Pedro Tiago Ferreira

Hans Ulrich Gumbrecht começa por identificar, logo nas primeiras páginas de The Powers of Philology, dois sentidos habitualmente atribuídos ao termo «filologia»: “On the one side, you will find definitions of the word philology that, bringing it back to its etymological meaning of ‘interest in or fascination with words,’ make the notion synonymous with any study of language or, even more generally, with almost any study of any product of the human spirit. On the other, more specific and more familiar side, however, philology is narrowly circumscribed to mean a historical text curatorship that refers exclusively to written texts.” (p. 2)

O primeiro sentido é, na realidade, uma amálgama de definições de actividades que se dedicam ao estudo de qualquer produto do espírito humano. Ivo Castro explica as razões pelas quais o termo “filologia” foi adquirindo, ao longo do tempo, esta capacidade para ser usado num escopo tão amplo:

“É frequente (…) vermos (…) as actividades centradas no estudo da produção de linguagem e de literatura serem classificadas como filológicas (…). Isto porque o uso corrente da língua continua a chamar filólogos aos linguistas, aos literatos e a outros estudiosos afins, sem que estes se reconheçam na designação ou sequer a apreciem como justa descrição das suas ocupações. Existe uma inadequação entre o significado geral e tradicional do termo ‘Filologia’ e algumas disciplinas científicas ou artísticas a que ele é atribuído, inadequação que decorre de não ser tomada em conta a autonomização que essas disciplinas (designadamente a linguística e as ciências literárias) alcançaram a partir do séc. XIX em relação à sua raiz comum.” (Castro, 1997: 602-3)

Gumbrecht não está interessado em explorar os diferentes usos do termo “filologia” que podem ser agrupados no primeiro dos dois sentidos acima mencionados, razão pela qual adverte que “filologia” é um vocábulo usado, ao longo da obra, sempre no segundo sentido (p. 2), ou seja, “filologia” é, em The Powers of Philology, uma curadoria de texto (escrito) histórico. Esta concepção tem, segundo Gumbrecht, quatro implicações, a saber:

1. Há uma afinidade entre a prática filológica e os períodos históricos que se consideram a si próprios sucessores cronológicos de grandes momentos culturais. Verifica-se uma tendência para se considerar o passado e o seu grande momento cultural como mais importantes do que o momento cultural contemporâneo. Gumbrecht ilustra esta tese referindo-se às seguintes épocas históricas: a cultura helénica dos séculos III e II a.C., que é considerada a era da origem histórica da filologia, e que se seguiu à era de Sócrates e de Platão; o Renascimento europeu, época em que os humanistas se debruçaram afincadamente sobre os textos da antiguidade clássica; o Romantismo do século XIX, com a sua nostalgia pela Idade Média (pp. 2-3). 

2. A filologia advém do desejo de alcançar o passado textual, razão pela qual a sua tarefa nuclear é identificar e restaurar textos de um determinado passado cultural. Isto realiza-se através de três práticas fundamentais: a identificação daqueles textos que chegaram ao presente como fragmentos; a compilação, quando existirem, das variantes textuais de um determinado texto, que deverão ser apresentadas na sua pluralidade ou condensadas numa proposta de versão original ou mais valiosa; o comentário destinado a preencher o espaço que medeia o conhecimento próprio dos leitores para quem o texto foi originalmente escrito (i.e. contemporâneos do autor) e o conhecimento típico dos leitores de eras posteriores (p. 3).

3. A identificação e o restauro de textos do passado, ou seja, a filologia tal como entendida por Gumbrecht neste livro, não se confundem com o espaço da hermenêutica. A filologia cultiva uma imagem de si própria como actividade cujos valores-chave são a sobriedade, a objectividade e a racionalidade, ao invés de confiar na inspiração e nas intuições de grandes intérpretes, como acontecia, por exemplo, no período da crítica literária conhecido como New Criticism (pp. 3-4).  

4. Segue-se dos três primeiros pontos que a filologia desempenha um papel fundamental e frequentemente predominante no seio das disciplinas académicas que lidam com os segmentos mais remotos do passado, desde que existam, pelo menos, alguns vestígios de uma tradição escrita desse mesmo passado (p. 4).

O resto da obra desenvolve as ideias apresentadas por Gumbrecht no capítulo introdutório (pp. 1-8), aptamente intitulado “Quais são os poderes da filologia?” O capítulo 1 (pp. 9-23) é dedicado à actividade que consiste em identificar que textos são fragmentos, e o capítulo 2 (pp. 24-40) às formas como esses mesmos textos podem e devem ser editados. O capítulo 3 (pp. 41-53) aprofunda as estratégias de redacção dos comentários que estabelecem o elo de ligação entre os conhecimentos que o texto pressupõe que os leitores contemporâneos teriam e os conhecimentos próprios dos leitores de épocas posteriores, nomeadamente dos contemporâneos do filólogo. Os últimos dois capítulos são um desenvolvimento do quarto ponto. O capítulo 4 (pp. 54-67) realça a importância do enquadramento histórico dos textos a criticar, discutindo, contudo, duas tendências recentes da “historicização” identificadas por Gumbrecht, nomeadamente a de tentar antecipar o futuro através de uma análise do passado e a de tentar falar com os mortos. (Gumbrecht conclui este capítulo afirmando: “This is a zone that we normally either describe as the ‘humanly impossible’ or associate with what we imagine to be ‘divine qualities.’ To anticipate the future and to speak to the dead could be, in this sense, the beginning of the illusion of becoming eternal.”) O capítulo 5 (pp. 68-89), intitulado “Teaching”, faz uma ligação entre a prática filológica e o ensino universitário, com Gumbrecht a deixar várias notas e sugestões acerca de como a universidade deve encarar a formação de novos filólogos.

