Telmo Rodrigues

 

Numa das trinta crónicas que compõem o livro A Ganhar ou a Perder, descrevendo um lance que se passa perto da baliza do topo norte do estádio de Alvalade, Mário Lopes afirma que «desde a bancada sul, não se percebe nada do que se passa» (p. 99). A afirmação é verdadeira e posso confirmá-la pelo simples facto de também eu me sentar nessa bancada, tão longínqua da «baliza pequena», nome usado por oposição à «baliza grande», aquela que fica junto ao topo sul, onde estão as claques do Sporting Clube de Portugal, e onde tanto eu como o autor nos sentamos quinzenalmente (num mundo ideal) para ver o nosso clube jogar.

Afirmar que me sento na mesma bancada que o autor deste livro poderia ser descrito, noutro tipo de conversas, especialmente sobre política, como uma «declaração de interesses»; nessas conversas, assumir que somos parte interessada no tema em discussão pretende desde logo esclarecer que a nossa opinião pode ser distorcida. No caso do futebol, e neste especificamente, não é isso que me interessa. Aqui, o objectivo é esclarecer que o ponto de vista é o mesmo e é-o em dois sentidos parecidos mas, ainda assim, diferentes. O primeiro, mais literal, consiste em afirmar que a posição geográfica em relação ao que se passa no campo é idêntica e que, por isso, a dificuldade em descortinar o que se passa do outro lado do campo é um problema comum: somos todos falíveis e, à distância, as descrições do que vemos podem nem sempre ser coincidentes. Nessas alturas, acreditamos na multidão que se levanta do outro lado para reclamar uma injustiça ou para celebrar um golo, e perguntamos a quem nos acompanha se viu o mesmo que nós; as percepções sobre os acontecimentos no campo acabam por ser uma partilha entre pessoas que se sentam perto.

O segundo sentido de ter o mesmo ponto de vista do autor relaciona-se com a ideia de que somos parecidos: ambos somos sócios do Sporting, ambos temos lugar cativo no estádio e, portanto, ambos temos uma afiliação que nos une. Ora, esta afiliação, que Mário Lopes tenta justificar à medida que descreve a maneira como viveu trinta jogos do nosso clube na época 2014/15, é palpável nos cartões de sócio e no número de associado que ambos temos; mas é absolutamente distinta na maneira como vivemos os jogos e um dos erros deste livro consiste em assumir que a afiliação a um clube, pela comunhão que os associados partilham, depende da parecença entre os indivíduos que a ele se associam.

Uma das inspirações para este livro, diz-nos o autor, não só no conteúdo mas também na estrutura, é um livro de Philip Stevens, West Ham’s 30 Memorable Matches, no qual se descrevem trinta jogos da equipa londrina West Ham United: «O critério da escolha é, em si mesmo, uma bonita lição. Lado a lado com as vitórias na Taça de Inglaterra ou na Taça das Taças, estão derrotas inesperadas com zés-ninguém da 2ª divisão ou hecatombes tenebrosas. É uma escolha justa e nobre» (p. 35). Um clube existe porque as conversas sobre estes momentos, os gloriosos e os embaraçosos que não mudam aquilo que sentimos pelo clube, se repetem, de geração em geração. Há no entanto uma diferença entre os dois projectos que não pode ser menosprezada: enquanto o livro inglês faz uma escolha de jogos históricos, Mário Lopes faz um exercício no sentido contrário, comprometendo-se com crónicas de jogos de uma época que ainda não sabe como vai decorrer. O final do livro, com a vitória na Taça de Portugal e a posterior celebração no relvado de Alvalade, é uma coincidência feliz para um ano que poderia ter acabado sem que nada de especial acontecesse.

A diferença entre os dois projectos consiste em notar que a nostalgia inglesa é substituída pela angústia em relação ao que se pode esperar de uma nova época desportiva, desde a euforia com períodos em que a equipa joga bem mas que não resultam em nada, ao entusiasmo por ver em determinados jogadores qualidades que depois não se confirmam. Há uma nobreza intrínseca ao projecto de Mário Lopes – aceitar o que possa vir a acontecer –, similar às esperanças que adeptos têm com cada nova temporada, mas que, no entanto, não é explorada nas crónicas. Num momento de tensão único, que deveria ser repetido em mais ocasiões, Mário Lopes usa o imperativo para descrever a necessidade de ganhar um jogo decisivo que se aproxima: «no primeiro dos dois jogos frente ao Nacional que decidiriam se iríamos, e temos de ir, à final da Taça de Portugal» (p. 115). A oposição entre o condicional e o imperativo do aparte nesta frase são o tipo de artifício técnico que falta às crónicas deste livro; falta não apenas no sentido literário mas sobretudo no sentido em que é essa oposição, essa tensão constante, que faz de um adepto de futebol um ser alienígena para quem não acompanha o desporto.

