Telmo Rodrigues

Há muitos anos, uma pessoa muito estúpida perguntou-me se eu «agora» só lia coisas em inglês. A pergunta surgiu no contexto de uma conversa banal sobre a relevância de artistas portugueses e terá tido origem no facto de eu ter sido apanhado a ler um livro em inglês (a trilogia do Roddy Doyle, provavelmente). A implicação era a de que agora, que dominava a língua inglesa ao ponto de ler uma coisa «grande» como um livro com três romances lá dentro, seria mais um dos que desbaratam toda a arte que se produz em Portugal com tanto afinco e tanto suor. Ainda hoje me orgulho do impropério que atirei à pessoa em causa, um registo de imaturidade linguística mas de alguma maturidade intelectual.

A pequena incursão autobiográfica, a que me permito apenas por aproximação ao estilo e tom do livro de Frederico Lourenço, serve apenas para explicar que a minha reacção de surpresa perante a qualidade de O Lugar Supraceleste pode ser resultado da pouca atenção que dedico a autores portugueses contemporâneos. Por outro lado, há também a possibilidade de que se lhes desse mais atenção a minha surpresa fosse ainda maior, porque o contraste de qualidade seria mais evidente. Cínico como sou, acredito mais na segunda possibilidade.

Numa das noventa crónicas que compõem o livro, «Thisbe» (pp. 232-4), conta-se a história da cadela com esse nome. Inspirado numa personagem de Max Beerbohm, o nome era difícil de pronunciar, um «aglomerado de sibilantes» que deixava as pessoas confusas. De tal forma era assim, que Lourenço assegura ter estado prestes a mudar o nome à cadela; acabou por ser uma intervenção do pai a fazê-lo mudar de ideias: «Numa reacção tipicamente M. S. Lourenço, o meu pai disse-me que era uma ‘perfeita estupidez’ ceder à ignorância e à incultura alheias, isto em tons tão veementes que, aterrado, respondi logo ‘pronto pronto: fica Thisbe.’ E assim ficou» (p. 233). O prazer de ler o livro de Lourenço não reside na facilidade de acesso a um conjunto de referências (há coisas tão inesperadas como analogias à forma física de Britney Spears – p. 115), mas exactamente no oposto, no facto de não fazer concessões à ignorância e incultura alheias.

A distinção entre este tipo de texto e um suposto trabalho académico dilui-se na maneira como as referências literárias, filosóficas ou musicais são usadas para descrever o que é, ou foi, a vida do autor. O interesse não reside apenas em perceber aspectos particulares de certos textos ou obras musicais, mas no facto de esses iluminarem os incidentes mais comezinhos da vida. Não se põe a questão de haver uma maneira certa ou errada de usar versos ou partituras para explicar uma vida, como se só dessa maneira se pudesse explicar certas coisas; a virtude consiste em usar esses materiais para descrever de maneira mais precisa coisas que explicam a vida do autor e as decisões que a afectaram.

Num exemplo óbvio de como a relação entre arte e vida se articula neste livro, a crónica sobre o filho de Evelyn Waugh, «Auberon Waugh» (pp. 151-4), começa com a frase «pai e filho é cá uma cena»; dada a relação difícil que Lourenço manteve com o próprio pai, e que é analisada em várias crónicas, não é muito difícil perceber as afinidades que tem com um autor que abandonou a escrita de romances por causa das constantes comparações com os livros do pai. Lourenço, que, tal como o pai, é professor universitário, admitia numa entrevista ao Jornal de Leiria (11/09/2015): «uma das razões que me terão levado a concorrer a Coimbra foi poder deixar de ser ‘o filho do Manuel Lourenço’». Justificar o prazer de ler o filho de Evelyn Waugh não é apenas explicar um autor, mas estabelecer um conjunto de afinidades que definem, também, o leitor Frederico Lourenço.

