um homem que decide fazer uma viagem tresloucada, e que ao longo do percurso se apercebe de algo profundamente estranho na sua própria sombra, passando a temê-la.

Ainda assim, a mais interessante de todas estas histórias é a mais central, aquela que ocupa a primeira e a última entrada deste diário de viagens, sobre um homem que se vê levado pela intensidade de uma ideia mágica sobre a natureza das coisas e do mundo. Ir de Munique a Paris a pé para que Lotte Eisner não morra concretiza, no fundo, a crença num aspecto intencional da natureza e do mundo que, precisamente por causa disso, permite a alguém analisar, premeditar e planear a sequência dos eventos que compõem uma vida, as suas coincidências e os seus infortúnios, controlando a realidade mediante determinadas acções espectaculares, mediante certos esforços fantásticos da vontade. Contudo, apesar de toda a certeza e confiança próprias de um homem como Werner Herzog, ao longo de todo o trajecto a natureza com que o viajante se depara, apesar de se tratar de uma natureza aparentemente dominada pela expansão do Homem, mostra-se, na verdade, indomável, selvagem, bruta e particularmente difícil de enfrentar. Esta é a natureza dos campos semeados e cobertos de neve, das estradas, dos carros e dos camiões, das pequenas povoações, das privações próprias de uma viagem e, fundamentalmente, do clima.

Todo o caminho percorrido com a convicção de impedir a morte de Lotte Eisner tem como resultado algo muito diferente: Herzog não evitou a morte de Eisner (apesar de esta, de facto, ter vencido a doença), antes Eisner ensinou algo de muito importante a Herzog. Quando chega a Paris, já no seu destino final, este diz: “abra a janela, de há alguns dias para cá aprendi a voar” (p. 113). Como o autor deixou claro no seu discurso por ocasião da atribuição do prémio Helmut Käutner a Lotte Eisner, aquilo que lhe deu asas não foi a viagem que fez, com todas as dificuldades que enfrentou e superou, nem foi qualquer epifania que a viagem lhe tenha proporcionado, mas sim a própria Eisnerin: “Não sou o único a quem Lotte Eisner deu asas. Agradeço-lhe” (p. 122). Por estranho que pareça, de Munique a Paris, Eisnerin fez mais por Herzog do que Herzog fez por Eisnerin. A viagem que no princípio parecia realizar um esforço simbólico revela-se no final uma lição que Herzog considera importante na sua vida.

A determinada altura, perto do final do percurso, o autor questiona-se: “Em Savières, na escola da aldeia, fiquei a pensar se não faria sentido seguir de carro até Paris. Mas ter chegado tão longe a caminhar e depois continuar de carro? Antes ser absurdo, absurdo até ao limite, se é que se trata de um absurdo” (pp. 102-103). O que torna as personagens de Werner Herzog fascinantes, como Aguirre ou Fitzcarraldo, é, em Caminhar no Gelo, o mesmo que faz da incrível viagem do autor, e deste relato dela, uma vitória. É a determinação inabalável  a convicção mais profunda na força do indivíduo que torna o fracasso um triunfo e que faz do absurdo uma capacidade heróica de afirmação do nosso lugar neste mundo. É, no fundo, a tolice que os melhores de nós cultivam.