Elizabete M. de Sousa

Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Comecemos por uma brevíssima contextualização dos dois mais recentes livros de Pedro Mexia na sua variada produção. Biblioteca é o sexto livro de crónicas desde 2006, dos publicados em Portugal, e reúne sessenta e cinco crónicas inicialmente saídas em dois jornais, Público e Expresso, entre Março de 2008 e Março de 2015. É pois de assinalar que este volume inclui textos cuja génese será contemporânea de cinco dos seis livros de crónicas anteriormente editados. O título identifica-o como um conjunto de crónicas em que a literatura é o tema principal, e coloca-o de imediato como contraponto literário ao anterior livro de crónicas do autor, Cinemateca (Tinta da China, 2013). Seria interessante analisá-los em conjunto; porém, o meu propósito neste momento é o de sugerir uma leitura de contiguidade entre Biblioteca e Uma vez que tudo se perdeu. Este é o oitavo livro de poemas de Mexia, que se apresentara ao público com Duplo Império numa edição de autor em 1999, tendo publicado quatro títulos entre esta data e 2004, e outros dois, com selecções de trabalhos anteriores, em 2007 e 2011. Uma vez que tudo se perdeu dá-nos a ler quqrenta e cinco poemas, na sua maioria breves, reproduzindo o título, quase ipsis verbis, o último verso do soneto de Ruy Belo Que o medo não te tolha a mão.  

Regressemos a Biblioteca. A maioria dos textos reunidos segue um formato necessariamente breve e vincadamente informativo, realçando aspectos da vida e da obra de um autor, cuja pertinência se revela através do desenvolvimento de tópicos relevantes para o entendimento da obra ou do autor em questão. Se há textos com motivação directa em acontecimentos da actualidade ou em efemérides bio-bibliográficas, também há exemplos de crónicas nas quais prevalece o interesse particular do cronista por determinada temática que é então relacionada com um autor ou uma obra. Este tipo de exposição é invariavelmente acompanhada de uma nota de reflexão, umas vezes de carácter acidental e autobiográfico, e outras vezes mais reveladora dos percursos intelectuais do cronista. O todo é transmitido numa prosa que dá forma a uma simbiose de vida e de biografia intelectual do autor escolhido e do próprio cronista. Simbiose curiosa, já que acaba por se desdobrar em vários planos: o do autor/obra escolhidos como assunto da crónica, o do autor das crónicas e leitor desses autores, e o do leitor das crónicas presentes que será expectavelmente o futuro leitor de obras passadas. Não espanta, portanto, que muitos dos textos reunidos em Biblioteca desencadeiem um pathos intimista, colocando cronista e leitor de crónicas em situações muito próximas. Enquanto lê o que Pedro Mexia tem para lhe dizer, o leitor sente que partilha um relato indissociável das leituras do cronista, e das vicissitudes da própria vida dele, fruto de leituras que o terão levado a incursões meditativas sobre linhas de continuidade e de descontinuidade entre a vida e a obra dos autores debatidos. O leitor de Biblioteca vê-se assim testemunha de experiências e vivências literárias do cronista ao mesmo tempo que se deixa formar através da receptividade, seja ela positiva ou negativa, aos comentários apresentados e aos temas desenvolvidos. Em alguns textos, a espaços, este olhar interior e cúmplice entre autor e leitor alcança outras esferas, com Mexia a levar consigo o leitor numa dialéctica da interioridade e da exterioridade. Menciono alguns exemplos: a abordagem radicalmente entusiástica e entusiasmante que percorre «Agustina aos noventa» (p. 181-4); a interpelação frontal a outros agentes do tecido socio-político, com a classificação de Paris e Lisboa como «metrópole[s] da crueldade da calúnia e da mentira» em «Camus, a testemunha» (p. 170-3), ou em «O Banqueiro Anarquista» (p. 116-8) através da aplicação literal da primeira valência dos termos presentes no título da obra pessoana aos protagonistas da banca nacional; ou ainda por via de diatribes magistralmente acusadoras patentes nos dois casos de textos-colagem, «Camilo responde aos sábios» (p. 61-4) e «Troika» (p. 196-9). 

Por seu turno, a «devoção» a Kierkegaard, explicada em «O Quinto Evangelista» (p. 50-3), não se traduz numa mera admiração contemplativa de questões éticas do pensador dinamarquês. Não é, aliás, despiciendo que duas das formas de expressão cultivadas por Mexia, a crónica e o diário, se confrontem obrigatoriamente com a necessidade de estar presente no seu presente deixando transparecer vividamente um movimento que suscita uma observação à luz da dialéctica entre interioridade e exterioridade, tão característica de Kierkegaard. Além deste, outros sinais se encontram das leituras deste filósofo, que vão para além dos traços por elas deixados em passos de crónicas nos quais prevalece o tratamento temático da linguagem, da melancolia, do desespero, da dúvida, da verdade. É o caso da exploração dos diversos cambiantes de «interioridade negra» (para usar a expressão aplicada a Ronald Stuart Thomas, p.162), amiúde descrita como habitante do ânimo de alguns nomes maiores, na tentativa de conciliar contingências da existência dos autores reais que ficam irremediavelmente aquém das exigências póstumas da sua produção literária. 

