Ana Ferraria

Il cavaliere inesistente, publicado em 1958, é o último volume da trilogia de Italo Calvino, trilogia essa que o autor reeditará, em 1960, com o título Os Nossos Antepassados (I nostri antenati), e com a qual pretende fazer despertar no homem contemporâneo do pós Segunda Guerra Mundial a consciência da raiz dos seus problemas. Calvino irá criar personagens e situações que lhe possibilitem levar ao extremo as dificuldades que pretende tratar: um visconde cortado em duas metades antagónicas, incapazes, quando separadas, de viver em harmonia com a sociedade; um barão insubordinado que, apesar de recusar os hábitos e o habitat de seus pais e de viver uma vida repleta de aventuras, não suprime nunca os seus constrangimentos sociais e as suas dúvidas morais; e, por fim, um cavaleiro perfeito, que apenas o é  em aparência, visto não possuir uma existência corpórea real. Aquilo que une estas três personagens surreais é a materialização, nos seus corpos ou no espaço que estes ocupam, da incompletude fundamental do homem moderno, que se vê alienado por uma sociedade mutilada e multifacetada que emite sinais demasiado díspares e requer respostas cautelosas e indivisíveis.

A história de Agilulfo Bertrandino das Guildivernas e outras, de Carpentas e Sura, cavaleiro de Selímpia Citerior e Fez que, apesar do nome tão faustoso não consegue mostrar o rosto a Carlos Magno, inicia-se precisamente num campo de batalha, onde este imperador combate os sarracenos; aqui são apresentadas, na forma tipicamente apressada de Calvino, outras personagens da trama: Rambaldo, jovem soldado que pretende apenas vingar seu pai e que é salvo por Baramante, jovem guerreira que, por sua vez, desiludida com os ardores dos homens vulgares, se apaixona por Agilulfo, e Gurdulu, louco que habita aquelas terras e que o imperador transforma em escudeiro de Agilulfo. Passadas as primeiras batalhas, nas quais o cavaleiro de mostra exemplar guerreiro e nobre homem, verificamos que os seus escrúpulos e a sua honradez não são bem aceites pelo imperador e pelos restantes paladinos, que o consideram como a voz de uma consciência que prefeririam não ouvir (p. 103). A perfeição, apercebemo-nos, não é uma condição nem necessária nem suficiente à existência humana. Ao invés de Agilulfo, que responde silenciosamente a Descartes que sabe que não existe, Gurdulu, que demonstra a cada momento uma personalidade diversa (imita animais, plantas, conversa com o seu pé, etc.), não sabe que existe e, por isso mesmo, somos tentados a assinalar, existe (p. 37). Gurdulu representa a multiplicidade do ser humano real face à unidade quimérica que Agilulfo encarna. Encarregue de mediar a perfeição do seu novo amo com a imperfeição possível do mundo exterior, esta personagem evoca a memória de Sancho Pança.

Neste romance, o conceito de existência combina-se com os de perfeição e satisfação: Agilulfo só é perfeito – e impossível de decompor em peças (p. 16) – porque não existe, e só atrai Baramante devido seu estado imaculado e intransponível, oposto ao dos homens que existem e que têm um corpo passível de se sujar e de ser vencido. No entanto, a inexistência física do cavaleiro não o impede de desejar, interiormente, aquilo não tem – as refeições, o sono mortal, etc. (p. 15). O amor de Rambaldo por Baramante nasce, por sua vez, do desejo de este ver a sua existência representada nos olhos da sua amada. O outro é indispensável para a concretização dos desejos do indivíduo, sem os quais a sua existência não se materializaria; isto impede a edificação de personagens singulares e auto-suficientes (um meio-visconde, um barão a-social, um cavaleiro perfeito).

No momento em que a perfeição do cavaleiro se torna insustentável para os seus companheiros de guerra irrompe, na história, Torrismundo, suposto filho de Sofrónia, filha do rei da Escócia, a cuja protecção da virgindade Agilulfo devera os seus títulos e armas (p. 106). Este é o ponto de viragem do livro. A partir daqui, as personagens esquecem a guerra e partem todas em busca de algo que, até ao momento, não lhes parecia ser necessário (p. 115): Agilulfo parte para encontrar Sofrónia, Torrismundo para encontrar o seu suposto pai – o que nos leva aos cavaleiros do Santo Graal e à crítica das suas vidas fastidiosas e corruptas (p. 167); partem também Baramante, em busca de Agilulfo, sem o qual o exército fica sem sentido, e Rambaldo, que não a quer perder. Apesar destas partidas susterem anseios psicológicos (mais do que físicos ou sentimentais) complexos, o autor aborda-as de forma apressada e linear, imprimindo-lhe um carácter cómico que, sendo transversal à trilogia, revela uma visão mais humanista do que a maioria da produção literária da década de 50. As relações intrincadas e os desejos por sublimar, relembra Calvino, estão presentes em todos os homens; um escritor deve, por isso, preocupar-se mais em descrever acções do que em escrutinar psicologias específicas. 

É tentador comparar O Cavaleiro Inexistente com D. Quixote, na medida em que ambos pretendem fazer uma crítica aos romances de cavalaria. A crítica de Calvino é, no entanto e compreensivelmente, mais abrangente e moderna que a de Cervantes, nomeadamente ao analisarmos, lado a lado, os três romances de I nostri antenati. As personagens pertencem sempre a uma classe superior e é-lhes pedido que governem, que combatam e que se mantenham asseados e impassíveis, representantes dignos de uma classe que dominou o ocidente durante séculos. Não obstante, quando em confrontos directos – numa guerra ou com a sociedade que os envolve –, as suas incapacidades, porventura naturais, são exacerbada até ao surreal, sendo-lhe retirado um certo grau de agência. Visconde, barão e cavaleiro são três representantes do homem que se apercebe finalmente das contingências que o mantêm cativo e que terão de contornar para se tornarem, gradualmente, homens mais completos (mais satisfeitos, mais reais). “Tudo é sopa”, grita, a certa altura, Gurdulú (p. 74), possivelmente a personagem mais verosímil do romance. Tudo é sopa porque tudo faz parte de um ciclo eterno da vida, onde a unidade é apenas um caminho, e não um fim. A guerra, que faz o plano de fundo da trilogia de Calvino, está destinada a durar “até à consumação dos séculos, não haverá nem vencedor nem vencido”, porque é através dela (e do diálogo, do confronto) que os homens são (p.  93); é desta guerra eterna, e das personagens que dela resultam, que nasce o narrador de histórias. Nestes contos, os narradores são personagens secundárias à acção – o sobrinho do visconde, o irmão do barão e a antiga enamorada do cavaleiro (Bradamante) – e são assumidamente, contadores de histórias pouco credíveis e possivelmente imaginadas pelos mesmos: “Assim, aquilo que não conheço procurarei imaginar. Que de outra maneira poderia eu fazer? Para mim, nem tudo é claro nesta história?” (p. 46). Para Calvino, este é o papel do escritor, o de imaginar histórias que concebam relações com a realidade, mas que não sejam limitados ao escopo da mesma; o surrealismo deve ser o mais fiel representante do universal.