Ana Margarida Ferraria

No segundo volume da trilogia Os Nossos Antepassados (I Nostri Antenati), O Barão Trepador (Il Barone Rampante), publicado originalmente em 1957, Italo Calvino substitui as temática da guerra e da alienação do homem, fundamentais para O Visconte Cortado ao Meio, por uma busca mais ampla e espiritual da individualidade humana. Para isso, o autor faz incidir toda a acção num período histórico preciso – entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX – e num espaço físico bem delineado.

Cósimo, filho primogénito do barão de Rondó, de Ombrosa, e portanto herdeiro do título, recusa, no almoço de família do dia 15 de Junho de 1767, tocar no prato de caracóis que a sua irmã havia preparado e, quando obrigado a sair da mesa de jantar, decide trepar para o álamo onde se costumava esconder, desta feita para não mais descer (p. 95). Assim se dá início a uma aventura que durará mais de seis décadas, na qual se contam eventos históricos, paixões e comportamentos humanos, sempre vistos e vividos por entre as folhas e os galhos das árvores que Cósimo visita. O narrador, Biagio, filho cadete do barão de Rondó, descreve as acções do irmão e das outras personagens, mas relata, acima de tudo, as histórias que o outro lhe conta. Estas passar-se-ão por toda a Europa Central, tão longe quanto se espalham as árvores que Cósimo habita e através das quais se desloca. O narrador adverte-nos por diversas ocasiões sobre a inverosimilhança dos seus relatos, mostrando-se incrédulo em relação às histórias que o irmão lhe conta; decide, contudo, torná-las públicas, deixando que o hipotético leitor decida sobre a sua veracidade, ao mesmo tempo que lhe transmite um gosto pelo fabuloso e pelo absurdo.

Abstracção feita do facto de Cósimo não voltar, desde os doze anos, a tocar o solo firme, a sua vida não difere assim tanto de uma vida humana normal, de que constam amizades, paixões, viagens, descobertas literárias, militâncias políticas e responsabilidades familiares. O mundo do futuro barão assemelha-se ao de muitas figuras literárias do século das luzes, diferenciando-se apenas pela perspectiva particular a que a escolha do seu habitat obriga. O que este livro pretende mostrar não é tanto um novo mundo, mas um mundo igual a tantos outros, visto por um prisma diferente. Só por abdicar da vida confortável na villa pode Cósimo – assim como o irmão – ganhar consciência das comodidades que perde e das liberdades que ganha (p. 111). Contudo, se o leitor pensa que este conto trata substancialmente da dicotomia que existe entre liberdade e conforto, engana-se. Cósimo nunca se vê livre das suas responsabilidades nem das suas paixões. “Um gentil-homem, senhor meu pai”, afirma Cósimo certa vez, “tanto o é em terra como estando em cima das árvores” (p 145). Se é a sua condição que motiva muitos dos seus encontros e suas acções subsequentes, estes não deixam de ser produto do seu século e da conjuntura social que neste se vive. A decisão de não voltar a tocar com os pés no solo não afecta mais do que acidentalmente os episódios que compõem a vida de Cósimo, nunca resultando numa tomada de posição inflexível ou dogmática.

É graças à sua vida por entre as árvores que o futuro barão pode passar para o jardim dos Ondariva, inimigos do seu pai, onde conhece Viola, o grande amor da sua vida (p. 99), e é graças a ela que entra em contacto com os ladrões de fruta (p. 115). É por ocupar o seu tempo livre a ver os camponeses trabalhar, à falta de melhor entretém em cima das árvores, que toma a iniciativa de lhes dirigir a palavra, e é devido à sua posição geográfica privilegiada que conhece João dos Bosques, salteador famoso na região que lhe passa o gosto pela literatura – que o virá a perder –, que descobre o prazer de ser útil aos outros (p. 193) e que compreende que um homem é mais feliz e mais forte quando se associa com os demais (p. 198).

Certa vez, já barão, após a morte do seu pai, decide ir a Olivabassa conhecer um grupo de espanhóis que, por se verem desterrados do seu país, também moram nas árvores (p. 220). Aí contacta com as obras de Rousseau e de Montesquieu, mas também com os representantes da Santa Inquisição. Mais tarde, de volta a Ombrosa, reencontra D. Sulpício, o membro da Companhia de Jesus que conhecera em Olivabassa e que formara agora uma milícia armada para combater “as ideias novas e o ateísmo”, ideias essas que o barão defende, declarando-se pedreiro-livre (p. 289). Cósimo pertence, de resto, a uma série de associações e conferências de misteres, demonstrando interesse pelos diversos ofícios e formas de vida do povo. Esta sua paixão pelas associações evidencia, segundo o irmão, a singularidade do seu carácter. “Era uma ideia de sociedade universal o que ele tinha em mente”, explica o narrador, tornando evidente a facilidade com que o barão passava do particular para o geral, nunca levando a bom termo nenhuma das suas lutas (p. 292). Seguem-se conflitos políticos derivados do jacobinismo de Cósimo (p. 299), a formação da municipalité de Ombrosa, à francesa (p. 308), a visita de Napoleão, após a sua coroação em Milão (p. 310), e a passagem de regimentos escapados da derrota de Austerlitz, assim como dos russos vitoriosos. Deste modo se desenrola, para Cósimo, para o seu irmão, e para os habitantes de Ombrosa, o século das luzes, com as suas revoluções sociais e as políticas. À época da morte do barão já “os ideais da juventude, as luzes, as esperanças do século XX” tinha sido reduzidos a cinzas (p. 319).

Ao contrário da história do visconde cortado ao meio, a do barão trepador parece credível e fundamentalmente humana. O fantástico, aqui, encontra-se vinculado à condição de mobilidade de Cósimo, e não à sua essência humana, o que faz desta narrativa mais real, mais simples, mas também mais morosa. Ler a narração da vida do barão assemelha-se a ler a narração de uma qualquer vida humana, com mais ou menos episódios vulgares ou verosímeis. Cósimo sobe para as árvores num acto de desobediência e lá permanece pelo mesmo motivo que levou muito homens a manterem-se no exílio: por orgulho. Mais tarde, como seria de esperar, esta mudança radical de habitat repercute-se na sua vida, nos seus gostos e nas suas convicções. Ao ver os homens por outro prisma, Cósimo descobre-lhes outras facetas e adquire autonomia para conhecer meios que o seu estatuto aristocrático lhe vedava.

Esta fuga involuntária não é a de um misantropo e permite, a Calvino, pelo contrário, a exposição e a combinação de vários mundos que, de acordo com a sua perspectiva, podem coexistir de forma mais ou menos pacífica. O homem completo a que o autor se refere na apresentação que faz da trilogia é, portanto, aquele que tem em si o que é bom e o que é mau, e também aquele que tem a iniciativa de sair do seu contexto inicial para descobrir o mundo, e escolher, em plena consciência, as suas filiações e as suas acções. Cósimo busca a completude no humanismo, no iluminismo e na razão, de forma a alertar o homem contemporâneo de Calvino, segundo o próprio, sobre o risco que a perda de individualidade acarreta.