Ana Margarida Ferraria

Depois de Image, Icône, Économie (1977) e Le Commerce des Regards (2003), a filósofa francesa Marie-José Mondzain prossegue, em Homo Spectator, o seu estudo sobre a história da iconoclastia e da construção de imagens enquanto marca da distinção entre o homem e os restantes animais. Especialista no período bizantino, com um conhecimento profundo dos textos antigos, Mondzain recorre ao seu vasto saber académico para escrutinar o papel contemporâneo da imagem e a sua relação com o sujeito. Partindo de uma mudança de perspectiva que privilegia o nascimento do sujeito que vê (p. 21), em detrimento de análises retóricas e previsivelmente tautológicas sobre a distinção entre o visível e a visão, Mondzain emaranha-se em histórias e relatos eruditos que podem restringir o seu público.

Para a autora, a imagem é o local onde o ser humano se encarna, onde se transforma de Homo faber, criador de signos, em Homo sapiens, aquele “que pode saber, que pode pensar” (p. 15). O nascimento do Homo spectator confunde-se com a tomada de consciência dessa capacidade do homem mortal de “trazer ao mundo a sua eternidade” através da construção e da admiração das suas imagens e das dos outros (p. 33). Urge contar esta história desde o Paleolítico porque, apesar de, segundo a autora, ser com a invenção da imagem (e não do fogo, da palavra ou das ferramentas) que o homem nasce, não existe, até hoje, um lugar na história para o espectador. Explorar esta questão significa “relançar indefinidamente a questão do destino da humanidade nos seus dispositivos, formas e relações” (Regards n.° 47, Janeiro 2008). O objectivo, de acordo com Marie-José Mondzain, é dar a ver o que os primeiros homens que deixaram marcas viram (p. 16), contar a história da imagem do homem “feita por mão de homem” (p. 29) e, por fim, verificar se a morte do espectador (que se vê paulatinamente aniquilado pela sociedade de espectáculo e de consumo moderna) implicará a morte da humanidade (p. 17). Para isso, impõem-se as questões “o que é ver?”, “o que é ver algo?”, “o que é ver uma imagem?” (p. 17), mas também “quem é este homem espectador que está em vias de se transformar numa partícula elementar de uma massa designada «público»?” (p. 22).

Esta história (que Mondzain afirma querer contar apenas como suporte para a sua análise da relação contemporânea entre o sujeito e a imagem) tem início no homem da gruta de Chauvet (gruta ornamentada mais antiga conhecida), que inscreve pela primeira vez um sinal que nos é dirigido (p. 31). Segundo a autora, a visão destas imagens perturba-nos não pela descoberta da técnica daqueles homens, mas sim por nos sentirmos destinatários daquele sinal. A partir dali, ao tempo de viver (no Paleolítico) soma-se o tempo de projectar essa vida no futuro, o que implica a criação do espectador e da consciência da condição humana (p. 32).

A esta cena primitiva irão seguir-se cenas bíblicas (do Génesis, dos Coríntios, dos Actos), nas quais a encarnação de Cristo é tida como marco criador da cristandade e, por conseguinte, do mundo ocidental. A partir desse ponto, afirma a autora, “a imagem já não assusta, pelo contrário (…) assistimos então a uma longa e metódica elaboração doutrinal que vai gerir a distribuição da salvação por via dos prazeres e dos medos que determinam o espaço do poder no mundo visível” (p. 112). O jogo entre as imagens do medo e o prazer que delas advém irá criar a dependência do espectador e, por esse motivo, também esta história se torna fundamental ao estudo do mesmo. Acrescente-se a caverna platónica e o engendramento do homem pelo homem socrático e obtém-se uma compreensão global do mundo antigo, sobre o qual Mondzain ergue a sua narrativa do presente, presente esse que analisa com recurso às ideias de Kant, Arendt, Weber, Freud, Benjamin ou Deleuze e às imagens de Godard, Kiarostami, Rossellini, Lanzmann, Chaplin, Welles ou Eastwood.

Se o homem apenas é homem quando se torna espectador, então só a partir daí pode ser sujeito, actor e autor. Ou seja, com a visão inaugura-se o ser e o pensamento: “a imagem não faz parte dos objectos, por isso a relação do sujeito com a sua imagem não é uma relação de posse mas de desapossamento” (p. 52). Ao invés do homem que nasce na luz da criação divina, no seio de relações de forçaa que parece ser estranho, o homem da gruta de Chauvet, nascido nas trevas, “reencontra a sua noite, cria a sua claridade” (p. 49) e pode, por isso, criar-se a si mesmo num mundo em que necessariamente participa. A imagem encarna assim a cena política humana, medindo a cada instante a distância do homem relativamente aos planos do real e do ideal. Contudo, a sociedade moderna do espectáculo não tem respeitado este pressuposto. Ao fazer confundir a imagem com um objecto (instrumental), o criador retira ao espectador a liberdade de interpretar e de agir. Mondzain pretende alertar o leitor para a existência de regimes de poder que aniquilam o poder do espectador e a sua compreensão da distância entre os planos do real e do ideal.

O objectivo de Homo Spectator é construir uma narração que permita reflectir sobre os papéis do autor (aquele que cria autoridade), do actor e do distribuidor para com o espectáculo e o seu espectador. É por isso que se torna necessário analisar as imagens que criam, em oposição àquelas que paralisam e que implicam um fluxo unilateral de ideias. O autor, nomeadamente o de cinema, esclarece Mondzain, é não apenas a pessoa com o poder de mostrar, mas também aquela que cria autoridade a partir de imagens. Por esse motivo, este livro atribui um lugar importante ao cinema, de forma a analisar a imobilidade física e de pensamento do espectador. Se o poder do autor não for partilhado com o do seu espectador, isto é, se o espectador não conseguir desconstruir o objecto (o filme) e criar com ele imagens (condicionadas ao sujeito que vê), então estamos em presença de um “abuso de poder”. “As visibilidades que maltratam o olhar”, explica a autora, aquilo a que chamamos «más imagens», são aquelas que aconselham à residência, que paralisam, que estupidificam, que violentam a mobilidade” (Regards n.° 47, Janeiro 2008). Por outro lado, o espectador pode escolher ser corajoso e conservar a sua liberdade de subjectivação. Ao interrogar-se sobre os papéis do espectador, do autor, do actor e do distribuidor, Mondzain interroga-se, no fundo, sobre a sociedade de espectáculo e de consumo contemporânea, alertando para os perigos que este (novo) abuso de poder cria, através da subjugação passiva que o cinema, a televisão, a publicidade, etc., podem proporcionar.