Por Rui Estrada

Deus disse a Abraão: “Leva contigo o teu único filho Isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte Mória e oferece-o lá em sacrifício (…)”. “Ó pai — perguntou Isaac — levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde é que está a vítima para o sacrifício?” “Chegaram ao lugar de que Deus lhe tinha falado. Abraão construiu ali um altar (…) atou o seu filho, Isaac, e colocou-o em cima do altar, por cima da lenha. Abraão estendeu a mão e agarrou a faca, para sacrificar o seu filho.” (Génesis, 22).

Imaginemos por momentos que deus fazia esta provação a uma mulher. David Grossman responde: “If God came to Sarah and told her, ‘Give me your son, your only one, your beloved, Isaac,’ she will tell him, ‘Give me a break,’ not to say ‘Fuck off.”

Ora, a personagem do livro de Grossman Até ao Fim da Terra, tem a vida mais complicada: depois de cumprir o serviço militar obrigatório, o filho, Ofer, decide participar de livre vontade numa operação, de vinte e oito dias, do Corpo de Blindados. Fá-lo justamente na altura em que tinha combinado fazer uma viagem com a mãe à Galileia: “Às vezes dizia para si própria em voz alta, para se convencer: uma semana inteira sozinhos os dois, ele e eu, na Galileia. E, acima de tudo, repetia para o ar, Ofer vai sair da tropa. Ofer vai sair de lá, vai sair de lá inteiro.” (p. 84).

É a mãe que leva o filho aos montes Gilboa, lugar da concentração militar. Entrega-o, contra vontade e contra o próprio voluntário Ofer, ao exército de Israel. A passagem é simbólica e política: “Em cada carro vai um rapaz jovem, como uma oferenda de primícias, um carnaval primaveril com um sacrifício humano no fim. E tu?, pergunta a si própria duramente, olha para ti, que bem e que ordeiramente trazes o teu filho, o teu quase único, aquele que tanto amas (…).” (p. 78)

Impotente para contrariar a decisão de Ofer, Ora decide iniciar uma viagem, a viagem que gostaria de ter feito com o filho, para evitar os notificadores da desgraça. A ideia é luminosa: não estando em casa, nem contactável por nenhum meio, não é cúmplice de qualquer notícia dramática acerca do filho que lhe possa ser transmitida. Torna-se a “primeira objectora da notícia”; recusa participar nesse processo macabro: “Quer dizer, a negociação que o exército, a guerra e o Estado podem tentar-lhe impor muito em breve, talvez mesmo esta noite, uma negociação arbitrária e unilateral que determina que ela, Ora, aceita receber a notícia da morte do filho, ajudando-os desta forma a conduzir o processo complicado e penoso dessa morte a um fim organizado e aceite, e dando-lhes de certo modo igualmente a confirmação profunda e definitiva da sua morte, o que a tornaria, em parte, cúmplice do crime.” (p. 115) 

Na caminhada feita com Avram, pai biológico de Ofer, Ora conta a história do filho, da sua família, a Avram e aos leitores. Esta narrativa, de apresentação de um filho a um pai que o desconhece, permite-lhe, por meio das palavras, enquanto fala de Ofer, ter a certeza de que o protege. Evita simultaneamente os notificadores da má notícia e recria a vida de Ofer, desde o seu nascimento, para o pai. É também indispensável que Avram se interesse pela história do filho, o que vai acontecendo ao longo da caminhada. Só deste modo Ora consegue continuar: reescrever a história da família ao pai de Ofer é, num certo sentido, ainda que por vinte e oito dias, recomeçar essa família em segurança: “E na verdade, o que lhe há-de contar sobre ele? Será possível descrever e fazer reviver uma pessoa na sua totalidade, em carne e osso, só por palavras — oh, Deus, só por palavras?” (p. 219). “Não, tudo bem. Devias saber que enquanto falo contigo sobre ele, ele está bem, está protegido.” (p. 280).

Mas porque foi afinal Ofer de modo voluntário para a missão militar no momento em que ia viajar com a mãe? Isso, entre outras situações (a relação com o ex-marido e o outro filho), faz parte da condição ambivalente da narrativa familiar de Ora. A segurança e o reinício com Avram, tão contigentes quanto a duração da caminhada, são paralelos à convicção de Ora de que a família ruiu: “E mergulha nos seus pensamentos. Aquele fim de semana, os últimos momentos de felicidade delicada, frágil. De repente percebe o que tem estado a fazer ali, durante aqueles dias com Avram: a pronunciar um elogio fúnebre da família que existira e não mais voltaria a existir”. (p. 533).

Grossman deixa-nos justamente na caminhada com Ora e Avram, o lugar por excelência da incerteza, do incomensurável, da passagem. Ora, sentindo debaixo do corpo a montanha “compacta e infinita”, pensou: “que fina é a crosta da terra”.

Que finos são os humanos e como tudo seria linear com Abraão e deus, salvando-se ou não Isaac.

David Grossman, Até ao Fim da Terra, tradução de Lúcia Liba Mucznik, Lisboa: Dom Quixote, 2012.