A visão da filologia como curadoria de texto escrito histórico parece-nos o argumento mais inovador, no campo da filologia, que este livro oferece. Com efeito, todos os restantes argumentos, de ordem mais técnica, giram em torno do conceito de que editar é ser responsável pela curadoria de um texto, da mesma forma que, por exemplo, o curador de obras de arte restaura ou impede a degeneração das mesmas. O curador textual (termo que Gumbrecht não usa, mas que decorre naturalmente do facto de o responsável pela curadoria de um texto histórico ser um curador) vai, no entanto, muito além daquilo que é exigido, ou exigível, ao curador de arte. Ambos restauram aquilo que Gumbrecht designa por “fragmento”, tendo em vista reconstituir o original entretanto parcialmente perdido. Todavia, se no caso de obras de arte ou de edifícios parcialmente destruídos não há dúvida de que se está perante fragmentos, a fragmentariedade dos textos escritos faz surgir um mar de dúvidas e de questões que não são de resolução fácil, nomeadamente a de saber se aquilo que é encontrado é, efectivamente, um fragmento, ou se apenas tem esse aspecto. Se o curador textual tiver, como o curador de uma obra de arte ou de um edifício, como missão restaurar o texto de forma a devolvê-lo, o mais possível, ao aspecto que tinha antes de se ter fragmentado, então, em princípio, apenas lhe será legítimo debruçar-se sobre textos que outrora foram completos mas que, por qualquer motivo, deixaram de o ser. Isto é problemático porque editar Heraclito, por exemplo, só seria legítimo se os escritos deste filósofo, que realmente têm um aspecto fragmentário, tivessem sido concebidos pelo próprio como um texto completo. Por outras palavras, textos aparentemente fragmentários, como aforismos ou o fragmento romântico, não precisam de curadoria textual se não se encontrarem num estado de ruína.

Diríamos, por conseguinte, que a metáfora do fragmento como texto em ruínas justifica uma parte do trabalho do curador textual, mas não o esgota. Este é um ponto em que Gumbrecht, contudo, não é totalmente claro. Em princípio, por fazer uma ligação forte entre a crítica textual do presente e o passado que o labor filológico visa desvendar, a metáfora das ruínas é necessária, ou seja, o que não está em ruínas não precisa de restauro e, por isso, não é objecto da curadoria textual. Este não é, todavia, o único desiderato dos filólogos. A aparente incongruência de Gumbrecht, que, com efeito, não nega explicitamente que os filólogos possam fazer outras coisas além de restaurar textos em ruínas, desfaz-se se constatarmos que todo o argumento de Gumbrecht está pensado para a crítica textual tradicional, ou seja, a crítica que procura reconstruir o original ausente. Com o advento da crítica textual moderna, ou seja, da crítica textual que trabalha sobre originais, o escopo de actividades do filólogo, enquanto curador textual, alargou-se, na medida em que a crítica textual deixou de ser exclusivamente uma actividade de reconstrução do urtext, isto é, o texto original perdido ao longo do tempo, do qual, na actualidade, só sobram “ruínas”, dado que trabalhar sobre um original presente é diferente de trabalhar sobre um original ausente, que não está acessível ao curador textual. Dito por outras palavras, o curador do original ausente (crítica textual tradicional) tenta reconstruir um texto que se pode equiparar a uma ruína, ao passo que o curador do original presente (crítica textual moderna) se preocupa, em grande medida, em fixar um texto que pode ter múltiplas variantes não em resultado de um processo de ruína, mas, por exemplo, devido a inacabamento (como acontece com a obra de Fernando Pessoa), inacabamento esse que pode surgir em virtude de haver múltiplos originais com conteúdo divergente ou de, havendo um único testemunho original, o mesmo conter variantes. Assim, o escopo de actividades do curador textual em geral alarga-se porque o crítico textual tradicional trabalha sobre "ruínas", ao passo que o crítico textual moderno trabalha, por exemplo, sobre textos que não chegaram a ser acabados. Note-se, contudo, que o inacabamento é apenas um exemplo das várias actividades que, em abstracto, se podem vir a colocar na órbita do crítico textual moderno. Outro exemplo que pode ser dado é o da crítica genética, que não lida nem com “ruínas”, nem com textos inacabados, preocupando-se, sim, em traçar a história da produção autoral (como acontece, por exemplo, com Ulysses, de James Joyce, que, sendo um texto acabado e publicado durante a vida do autor, pode ser objecto de estudos genéticos em virtude de os seus originais conterem variantes).

Deste modo, seria injusto criticar Gumbrecht por uma falha que, verdadeiramente, não o é, dado que a crítica do original presente não é o objecto do seu estudo. Em todo o caso, parece-nos digno de reparo que esta distinção não tenha sido feita explicitamente pelo próprio Gumbrecht, que, dessa forma, propõe um argumento muito interessante, o de encarar o texto fragmentário como uma ruína, mas não explica as razões pelas quais o curador textual não deveria exercer a sua actividade sobre textos que não estão num estado ruinoso. Naturalmente, tudo depende das opções de cada filólogo; assim, se este optar por se debruçar sobre um texto cujo original está ausente, sendo, por esse motivo, necessário fazer a curadoria de um objecto do passado, estará a trabalhar sobre uma ruína. Caso contrário, a metáfora da ruína não é adequada para explicar o labor crítico. Mas The Powers of Philology só se preocupa, nitidamente, com o primeiro caso.

Referências:

Ivo Castro. 1997. “Filologia”, in Biblos – Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Vol. 2. Verbo, pp. 602-9.