Rodrigo Almeida e Sousa

 

Não deve ser só impressão minha. Lembro-me de ver, na velha estante do meu avô, o Discurso do Método assinado por «Renato» Descartes e sentir de imediato a ironia a correr-me nos axónios. Corrijam-me se estiver errado, mas parece-me que não sou o único a, no mínimo, sorrir ante traduções literais de nomes, terriolas, negócios locais, ou comidas. Existe, porém, uma grande diferença entre o filósofo francês e as personagens de Louis C.K.: enquanto René não é de todo um «Renato», Horace e Pete são efectivamente, ou quase, um «Horácio» e um «Pedro». Embora «Horácio» não seja por cá muito frequente, nem porventura tradicional, não deixa de soar à antiga; quanto a «Pedro», corresponde na perfeição às características pretendidas.

Mas, de que características estamos a falar? Talvez seja melhor explicar do início – até porque, estando praticamente no fim do ano, já podemos dar-nos ao luxo de fazer um balanço crítico, sem precipitações de internauta. A 30 de Janeiro de 2016, Louis C.K. dava-nos a conhecer por email o seu novo trabalho, Horace and Pete, uma produção audiovisual fora do comum. Em primeiro lugar, pelo seu formato digital (websérie de 10 episódios), lançado online sem pré-aviso. Em segundo, pelas suas opções estéticas, conjugando teatro, cinema e televisão, numa dinâmica de filmagem e edição a fazer lembrar desde Abigail’s Party (Mike Leigh, 1977) às sitcoms de Norman Lear (All in the Family, 1971-79; Maude, 1972-78) e dos irmãos Charles (Taxi, 1978-83; Cheers, 1982-93). Em terceiro porque, apesar de aqui e ali nos fazer rir, está longe de ser uma comédia.

A série conta-nos a história de dois irmãos que, segundo a tradição, herdam os nomes e o negócio familiar dos seus antepassados: Horace e Pete. Mas valerá a pena, para os actuais herdeiros, manter aquele bar velho e decadente – o centenário Horace and Pete (aberto ao público desde 1916) – só para conservar a dita tradição? A irmã deles, Sylvia, acha que não, e por isso tenta convencê-los a vender. O conflito adensa-se. Até que no quinto episódio tomam uma decisão em conjunto: deixar tudo na mesma.

Deste modo, logo na trama inicial deparamo-nos com as características que há pouco mencionávamos, em torno dos nomes dos protagonistas: ordinariedade, antiguidade, e tradição. Estas são apenas algumas das peculiaridades que, no seu conjunto, inserem a websérie de C.K. no fenómeno mais em voga do nosso século: a gentrificação. No seu sentido estrito, trata-se de uma tendência urbanística caracterizada pela renovação de bairros, zonas, ambientes degradados ou esquecidos – apesar do seu legado histórico ou carácter singular –, com vista à reinterpretação estética de uma identidade que lhes atribuímos como própria, autêntica, castiça. Por exemplo, o bairro da Chueca em Madrid, ou do Intendente em Lisboa, onde se deu a reabilitação de edifícios e espaços comuns, bem como o surgimento de novos estabelecimentos, lojas, cafés, bares, pequenos negócios e, por fim, o influxo de visitantes, frequentadores habituais e aumento de moradores recentes (em geral, classe média/alta) – algo polémico, já que tem implicado a subida do preço dos imóveis e o consequentemente abandono dos moradores tradicionais (em geral, classe baixa). No entanto, no seu sentido lato, gentrificar significa «enobrecer»; vem de gentry, termo antigo para «nobre», de «boas origens», referindo-se, aliás, à pequena nobreza, ou à nobreza rural (landed gentry) que, tal como os mencionados bairros, também ela se encontra desprovida do estatuto de outrora.

Mas, o que tem isto a ver com o espírito do século XXI? Quase tudo, exceptuando a tradução que fazemos da palavra «nobre» no âmbito da nossa cultura pop e respectivo estilo de vida. Com efeito, hoje preferimos dizer que a Chueca, ou o Intendente, está com «estilo», com «pinta», ou «boa onda» – expressões usuais entre os hipsters da década de 2000-2010 (geração dos millennials) que, tomando emprestado o termo aos seus precursores originários (os Beatniks dos anos 50), andavam sempre à procura do que era hip, ou seja, do que os levava a aderir, a descobrir, a experimentar, a «estar nessa». Muito antes do fenómeno da gentrificação stricto sensu entrar no nosso dicionário lúdico-urbano, já os millennial hipsters tinham por hábito gentrificar lato sensu todo o tipo de produtos e costumes pop, provenientes das diferentes gerações pós-modernas (ou, para quem não gosta do termo, do pós-guerra ao início dos anos 90), incorporando-os no seu visual e estilo de vida. Foram eles, portanto, que, antes de tudo e de todos, se aventuraram a revisitar os bairros esquecidos, por vezes suburbanos, frequentando os seus bares, cafés, lojas e mercados locais. No caso de Nova Iorque, trocando a artificialidade e o espírito cosmopolita de Manhattan pela autenticidade de Brooklyn, onde mais facilmente se pode encontrar um dive-bar como Horace and Pete, pedir com ironia uma Budweiser, e sentir a «boa onda» a cada trago.

