Elisabete M. de Sousa

A trilogia Old Filth reúne três romances de Jane Gardam (n. 1928) cuja publicação se estendeu praticamente ao longo de uma década. O primeiro volume dá o título à própria trilogia e foi inicialmente publicado em 2004 na Chatto & Windus, a mesma editora que publicaria a primeira edição do segundo tomo em 2009, intitulado The Man with the Wooden Hat. Em 2013, sairia Last Friends no grupo Little, Brown, o mesmo que com a chancela Abacus tem publicado em paperback as sucessivas reimpressões dos dois primeiros volumes, assim como da trilogia completa. A trilogia catapultou Gardam para fora do círculo anglo-saxónico onde as suas anteriores obras tinham gravitado, conquistando, designadamente, os mercados americano e australiano. Assiste-se desde então a um amplo reconhecimento do seu talento ímpar como contadora de histórias e criadora de personagens que não cessam de surpreender pela força vital que delas emana, assim como pela ousadia com que deixam a respectiva vida acontecer, muitas vezes em circunstâncias que decorrem no limiar da sobrevivência física e da dos afectos, em contextos igualmente marcados pela sobrevivência ou pelo estertor das épocas históricas em que esse sobreviver das personagens se desenrola.

O ponto prévio deste apontamento sobre a trilogia Old Filth tem inevitavelmente de passar pela fonte de inspiração reconhecida pela própria autora na nota final inserida no primeiro volume da trilogia. Refiro-me ao conto “Baa Baa Black Sheep” (1888) e à autobiografia Something of Myself (1937) de Rudyard Kipling (publicados recentemente em conjunto). Daqui retirou Gardam material para reconstituir a infância de Sir Edward Feathers, a personagem que se tornará Old Filth, o típico filho/órfão do Raj, i.e. a criança que constitui um caso paradigmático da educação experienciada com traumas tão inevitáveis quanto profundos, designadamente pelos filhos dos colonos do império britânico, retirados do seio da família de sangue para serem colocados em famílias de acolhimento na Grã-Bretanha, e saindo posteriormente destas para diferentes prep e public schools. O segundo ponto prévio, como Gardam explica na introdução ao primeiro volume, tem maiores implicações para o desenvolvimento do enredo da trilogia na sua totalidade, e prende-se com o facto de, em 1996, Gardam ter publicado, na revista The Oldie, um conto com o mesmo título da trilogia, no qual encontramos in nuce alguns dos episódios e traços de carácter de várias personagens que compõem a intriga romanesca da trilogia. Estes dois factores poderiam eliminar o elemento surpresa que o leitor procura habitualmente na leitura de um romance e levá-lo a pensar que a trilogia se constrói por mera expansão a partir deste conto e da inspiração em Kipling. Ora, nada disto acontece. Surpresa, a que se alia a curiosidade, sobre o destino das personagens são sensações que não faltarão ao leitor ao longo dos três volumes. E a surpresa e a curiosidade sobre o modo de construção narrativa acompanharão o leitor da primeira à última página. Olhemos então como estes mecanismos realizam um percurso de vaivém entre a obra e o leitor, recorrendo a alguns exemplos que possam minimizar danos quer na descoberta das surpresas quer no despertar da curiosidade do leitor que se queira iniciar em Gardam. Para tal, abster-me-ei de oferecer sinopses, preferindo partilhar algumas impressões que, a meu ver, atestam a mestria de Gardam como romancista e apelam a candidatos que se lancem a uma ávida leitura da trilogia.

