Ângela Fernandes

 

Situando-se explicitamente no campo vasto e incerto das revistas literárias, Suroeste chega ao seu sexto número com a oferta consistente de «textos inéditos de autores que escrevem nas diversas línguas peninsulares», e ainda um «escaparate de livros em que os críticos da publicação recomendam algumas das suas leituras favoritas do ano anterior». Estas palavras de Antonio Sáez Delgado (director da revista desde o seu primeiro número, publicado em 2011) descrevem, na última página do volume, a estrutura recorrente desta publicação anual, editada em Badajoz graças ao patrocínio conjunto da Junta de Extremadura e da Fundación Ortega Muñoz. Também nesse breve parágrafo posfacial, Sáez Delgado explica que os textos surgem «na sua língua original e sem tradução», o que pressupõe o pedido ao leitor para que faça «o pequeno esforço de ler nas línguas que partilham o espaço ibérico como sinal inequívoco de aproximação ao outro e à sua cultura».

Antes de comentar a questão do «espaço ibérico» que a revista evoca em diversos níveis, será pertinente notar que Suroeste se afirma, em consonância com o seu subtítulo, como uma revista de literatura, e não tanto sobre literatura. A composição deste sexto número testemunha bem essa orientação: as secções «Poesía» e «Narrativa» ocupam mais de dois terços do volume, reunindo poemas de dezoito autores, e ficção narrativa de outros sete. Embora se omitam deliberadamente informações sobre os autores, numa enfática valorização dos textos antes de qualquer moldura contextual, reconhece-se a diversidade dos contributos, e pode o leitor encontrar, lado a lado, poemas tão díspares (e de autores tão diferentes) como «Teresa de Ávila vai de Medina del Campo para Alba de Tormes, onde morre», do poeta e tradutor português José Bento (n. 1932), ou «Mi abielo se abrió una cuenta de Skype», de Berta García Faet (n. 1988), ou ainda «Quatre poètiques», do valenciano Joan Navarro (n. 1951), e «La inquietú que nos quema», do asturiano Xuan Bello (n. 1965). Também no domínio da criação artística, importa assinalar os dois «encartes» que se anexam à revista, com o trabalho gráfico de Daniel Muñoz e poético-visual de Marta de Gonzalo e Publio Pérez Prieto. E na secção «Escaparate de Libros», as seis recensões apresentadas confirmam a especial atenção que aqui se presta aos poetas e à poesia, seja a dos consagrados Pessoa e Pascoaes, seja a de Ana Llurba, Cristovão de Aguiar, Guillermo Carnero ou Inês Lourenço.

A secção «Ensayo» reúne, depois, quatro artigos e uma entrevista que partilham um acentuado pendor documental ou testemunhal: Jordi Cerdà apresenta a correspondência de Egito Gonçalves a Juan Agustín Goytisolo entre 1959 e 1962; Adriano Duque evoca o diálogo entre Aquilino Duque e Octavio Paz; Manuel Neila analisa a poesia da fase final de José Lezama Lima; Vasco Rosa traça um retrato do poeta e jornalista Joaquim Novais Teixeira, «um europeu do século XX»; Javier Rioyo descreve e comenta uma entrevista a Pilar del Río. Todos estes «ensaios» revelam escasso teor conclusivo, não se constituindo como propostas interpretativas mais ou menos estabilizadas, como costuma acontecer com os ensaios académicos, mas antes assumindo-se como pontos de partida para novos estudos, enquanto «materiais» análogos aos textos poéticos e narrativos das secções anteriores. O fio condutor parece ser aqui a apresentação, através de documentos ou testemunhos, de um conjunto de informações directamente relacionadas com a já referida questão do espaço ibérico, ou melhor, com a identificação de relações intelectuais ou intercâmbios culturais menos conhecidos, mas determinantes no contexto peninsular.

A dimensão ibérica de Suroeste revela-se em níveis distintos. Desde logo, como se disse acima, a revista estabelece um local de encontro da produção literária e ensaística nas diversas línguas peninsulares, delineando assim uma efectiva confluência ibérica (e, ocasionalmente, ibero-americana). A partir desta reunião de textos, Suroeste permite notar a recorrência de certas linhas de sentido que, a par das mais habituais declinações da efusão lírica intimista, apontam seja para uma explícita evocação da tradição literária ibérica, seja para a alusão ao espaço físico da Península e à viagem com referentes aí reconhecíveis. Nítido exemplo destes motivos são, neste número de 2016, o já referido poema de José Bento sobre Teresa de Ávila, os poemas em homenagem à poesia de J.A. Valente e a «Trilogía en Portugal», de Amador Palacios, e também os contos «Ser otro», de José Ignacio Carnero Sobrado, e «El viaje de Sali», de Avelino Fierro. Merecerá atenção o modo como as descrições (e uma certa problematização) do espaço físico e cultural da Península Ibérica estruturam estas composições.

Ainda num outro nível, Suroeste sinaliza o desenvolvimento dos estudos sobre as relações artísticas e culturais ibéricas e ibero-americanas nos últimos anos. A revista não só contribui para esse estudo através dos artigos publicados, como dá voz a um posicionamento crítico a propósito de trabalhos prévios. No ensaio sobre Novais Teixeira, afirma Vasco Rosa: «não será atrevimento dizer que Suroeste. Relaciones literárias y artísticas entre Portugal y España, 1890-1936 (Badajoz, 2010) – apesar do enorme passo – falhou redondamente no destaque devido ao protagonismo de Joaquim Novais Teixeira nas relações culturais luso-espanholas nas décadas de 1920-30» (p. 184). Este reparo à publicação (homónima da revista) editada por Antonio Saez Delgado e Luís Manuel Gaspar, em 2010, dá justamente conta da abertura de Suroeste e dos seus responsáveis à revisão do campo de estudos. Se é verdade que Suroeste. Relaciones literárias y artísticas… constitui, pela abrangência e pela qualidade dos contributos, um título fundamental dos Estudos Ibéricos contemporâneos, e se reconhecemos que também outros trabalhos têm, na última década, proporcionado um amplo alargamento do estudo e da reflexão nesta área (bastará lembrar, e.g., os dois volumes de A Comparative History of Literatures in the Iberian Peninsula, publicados pela John Benjamins Publishing Company em 2010 e 2016), não deixa de ser importante notar a necessidade de uma incessante perspectiva crítica sobre os retratos do espaço ibérico que vão surgindo. Continua a ser pertinente desenvolver e promover o conhecimento aprofundado neste campo dos diálogos literários e culturais na Península Ibérica, e a revista Suroeste, até na afirmação de uma certa dimensão auto-crítica, serve exemplarmente este propósito.

Cabe ainda assinalar que, para além de ter uma cuidada existência em papel, Suroeste pode ser encontrada em versão digital em: revistasuroeste.es