Helena Carneiro

Logo na primeira página, é anunciado que Ongoingness trata do diário que Sarah Manguso manteve durante vinte e cinco anos, e percebemos que o que se segue neste curto livro é uma série de reflexões sobre essa actividade de escrita. No Posfácio esclarece-se que não foi incluída qualquer entrada do diário, sendo indicadas as razões dessa decisão: Ongoingness não é sobre uma parte, mas sim sobre todo o diário (e seria impossível incluí-lo na totalidade, visto ter à data cerca de oitocentas mil palavras); o diário não foi escrito tendo em vista um público e, logo, a autora diz que não saberia como apresentá-lo a uma comunidade de leitores. Não se trata de manter em segredo qualquer aspecto da vida privada: uma das afirmações mais fortes que Manguso faz é a de que o diário era escrito para que pudesse «tomar o seu lugar» (p. 14); alguém abri-lo e lê-lo não era causa de ansiedade, uma vez que escondê-lo seria para Manguso como esconder-se a si própria e subtrair-se à vida.

Registar tudo o que lhe acontecia diariamente era uma compulsão resultante do pânico de poder esquecer-se de algum desses momentos que acreditava serem essenciais para a constituição da sua identidade. Manguso afirma que escrever o diário era a sua forma de existir, recordando-se de que houve uma vez em que recusou uma boleia de um amigo, preferindo viajar num autocarro que demoraria mais quatro horas porque precisava de escrever no diário – não se tratava de uma actividade inócua, mas sim de «um vício» (p. 10). A cura para este vício foi uma «mudança de ideias» (p. 84) que a autora atribui a um acontecimento na sua vida: Manguso foi mãe. A partir desse momento, a sua necessidade de escrever no diário (que a autora chegou a equiparar à importância da higiene diária) foi superada pelas necessidades impostas pelo filho.  

Ao contrário do que o subtítulo anuncia, a autora não deixou de manter o diário; o que terminou não foi essa actividade, mas sim o que lhe estava subjacente: o modo como Manguso encarava a vida, do qual o diário era apenas um sintoma. Até ter o filho, a sua vida era tida como uma colecção de inícios e fins, de momentos, acontecimentos e relações com limites definidos no tempo; depois de ser mãe, Manguso declara que passou a «habitar o tempo de forma diferente» (p. 52), enquanto continuidade. Há, para esta mudança, factores fisiológicos a ter em conta, como a amnésia gestacional que a autora desenvolveu durante a gravidez (instância suficientemente irónica para alguém obcecado com a memória) e a privação de sono após o parto que chegou a fazer com que não tivesse sequer energia para mudar de pijama durante quatro dias.

Este processo terapêutico permitiu a Manguso definir-se como «acabada» (p. 81), livrando-se assim da ansiedade causada pelo «sonho de puro potencial» (p. 22) em que vivia. Ao contrário das suas amigas que constantemente se questionam sobre virem um dia a ser mães, ou não, ou dos seus jovens alunos que ainda habitam o espectro quase infinito das possibilidades não concretizadas, Manguso admite que é um privilégio saber aquilo que já não virá a ser: não ser mãe é uma das coisas que deixou de ser possível. Assim como este estado é permanente, a autora acredita que a mudança de ideias causada por ele goza do mesmo estatuto.

Entende-se então que a autora acredita que já não sofrerá mais nenhuma transformação abrupta na sua forma de pensar no tempo de vida que lhe resta (apesar de ter apenas 41 anos), o que significa que será improvável a repetição de actos como aquele que teve lugar aquando de uma releitura de todo o diário antes de ter sido mãe: chegada àquilo que escreveu em 1996, e «não havendo aí nada de consequência» (p. 20), eliminou esse ano do diário. Podendo esta atitude causar perplexidade, considere-se que optar por eliminar as entradas desse ano não é muito diferente das escolhas que Manguso admite fazer de cada vez que escreve no diário: é sempre necessário definir «o que omitir, o que esquecer», uma «sanduíche memorável, um lanço de escadas imemorável» (p. 6). A autora acaba por confessar que, afinal, não queria lembrar-se de tudo. A obsessão de Manguso com a memória é uma obsessão com exercer controlo não só sobre aquilo de que ela se lembrará acerca da sua vida, mas também sobre aquilo que os outros se recordarão dela (neste sentido, 1996 seria um lanço de escadas que não ia dar a lado nenhum).