Assim, é neste contexto que devemos situar a websérie de Louis C.K., bastante integrada no zeitgeist do nosso século. A começar pelo espaço onde tudo acontece, um bar antigo – típico objecto de gentrificação, negócio familiar (com regras e tradições a condizer) com 100 anos de existência (1916-2016), situado em Brooklyn (onde mais havia de ser?) – passando pela banda sonora de Paul Simon, e acabando nas personagens, tão idiossincráticas quanto castiças.

Leon, da geração dos anos 70, é um ex-alcoólico que agora bebe sumo de maçã. Marsha, alcoólica, também da mesma geração, vai àquele bar porque lhe dão bebidas de graça (motivo: ter sido a última amante do falecido Horace VII). Kurt, entre os 30 e os 40 anos, tem uma maneira de estar com traços dos anos 90, meio alucinado mas sempre «na dele», a criticar a sociedade de uma forma tão realista quanto destrambelhada; alegando, por exemplo, que se a América votar em Trump é porque quer ir abaixo, logo, porque não votar mesmo nele e ir abaixo de uma vez por todas? Por fim, o magnífico Tio Pete é um exemplar vivo do tempo dos Beatniks, detentor do paradigma existencial da sua geração e correspondentes dilemas (suicídio, experimentação, rebeldia sem causa), assim como de uma sabedoria genuína, que lhe permite dizer: «o racismo não depende do que dizes, mas do que fazes» – algo contrastante com os nossos dias, onde a censura do que se diz parece vingar sobre a ética do que se faz.

Todo o panorama da websérie de C.K. reflecte, portanto, este ambiente de recuperação estética, tão emblemático do nosso tempo. Porém, de modo algum o seu revivalismo se produz em tons coloridos e irónicos. Se há coisa que não se respira naquele bar é a frescura optimista do millennial hipster. Ali, ninguém sorri para o amigo, ostentando-lhe os novos óculos à James Dean que encomendou no ebay, ou a nova t-shirt flower power que comprou numa feira alternativa – entre outros produtos da cultura pop. Pelo contrário, Horace and Pete é o bar onde essa mesma cultura pop, esgotada de tanta gentrificação, vai afogar-se em whisky enquanto pensa no suicídio. Por isso, aliás, é que aos hipsters se lhes cobra $1.5 a mais por uma Budweiser do que a um cliente normal: pelo preço de uma cerveja, o jovem millennial consome, além da bebida, a mais-valia irónica por ali estar, num bar decadente e castiço, enquanto o cliente normal se fica pela Budweiser. Trata-se, portanto, de uma espécie de imposto para idiotas.

Na realidade, para qualquer das personagens, e sobretudo para os protagonistas, a gentrificação não se presta à ironia, mas ao seu inverso: ela é essencialmente trágica, e a principal causa de condenação das suas vidas. Aqui, a tragédia traduz-se na necessidade absurda de conservar aquele objecto – aquele sítio tão «boa onda», o Horace and Pete – que encaixa como uma luva no espírito de reabilitação estética de Brooklyn e serve na perfeição os intuitos dos hipsters que o frequentam; porém, sempre à custa da resignação quotidiana e profunda infelicidade existencial dos seus donos, que a ele se agarram por meia dúzia de esperanças vãs. Horace fala em renovar o bar, não por motivos de divertimento ou bom gosto, claro, mas apenas como argumento de último recurso para continuar a mantê-lo. Primeiro, por razões pessoais, uma vez que ele não sabe quem é, nem o que esteve ali a fazer a vida toda, mas com certeza saberia ainda menos caso vendesse o estabelecimento; segundo, por causa de Pete que, sofrendo de uma doença mental, nunca arranjaria emprego noutro lado. Ou seja, aquele objecto de gentrificação está condenado a sê-lo uma e outra vez, como um destino trágico, sem fim à vista, motivo pelo qual a dita renovação exterior nem sequer chega a acontecer.

Por mais que Horace and Pete tivesse tudo para ser um típico produto de recuperação estética com vista à ironia, ele não funciona como tal. Assim como a tradução literal dos seus nomes para Horácio e Pedro, a fórmula que dávamos por garantida, afinal, não faz rir. Por outras palavras, C.K. apresenta-nos o outro lado da moeda artística do nosso século. Em vez da gentrificação irónica – propositadamente superficial, típica dos millennial hipsters e da década passada – o autor propõe-nos a gentrificação trágica, não do mero ambiente e aparência externa, mas dos conteúdos e dilemas profundos com origem nos autênticos hipsters, os verdadeiros, os tais Beatniks, simbolizados pelo velho Tio Pete. Não é, portanto, de estranhar que a única ironia presente na série seja a do absurdo existencial: por exemplo, dos esforços vãos de um indivíduo contra a sua loucura genética (Pete), ou do ridículo que é um assunto tão importante como o amor estar tão condicionado pelo mero acaso do instinto bioquímico (episódio 3), entre outras perplexidades e angústias. Com efeito, nada disto tem lá muita graça. Mas, nascida da crise de 2008 e seguida das dívidas soberanas, conflitos na Síria, drama dos refugiados e crescente tensão entre EUA e Rússia, a nossa década também já não está para brincadeiras.