Começo pelo título. Na cena de abertura do primeiro volume da trilogia, ficamos a saber o que significa Old Filth, aplicado ao já lendário e consagrado juiz Sir Edward Feathers QC. “Old” não só porque já está obviamente aposentado, mas por ser figura titular entre todos os juízes que se reúnem para almoçar no Inner Temple em Londres, e Filth porque “failed-in-London-try-Hong Kong”. Melhor nome emblemático será difícil de encontrar, dado que nos apercebemos imediatamente de que há nele um inexorável carácter de lutador, e também da enorme capacitação do decidir desta personagem. Old Filth é sem dúvida o protagonista da trilogia, apesar da estrutura capitular e da organização de cada um dos volumes individualmente tomados que adiante descrevemos sucintamente, pois é ele quem interage directamente com todas as outras, à excepção das que são parte constitutiva do passado de outras personagens antes do seu encontro com Edward. Mas a expressão “old filth” será também utilizada pelo próprio Sir Edward num momento de autodepreciação e censura, ao confessar um pecado da sua infância, que julga exclusivamente seu. Por outro lado, ao escolher Old Filth para designar a trilogia, certamente que Gardam remete para a preponderância da personagem principal, mas também para todo o manancial de tralha que um baú de memórias acumula, as quais, se não forem arrumadas e remexidas periodicamente, acabam por putrificar ou mumificar.

A imagem deste tipo particular de baú de memórias servir-me-á para apontar alguns aspectos da estruturação capitular de cada volume, da interligação dos três, e do papel que a recordação desempenha neste processo. Gardam rompe com estruturações lógicas de natureza temporal ou espacial. Em cada um dos volumes assistimos à narração de episódios, organizados em secções sem sequência cronológica rigorosa, o que acaba por contrariar a expectável sucessão encadeada de acontecimentos dentro de cada uma dessas secções. Na realidade, essas sequências são subitamente invadidas por segmentos de vivências já ocorridas noutros tempos ou em outros lugares, ou, então, pela expressão de intuições ou alusões que indiciam acontecimentos futuros. Em larga medida, esta estratégia narrativa constitui um excelente exemplo da relação dialéctica entre repetir e recordar proposta por S. Kierkegaard, em A Repetição: “Repetição e recordação são o mesmo movimento, apenas em direcção oposta; pois aquilo que se recorda, foi, repete-se para trás; enquanto a repetição propriamente dita é recordada para diante.” (p. 32). O que está em causa, portanto, não é uma história linear, mas o modo como os acontecimentos se criaram em história dentro de nós. Considerando que, em cada um dos três volumes, a acção e a trama são tecidas em torno de personagens diferentes, unidas numa triangulação amorosa, mas também de emoções e sentimentos que extravasam clichés (em Old Filth, Sir Edward; Betty, em The Man in the Wooden Hat; Veneering em Last Friends), a dialéctica entre repetição e recordação derruba, então, a barreira das páginas, passando a desempenhar um papel fulcral no acto de leitura. Diga-se, aliás, que o fio narrativo que acompanha cada uma destas personagens nos três volumes repete e recorda frequentemente o que já antes fora lido, arrumando-se assim as memórias em torno de um mesmo acontecimento descrito diferentemente por várias personagens. Deste remexer e arrumar de memórias exala a fragrância da vida e não a da morte. Embora ao longo da trilogia sejam mais frequentes as mortes do que os nascimentos, e a impossibilidade de concretizar a vida na sua plenitude seja um dos seus temas mais interessantes, a possibilidade de renascer é actuante na generalidade das personagens.

Ao contrário do provérbio que nos ensina a desconfiar dos pontos acrescentados por quem conta um conto, em Gardam, sem esses pontos acrescentados, estaríamos diante de um conjunto mais ou menos trivial de recordações e de considerações inevitáveis em romances que abrangem um largo espectro temporal, como é o do caso presente, que nos ocupa dos finais da Primeira Guerra Mundial até à actualidade, dos tempos áureos do Império Britânico até ao seu desaparecimento, passando pelo Blitz, pela reconstrução no pós-guerra, pela questão irlandesa, pelo aparecimento de novas gerações pós-coloniais, culminando com a transmissão de poderes em Hong Kong. Acontece, contudo, que o contexto epocal é sempre transmitido como parte de um modus vivendi do conjunto das personagens e não como um mero pano de fundo. Esta estratégia contribui decisivamente para que, neste tríptico, o particular contido no pensar e no agir de cada personagem surja como uma peça constitutiva do mosaico da época em que decorre, o que, por seu turno, infunde no leitor a ideia de que não se trata de uma época que termina, mas de uma nova que se inicia.