Contudo, não é possível controlar as memórias que as pessoas com quem nos relacionamos guardam de nós, assim como não é possível ter memória selectiva. Manguso relata como certos momentos passados com o filho fizeram com que se recordasse pela primeira vez de episódios da sua própria infância, como continua a lembrar-se (e a incomodar-se com isso) de actos embaraçosos presenciados por outras pessoas, ou como aquilo que mais a perturba é pensar que daqui a século e meio não existirá ninguém vivo que a tenha conhecido. Quando a mãe do marido morre, a autora conta-nos como a partir daquele momento só restaria uma pessoa no mundo que o teria conhecido desde que nasceu. A continuidade da existência de um ser humano, que Manguso até certo ponto fez depender daquilo que registava no diário, depende igualmente das pessoas com quem mantemos relações e que constituem repositórios únicos de uma parte de nós.

É realmente improvável que Manguso volte a ver como inconsequente alguma entrada do diário, como se verificou com o que constava do ano de 1996, uma vez que os assuntos registados são, agora, maioritariamente sobre o filho e não apenas sobre ela: uma vez que a autora acredita que cumpriu o seu potencial, deixou de existir a preocupação de se «acabar», que era até aí a função do diário. O que parece desadequado é a utilização que Manguso faz do conceito de «inconsequência», visto que ela assume que o seu trabalho consiste em «pensar e escrever sobre si própria» (p. 92). A autora acredita que aquilo que faz pode ajudar o mundo e impedir pessoas de cometer suicídio, e não há qualquer sobranceria nestas afirmações, apenas a crença de que escrever sobre a sua vida e a sua experiência pode ser equiparado a salvar pessoas de morrerem de malária fornecendo-lhes a medicação adequada. Se é este o caso, é estranho que Manguso declare que não quis incluir nenhuma parte do diário em Ongoingness por a maioria das entradas que o constituem não prefigurarem nada; quando diz que «aquilo que o diário inclui acontece no presente e depois desaparece» (p. 94), parece esquecer-se que o que o diário prefigura, segundo as condições por ela anteriormente estabelecidas, é a própria Manguso – o objecto do seu trabalho.

Ao qualificar o diário como «inconsequente», Manguso está, mais uma vez, como fez com o ano de 1996, a rejeitar aquilo que antes julgava poder substituí-la na sua ausência. A autora está a retractar o seu modo de vida antes de ter o filho, porque o que antes poderia tomar o lugar dela passou a ser apenas «escrita», em vez de ser «experiência» (p. 86). O pressuposto é o de que Ongoingness está então a tomar o lugar do diário, no sentido em que, como Manguso afirma, é suposto ser um relato de «pura experiência» (p. 91). Este livro, o seu trabalho mais recente para o bem da humanidade, começou a ser pensado ainda nos primeiros meses de maternidade e é descrito pela autora como «uma colagem de pedaços já expelidos que acabam por ter coerência, um lembrete de que o que por vezes parece uma interrupção violenta raramente o é» (p. 46). Porém, aquilo que lhe poderia dar coerência, a própria autora, parece ter sido eliminado.

Acabando por ser um conjunto de reflexões sobre uma mudança importante na vida de Manguso, Ongoingness falha no relato de experiência que era pretendido, precisamente por não conseguir ser suficientemente pessoal de modo a possibilitar a generalidade que Manguso almeja. Embora sejam relatados acontecimentos da vida privada, não são fornecidos elementos que permitam uma ligação forte àquilo que é descrito e as reflexões feitas com base nesses acontecimentos ficam fragilizadas. Uma pessoa não é constituída apenas por reflexões e, nesse sentido, os «pedaços» que a autora decide incluir aqui são dotados da mesma arbitrariedade das entradas do diário que Manguso decidiu por isso mesmo excluir. A ideia que a autora tem de preparação de um livro para um público parece residir na eliminação de coordenadas concretas que permitam ao leitor formar uma ideia da pessoa que tem essas reflexões.

Embora seja perceptível que Manguso adopta uma estrutura que reflecte a «continuidade» com que agora vê a vida, dando a impressão de escrever à medida que se vai lembrando de certas coisas, essa decisão implica abdicar de uma narrativa mais adequada ao que Manguso quer mostrar: como a sua vida mudou depois de ter um filho. Para contar essa história, no entanto, falta uma ordenação que confira necessidade aos elementos escolhidos para constituir este livro, e é a forma pela qual a autora opta que também contribui para que se duvide de que Ongoingness seja mais consequente do que o diário.

Tal como não é possível controlar o tipo de memórias que as outras pessoas vão guardar de nós, não há como controlar o modo como os leitores vão receber uma obra; mesmo que tenhamos as melhores intenções, como salvar uma vida, a verdade é que nunca sabemos aquilo que constituirá a salvação alheia. Assim, quando Manguso, mesmo no final do Posfácio, nos pede que acreditemos no diário como um acto de fé (visto neste livro não nos serem dadas provas da sua existência para além da sua palavra), ficamos com a sensação de que seria a leitura desse diário que poderia de facto conter a nossa salvação.