É certo que Mário Lopes avisa, logo na introdução, que a sua visão é a de um jornalista – a sua profissão – e que «a efemeridade é a condição primeira do [seu] trabalho» (p. 12); e talvez um escritor não cometesse o erro de, num livro sobre o Sporting, se descrever como «pobre diabo» (p. 12), dadas as associações da palavra «diabo» com um clube rival. Mas os erros de fundo deste livro não estão agregados às menores capacidades literárias do autor ou à perenidade do tema, mas sim às dificuldades em justificar certos comportamentos. Sendo certo que é completamente compreensível a panóplia de artifícios para poder acompanhar um jogo do nosso clube, incluindo descrições de cafés, em várias zonas do país, com condições variáveis para ver futebol (os melhores momentos do livro), parece ser mais difícil explicar a necessidade de o fazer.

A dificuldade de explicar o que leva um ser humano a relacionar-se com um clube de futebol é declarada no prefácio assinado por um benfiquista: «um compromisso assumido a priori, ninguém sabe quando nem porquê, e que é muito mais poderoso do que qualquer outro» (p. 9). Na introdução que se segue a esse prefácio, Mário Lopes tenta responder, assumindo: «Como sabe qualquer adepto e, se não o sabe, pressente-o, não somos nós que escolhemos um clube. É o clube, que tem muito bem definido o seu temperamento, personalidade e olhar perante o mundo, que nos escolhe a nós» (p. 11); o autor vai mais longe, assumindo que «se não fosse do Sporting, teria de ser obrigatoriamente outra pessoa, e não este homem nascido em Coimbra no equinócio de Inverno de 1977» (p. 11). Note-se a contradição entre as posições do autor, uma vez que se por um lado um clube nos escolhe, tendo em conta a personalidade que temos, por outro lado, a nossa personalidade já está definida mesmo antes de nascermos.

Esta posição de que um clube nos escolhe é uma posição intermédia em relação a duas posições habitualmente usadas para explicar a afiliação clubística. Uma, suportada aliás num movimento internacional popularizado por diversas claques de clubes europeus, é descrita pela frase «From Father to Son: Support Your Local Team» («de pai para filho: apoia a equipa da tua terra»), assumindo que há uma relação filial não apenas entre adeptos e clubes, mas entre comunidades e clubes. Talvez a explicação não apele ao autor, que admite ser filho de pai benfiquista; contudo, ao dedicar o livro ao avô, «sereno patrono» do seu sportinguismo, Mário Lopes inclui-se na cadeia de relações que este movimento pretende glorificar. E se para alguns Coimbra fica muito longe de Lisboa para justificar a relação comunitária com o clube da terra, que isso sirva como mais uma lembrança de que Portugal é, afinal, um país pequeno.

A popularidade do movimento tem vindo a crescer face às novas tendências futebolísticas, que transformam clubes de futebol medianos em clubes com impacto mundial com base em investimentos financeiros que poucos podem igualar; é um movimento contra um certo tipo de vivência futebolística, e é também contra essa vivência que este livro existe: «Mas os sportinguistas estão confiantes nesta equipa construída com base nos rapazes da formação, a forma mais nobre de um clube associativo o ser realmente (é como se os seus sócios tivessem 11 homens, com as suas virtudes e os seus defeitos, a dar-lhe corpo no relvado)» (p. 26). A oposição às novas tendências futebolísticas vai para além da apologia do associativismo e ressalva continuamente, pelo uso mutável da palavra «romantismo», que há uma ideia de comportamento desportivo que deve ser defendida em campo. São disso exemplo as invectivas contra a tendência para certos treinadores incentivarem jogadores a perder tempo junto às bandeirolas de canto, para esgotar os minutos que antecedem o final de um jogo equilibrado (p. 65), ou contra a ideia de «controlar o jogo» através de passes na zona defensiva; no Sporting, diz o autor com razão, estas práticas não são aceitáveis sob nenhum tipo de justificação, muito menos a de que «o mais importante é ganhar», e, ainda segundo o autor, quem defende este tipo de práticas não percebe aquilo que é ser sportinguista.

A segunda posição que explica a relação de adeptos com clubes de futebol talvez seja mais difícil de justificar, embora seja a mais operativa não só no livro, mas também em grande parte das conversas sobre afiliação clubística; está contida, aliás, num dos cânticos que se costumam ouvir em Alvalade. Os cânticos das claques, cujos versos têm dado origem ao título de vários livros sobre o clube (como no caso deste), são descritos como sendo simplórios no papel (p. 108), por oposição, presume-se, à complexidade que ganham quando entoados pela multidão. Há um cântico, no entanto, que parece mais forte no papel e que ajuda a explicar as dificuldades de justificar a ligação a um clube: «Graças a Deus/ Não nasci lampião!» (p. 98). Para além do insulto pueril a um rival, esta frase contém a explicação que o autor procura encontrar e que nunca identifica com precisão, ao ligar um conjunto de pessoas através de práticas e sentimentos supostamente idênticos: a escolha de um clube é um acto divino, algo que nos transcende. É a explicação, aliás, que justifica muitas das interjeições que mesmo ateus convictos expelem durante um jogo de futebol: «meu Deus, porque me abandonaste?» (p. 101). Ser sportinguista depende de uma escolha divina que nos transcende e que não podemos explicar, tal como a afirmação introdutória do autor deixa antever: «Houve um período em que, infantilmente inconsciente perante as coisas do mundo, desconhecia ainda aquilo que já era» (p. 11). Não se trata apenas de um compromisso assumido a priori e não são necessárias teorias teológicas complexas, nem um sistema de crenças particular para nos explicar: nascemos como somos e somos sportinguistas.