Certas linhas de leitura de Biblioteca e Uma vez que tudo se perdeu prestam-se a um olhar contíguo aos dois volumes e podem também ser perspectivadas como apropriação de conceitos e temas caros a Kierkegaard. Escolho para este meu comentário o lugar central da memória e da estratificação do tempo. É sabido que Kierkegaard eleva a recordação a categoria, e como é determinante no âmbito da dialéctica entre repetição e recordação. Mas há um trabalho de recordação como filtro da memória que é detectável na esmagadora maioria dos textos do dinamarquês, designadamente na recorrência de temáticas por vezes tomadas apenas na sua fundamentação biográfica. A infância, o pai, a noiva, a evocação de personagens de variados universos mitológicos e de contos de fadas, são temáticas que através da materialização escrita desta dialéctica entre recordação e repetição abandonam o campo da evocação poética e entram a passos largos no domínio da auto-ficção. A par deste trabalho de recordação, o qual, pela repetição, vai criando sucessivos filtros da memória, encontramos em Kierkegaard um tratamento do passado, do presente e do futuro, por um lado, associado à angústia, e por outro, articulado com presença da infelicidade na personalidade individual. A angústia está assim ausente do presente, porque só podemos senti-la em relação ao que já passou ou em relação ao que está por vir (Ou-Ou I, p. 192) e, por seu turno, a felicidade ou infelicidade de cada um depende da sua capacidade de estar presente em si mesmo, em relação ao tempo passado, ao tempo presente e ao tempo futuro (Ou-Ou I, p. 258). 

Lembremos o registo dominante dos textos de Biblioteca caracterizados pelo que descrevi como simbiose de vida e de biografia intelectual, e em particular dois passos que ilustram bem com o que acabei de expor: «a memória filtrada» que Mexia descobre no trabalho de recordação poética de Elizabeth Bishop (p. 155), e a meditação sobre o tempo, nessa admirável formulação «Não há passado, mas lembrança; não há presente, mas atenção; não há futuro, mas espera.» (p. 22). Ora o conjunto de poemas reunido em Uma vez que tudo se perdeu é desenvolvido em grande parte em torno destes dois eixos através da criação de diferentes graus de intensidade e de tensão entre memória e tempo. Um primeiro grau, óbvio mas menos vibrante, é consumado através de simples leituras remissivas do leitor entre a capa, o título, a explicação do autor na badana, a epígrafe de Shakespeare, e o próprio soneto de Ruy Belo. Atingido o grau que assinala a inexorável passagem do tempo com a sensação dolorosa de que tantas vezes se ganhou o que não se queria e se perdeu o que se queria está suscitado o sentimento universal de irmandade necessário para aceder à leitura dos poemas. Mas este nível de intensidade e de tensão resvalaria para a nostalgia e não seria por aqui que o leitor se deixaria prender nas redes da memória e do tempo. O mesmo não se direi do modo como o filtro da memória actua em evocações de livros, escritores, filmes e cineastas, ou de crónicas que os haviam abordado em Biblioteca, como é o caso de O Raio Verde (p. 55) em relação à crónica do mesmo nome (p.58). Repetidamente filtrada e depurada, a memória atinge outro patamar de intensidade, simultaneamente meta-crítico e meta-poético. 

Estas evocações, contudo, ao contrário do que sucedera em Biblioteca, cedem agora a primazia a outras de fundamentação autobiográfica, nas quais a memória entra em jogo com um tratamento do passado, do presente e do futuro no qual a formulação que citei retirada de Biblioteca é redimensionada para um tempo que está sempre presente ao poeta, no qual convergem recordação e repetição. Encontramos assim poemas que assinalam explicitamente a passagem das décadas, com uma despedida de um passado encerrado e de um eu que é também um colectivo, assinalado aos vinte anos (Grandes esperanças, p. 13) e aos trinta (Quadra, p.15), e aos quarenta (Os Homens aos Quarenta, p.68), cumprindo-se por etapas o prenúncio de Futuro Anterior (p.14). Este prenúncio estende-se a uma boa parte dos poemas centrados na evocação de amores passados, tais como Igreja da Memória (p. 28), ou de convívio em família, como Um Verão com Quase Todos (p. 65), com acontecimentos e sentimentos a regressarem do passado ao presente da escrita não tanto como desilusões, ou perdas de ilusões, mas antes como matéria dada por concluída. Sucede o contrário no poema final Quarenta e Dois (p.70) em que é o futuro aquilo que se ouve nos pássaros nas árvores, com o poeta a desambiguar o «nada» com que se encerra Água (p.51), como se para si recitasse os outros dois versos do terceto final do soneto inspirador: «Não temas porque tudo recomeça/ nada se perde por mais que aconteça.» E ao ler Água, lembrei-me de uma imagem cara a Kierkegaard, a do cinto de natação (Temor e Tremor, p. 93), usada para demonstrar que só se alcança a fé nadando sozinho vinda da voz de um poeta do silêncio. Estou certa de que ele próprio se teria descrito como alguém a quem se disse «nada!» e que deixou de nada ser. 

 

Referências

  • Søren Kierkegaard. 2009. Temor e Tremor. Trad. Elisabete M. de Sousa. Lisboa: Relógio d’Água.
  • Søren Kierkegaard. 2013. Ou-Ou. Um Fragmento de Vida. Primeira Parte. Trad. Elisabete M. de Sousa. Lisboa: Relógio d’Água.