A ideia de que todas estas referências são da mesma estirpe que informações claramente autobiográficas, como as crónicas sobre a mãe e o pai, é mais bem exposta na ideia de Lourenço sobre o que é a vida de um escritor: «A parte difícil é a vida: estar fora e dentro dela. Para escrever algo que valha a pena, não dá para estar, de alma e coração, na vida do mundo e na vida dos outros. Mas estando fora delas também não dá. O dilema está em conciliar a sentença de solidão perpétua que o escritor tem de aceitar com o problema de o facto de estar fora da vida lhe vedar o acesso que sustenta a escrita: a própria vida» (p. 59). O argumento é válido para romancistas, sobre quem fala neste trecho, mas é também válido para professores universitários brilhantes, sob o risco de acabar tudo como o trabalho de Lourenço pai, «cada vez mais [entendido] em termos quase caricatamente reducionistas» (p. 42). A inferência que Lourenço retira da sua posição sobre escritores é a de que construir uma carreira literária ocupa tempo e requer uma dose considerável de solidão; essa é, também, a sua posição inicial em relação às crónicas que compila, quando afirma, no prefácio, que «passa a maior parte do tempo só».  Nesse sentido, não parece haver uma distinção muito precisa entre escritores e académicos e é possível olhar para estas crónicas como uma tentativa de estar ao mesmo tempo dentro e fora da vida.  

Lourenço, o cidadão de Coimbra, ainda usa a palavra «imenso» como quantificador (uma marca de discurso tão tipicamente lisboeta), demonstrando nessa traição à cidade onde habita actualmente que não são apenas algumas crónicas que têm um teor autobiográfico: são todas produto de uma vida e dos interesses dessa vida. Serão certamente negligenciáveis alguns aspectos menores, tiques linguísticos como o uso frequente da palavra «grunho» e suas variantes, ou o uso da arroba para denotar o género neutro; e o tom demasiado ligeiro de algumas crónicas, nomeadamente as estritamente dedicadas à vida social, também é anómalo perante ao brilhantismo que o secunda.

Entre todas as coisas boas que há para descobrir em O Lugar Supraceleste, não podemos, no entanto, deixar-nos seduzir por certas posições que parece confortável aceitar, mas que serão certamente difíceis de demonstrar. É dúbio aceitar que «a arte existe para dar felicidade» (p. 61), por exemplo; ou que a «literatura não serve obviamente de nada a não ser que sirva para alguma coisa. E se serve para alguma coisa, é para transformar quem a lê» (p. 25). É absolutamente verdade que a literatura não serve para nada, mas é mais difícil entender que sirva apenas para alguma coisa se servir para transformar: seria extenuante considerar que todos os livros que lemos têm necessariamente de transformar quem somos. Ao contrário do que é proposto nessa passagem, talvez haja algo de virtuoso no leitor de Bernardo Soares que, chegado ao fim do Livro do Desassossego, não se transformou; talvez isso não diga nada nem sobre o leitor, nem sobre Pessoa: como reconhece Lourenço, não só «ninguém é obrigado a gostar do Sublime», como ninguém deve imaginar ter de ser transformado por contactar com esse mesmo Sublime.  

A ideia de que tudo tem de estar em contacto com, ou ser uma busca pelo Sublime é tão tortuosa quanto a ideia de que tudo pode ser nivelado e comparado (pp. 59-62). Fazer por manter uma relação, ainda que ténue, com aquilo que são as coisas mundanas a que chamamos vida e, nesse sentido, com as transformações que vamos sofrendo, obviamente nem todas motivadas por leitura, merece ser analisado – e é-o, neste livro. Há, certamente, livros que nos transformam, que mudam a maneira como pensamos e como fazemos as coisas; mas esses raramente pertencem àquilo que classificamos com o conceito de Sublime. Na maior parte das vezes, como no caso deste livro (ou de uma trilogia de Roddy Doyle), são os livros imperfeitos que mais nos obrigam a rever a maneira como pensamos e vivemos.