Outro erro de fundo deste livro, aliás comum em conversas sobre futebol, consiste em tentar medir a relação que mantemos com o nosso clube. Eu vejo os jogos do mesmo sítio que o autor, a bancada sul, e isso parece incluir-me entre os adeptos «a sério», por oposição àqueles que procuram o conforto e a boa visibilidade sobre o relvado nas bancadas centrais, uma distinção não apenas de classe social, mas de pureza de sentimentos. Os adeptos sérios, segundo o autor, estão num sítio particular dentro do estádio, continuam a conversar sobre jogos dos anos noventa, sobre lances particulares ocorridos num jogo da Taça de há cinco anos, frequentam as rulotes antes dos jogos («o fórum popular sportinguista» – p. 71) e têm um conjunto de práticas e crendices específicas; mas apesar de me sentar na mesma bancada que o autor, poucas das práticas descritas como pertencentes à sua vida e, pressupõe ele, à vida de qualquer adepto sério, fazem parte da minha e isso não faz de mim, gostaria de crer, menos sportinguista (o meu cachecol foi comprado no Celtic Park e é, de facto, uma crendice que partilho com este tipo de adeptos).

O problema nem é o da exclusão de pessoas que têm comportamentos diferentes, mas sim a vulnerabilidade da posição perante coisas tão simples como erros de memória: descrevendo um jogo maldito em Alvalade, contra o Benfica, Mário Lopes assume que o seu sportinguismo se manifesta por ainda hoje acreditar que, tivesse uma bola que foi ao poste da baliza do Benfica entrado, ao minuto 86, reduzindo o resultado para 4-6, seria possível dar a volta; ora, a possibilidade dessa reviravolta poder acontecer, tivesse essa bola entrado, é uma quase certeza para qualquer sportinguista. Mas não é desculpável a gafe que o autor comete ao nomear o rematador como tendo sido Paulo Torres, o lateral esquerdo que fora substituído ao intervalo (p. 81). Pessoas que acham que há atributos mínimos a cumprir para demonstrar a sua afiliação clubística são vulneráveis à pergunta óbvia que se segue a uma destas gafes: que sportinguista com mais de 35 anos pode cometer o erro de pensar que Paulo Torres poderia ter feito um remate aos 86 minutos daquele jogo? Porque uma das conversas que passa de geração em geração de sportinguistas, e que fazem parte da vida de um adepto, prende-se com as consequências desse erro táctico que expôs o flanco esquerdo da defesa do Sporting e abriu espaço para o resultado humilhante que também é parte da nossa história.

Isto não significa que não haja parecenças entre adeptos, que não haja comportamentos que possamos facilmente reconhecer por fazermos coisas parecidas; significa apenas que isso não denota mais sportinguismo, ou mais sabedoria (nisto o futebol não é muito diferente de outras coisas da nossa vida). Há uma experiência que adquirimos não por aquilo que sentimos, mas que decorre apenas do facto de termos estado muitas vezes em situações parecidas. Um adepto com lugar cativo reconhece sempre um adepto que só ocasionalmente se desloca ao estádio; e a «rabugice» ocasional «que os velhos têm perante os acontecimentos do mundo» (p. 103) não é mais do que uma manifestação do acumular de experiência que por vezes nos exaspera contra quem não tem essa experiência e se recusa reconhecê-la a quem a tem: «um velho já viu muito, viveu ainda mais e pouco o surpreende» (p. 103). Como adeptos de um clube, sentimo-nos muitas vezes velhos, sabendo por antecipação coisas que nos parecem óbvias e que são obscuras para o resto do mundo. Nessas alturas, como sempre na vida, procuramos o conforto de quem já viu tanto como nós, alguém que nos compreenda sem ser preciso explicar tudo desde o princípio; é por isso que vamos acompanhados ao estádio, ou porque procuramos certos cafés onde ver os jogos, ou porque, nalguns casos, decidimos ficar sozinhos em frente à televisão: às vezes é melhor sofrer sozinho.

Explicar a quem não gosta de futebol a relação que temos com um clube não é uma tarefa fácil, mas está longe de ser impossível; faz-se, como nalguns excertos deste livro, simplesmente tentando descrever quem somos. Não são precisas definições de sportinguismo nem lições de história: se somos sportinguistas, o Sporting estará na descrição da nossa vida.