Marana Borges

Ele dorme. A pouca luz que escapa quarto adentro basta para anunciar o dia, entorná-lo sobre as suas costas de garoto, insinuar na cintura a beleza oblíqua da adolescência. Todo o filme é essa pintura de um verão passado às sombras. Porque faz calor; é preciso salvar-se. Mas também é preciso salvar-se dos outros, e a penumbra é a que melhor alberga as formas, os corpos, os medos. 

David dorme, e a mãe o acordará. Está de passagem, vinda de Londres. Mais um caso típico de emigrante em busca de emprego não qualificado. Pretende ficar pouco tempo, apenas enquanto aguarda a melhora do pai (avô materno de David). Era ele, agora no hospital, quem cuidava de David e da meia-irmã, fruto de uma relação ainda problemática.

O primeiro longa-metragem do jovem cineasta João Salaviza trata de uma Lisboa fora de cartões-postais. Nada de passeios à orla do Tejo, de ruelas na Alfama ou vistas do Castelo de S. Jorge. Estamos na periferia da cidade. Aqui as vistas são de canteiro de obras, arranha-céus ou descampados à espera de novos edifícios. Dentro de casa, a natureza morta na louça suja sobre a pia. 

Na periferia de Lisboa e na geografia também periférica da adolescência, o mundo é longe demais. A mãe de David emigrou. Do avô, a quem nunca é dado um rosto nem a alta do hospital, só vemos a cadeira de rodas com a qual o neto brinca. A desagregação familiar, os pequenos crimes (outros, nem tanto) cometidos pelo garoto e seu melhor amigo Rafa e a aversão à escola resumem o percurso errático do adolescente, que muitas vezes mais vagueia do que busca. 

No longo plano fixo no protagonista, que segura um caderno todo amassado e em meio a cadeiras empilhadas com o fim do ano letivo, Salaviza encontra uma forma inteligente de mostrar a distância imperiosa entre as gerações: nessa reunião com a professora, não a vemos, apenas ouvimos sua voz monocórdica: “Perdeste o ano outra vez. O quequeres para o teu futuro?”, “Nunca pensei no meu futuro”.  

Perto do garoto estão apenas os amigos. Ou nem isso. Com Rafa e Paulinha tampouco há comunicação franca, abrindo passo à ocasião perfeita para criar um triângulo amoroso. Vivem todos à meia-luz. Sobre o peitoril de uma enorme janela, em plano aberto com a panorâmica do subúrbio ao fundo, David sai do lado extremo e percorre o caminho até Paulinha, no lado oposto. É sobre essa (difícil) tentativa de aproximação de que fala Montanha; de um verão escuro passado em interiores e, apesar disso, capaz de deixar entrar feixes da luz dourada de Lisboa – luz que, se não pode reparar as dúvidas da idade, ao menos nos lembra da sua beleza. 

David carrega a beleza andrógina no rosto ainda sem barba, no corpo ainda sem pêlos, na cintura marcada e sempre à mostra. As costas nunca se endireitam, sempre torcidas, e contam o incômodo e a indolência de um corpo que talvez tenha crescido rápido demais. Apesar de viver sob condições materiais e familiares precárias, mas não é alguém radicalmente marginalizado. No fim das contas, trata-se de um menino branco, de olhos claros. Não há negros no filme. Quer dizer, aparecem dois, longe e de relance, e tão rapidamente que nos esquecemos deles. Essa ausência chama atenção, em se tratando da vida nos subúrbios lisboetas. 

Montanha é um filme acima de tudo lírico. As imagens constroem verdadeiros quadros onde o grande homenageado talvez seja menos a adolescência e mais a pintura, especialmente o chiaroscuro de Caravaggio ou Zurbarán. A maestria das imagens revela o mérito da direção, fotografia e montagem, mas têm efeitos secundários. As interpretações dos atores, ainda que não profissionais, ficam ofuscadas, por exemplo. Excetuando o diálogo fluido entre David e Rafa em cima da ponte, o filme vive mais do rigor formal do que da espontaneidade e improviso próprios do universo retratado. A cena em que os três amigos estão deitados na cama é o exemplo mais notório da composição pictórica, mas também do planejamento minucioso e do controle excessivo de cada plano.

Há textos cujas frases, pela beleza ou estranheza, nos fazem debruçar sobre elas, e ir degustando de cada palavra. Isso, diriam alguns, acontece sempre quando se está diante de uma obra de arte. Bem sabemos, no entanto, que há obras nas quais nos demoramos mais, e por prazer. Montanha é assim. Poética. Faz-nos querer estacar diante da cena, como quem na visita ao museu detém-se numa tela e acaba por perder o grupo e o guia. Mas peca por exagero. Tropeçamos. O acúmulo de tropeços e a desconfiança em relação ao virtuosismo abreviam o êxtase. O espectador, para sair encantado, talvez não devesse prestar demasiada atenção ao artifício. Ou talvez devesse encontrar mais propósito na exuberância da imagem.