Cito ainda as palavras de Kierkegaard, que imediatamente se seguem à definição da relação dialéctica entre recordar e repetir, como mote para algumas considerações sobre o fino traço do desenho de personagens e sobre a fascinante panóplia de gente que encontramos nestas páginas. Prossegue então Kierkegaard: “Deste modo a repetição, se é possível, faz o homem feliz, ao passo que a recordação o faz infeliz, isto designadamente sob condição de que ele a si mesmo conceda tempo para viver e não trate de encontrar logo no momento do seu nascimento um pretexto para se esgueirar outra vez da vida, por exemplo, ter-se esquecido de alguma coisa.” Mais uma vez, dificilmente encontraria eu uma descrição tão viva do que torna os personagens desta trilogia companheiros admiráveis de jornadas de leitura. Ora, por um lado, não me recordo de casos de personagens que se tenham esgueirado ao seu nascimento e à sua primeira infância, i.e. que tenham renegado a sua origem, ou não tenham contrariado fatalidades que as tenham atingido – e os casos de Sir Edward e de Veneering serão porventura os mais exemplares. Por outro lado, concedem-se a si mesmos tempo para viver: nas circunstâncias mais trágicas, descobrem saídas para novas experiências de vida, as quais nos abrem janelas para mundos que, à partida, estariam tão vedados ao leitor como a eles mesmos, em vários planos, dos quais destaco dois. Um está relacionado com os diversos microcosmos que passamos a conhecer; entre outros, jóias e a importância do jade, as condições de hospitalização no pós-guerra, o que era ser missionário em Hong Kong na década de 1950, os comboios de navios de refugiados, as transformações trazidas pela generalização das auto-estradas, e, obviamente, o mundo do Direito, com todas as implicações que estes microcosmos trazem para o quotidiano das personagens. Gostaria de designar o segundo plano que destaco como as mil e uma formas que o amor e a amizade podem tomar no modo como buscam os pólos opostos, o ódio e a inimizade. Na teia de relações que aqui é mostrada não há propriamente lugar para a inveja ou para o ciúme, em relações conjugais ou de amizade. Antes são criadas situações que nos levam a questionar os consensos habituais em torno da fidelidade, da entreajuda, da paixão, do respeito mútuo, e, principalmente, da inevitável transformação de sentimentos ao longo da vida, não porque o original se tenha tornado fraco ou ineficaz, mas exactamente porque o novo sentimento sobrevive o anterior. A riqueza destes planos é tal que não espantaria que aparecessem novos livros que desenvolvessem os microcosmos vivenciais e as modalidades de sentimentos em personagens dificilmente designáveis por secundárias, por tão excelentes e determinantes serem (vd. entrevista de Jane Gardam ao The Telegraph, em 30 de Agosto de 2015.

Isobel, o verdadeiro homem do chapéu de madeira, ou até Fiscal-Smith. O que terão eles visto que todos os outros não viram? Como terão eles deixado que a vida lhes acontecesse? Como poderá ser organizada a história das suas próprias recordações? Como repetirão eles os acontecimentos que conjuntamente viveram com Old Filth, Betty ou Veneering? Não sou eu certamente a única pessoa curiosa de conhecer as surpresas que nos podem estar ainda reservadas.

 

Referências

Rudyard Kipling. 2013. Something of Myself and Other Autobiographical Writings. Cambridge: CUP, pp. 1-134; 135-170.

Soren Kierkegaard. 2009. A Repetição. Trad. José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d’Água.

Entrevista a Jane Gardam: http://www.telegraph.co.uk/culture/books/10131895/Jane-Gardam-interview.html