Rita Lavos

 

Na página online dos The Divine Comedy lê-se que Foreverland é sobre «meeting your soul mate and living happily ever after... and then what comes after happily ever after». Numa leitura literal da primeira parte da descrição que Neil Hannon faz do seu décimo primeiro álbum, seis anos depois do anterior, sabe-se que pelo menos duas canções, ambas singles, se referem de forma disfarçada, mas também específica, à sua companheira: «Catherine The Great» e «To the Rescue». Se o título da primeira é uma referência directa ao seu nome, a segunda é inequívoca em relação a uma das suas ocupações: «Got a vigilante sleeping in my bed / I looked for Marilyn, I got Che instead / But I’ll march behind you wherever you may go / And I’m more proud of you than you can never know». Cathy Davey é uma das fundadoras de uma associação de apoio a animais na Irlanda.

Se Foreverland é um conjunto de canções de amor mais ou menos (auto) biográficas, também nos apercebemos de que estas se desdobram essencialmente em duas perspectivas. De um lado, o amor consistente («Catherine The Great», «The One Who Loves you», «Funny Peculiar», «The Pact», «Other People»), assente em determinado lugar, metafórico ou não («Foreverland», «To the Rescue», «My Happy Place»); e, do outro lado, «… what comes after happily ever after», o amor falhado («How Can You Leave Me on My Own», «A Desperate Man», «I Joined The Foreign Legion [To Forget]»). Talvez esta perspectiva, inversa da primeira, possa ser a ilusão que Neil Hannon criou para nos afastar da interpretação excessivamente autobiográfica a que nos induziu; ou apenas uma maneira de nos mostrar que a experiência do amor pode ser vivida de formas opostas e necessariamente consequentes e/ou alternadas, como no disco.

Aparentemente isolada destes dois pontos de vista, «Napoleon Complex» é a canção de abertura do disco: vibrante nas cordas, muito ritmada na percussão e com um refrão que fica no ouvido. Neste mesmo sentido, também Casanova (1996) começava com igual vitalidade com «Something for the Weekend». Por outro lado, porque a ironia é um elemento transversal à maioria das letras dos The Divine Comedy, não é de estranhar que este tema seja sobre alguém que é de estatura baixa, ainda que com outras competências que se sobrepõem à constituição física: «who gets all the girls (…) / who will rule the world (…) / who has all the brains». Neil Hannon é baixo e a auto-ironia é um modo se apresentar a si e ao disco.

Por sua vez, após as apresentações, é o título homónimo que vai inaugurar a entoação melancólica que atravessa, a espaços, não apenas este álbum, mas toda a obra dos The Divine Comedy. «Foreverland» é uma balada em que a idade adulta é a promessa de um lugar idílico, tal como «The Summerhouse» (Promenade, 1994) o era da infância, ambas com ecos do Scott Walker da década de 1960, referido por Hannon como influência permanente das canções que escreve.

«Funny Peculiar» e «Other People» são os dois temas do álbum com menos tipos diferentes de instrumentos. O primeiro é um dueto de Neil e Cathy, com acompanhamento de um piano à Cole Porter, prevalecendo sobretudo o diálogo que entre eles — e o piano — se estabelece. «Other People» é, por sua vez, um monólogo, reforçado inicialmente só com voz, sobre a consciência do passado amoroso do outro, mas onde lentamente começa a surgir uma orquestra de cordas que vai atingir o seu apogeu dramático no refrão com uma teoria sobre o ciúme: «And jealousy is just an urge to rule over the universe / It is worthless and destructive, and always counterproductive». É rematada abruptamente com um «blah blah blah» desinteressado.

Depois desta interrupção, «The One Who Loves You» é a canção de amor que se segue e aquela com que Foreverland termina. É, por isso, a mais declarada: destitui as canções anteriores que subentendiam um amor frustrado, mostrando-nos afinal que «it’s really really worth it». Aqui, a brincadeira da rima de «Dodo» com «Soho» («Is like finding the lesser spotted Dodo in Soho — so rare») parece não apenas vincar quão raro é encontrar alguém que nos ama, como também encontrar sintonia com o som lúdico, característico do banjo, que instrumenta todo o tema.

Desde o primeiro álbum da banda, Fanfare for the Comic Muse, editado em 1990, que a escrita de Neil Hannon mantém uma consistência talvez rara na música pop. As letras têm uma «graça engenhosa» (poetic wit, assim nomeada por alguns críticos) e as melodias são essencialmente orquestrais. Em entrevistas recentes, Neil Hannon diz gostar de controlar obsessivamente toda a edição do álbum. A criação da própria companhia discográfica, em que este disco e o anterior foram editados, parece favorecer a autonomia que lhe permite trabalhar cada obra na totalidade. É nesta liberdade que, paradoxalmente, Neil Hannon mantém a mesma identidade criativa, o mesmo talento, inteligência e humor que o definem há vinte e seis anos. E como reflexo, cada álbum novo acolhe os mesmos e antigos fãs ou apreciadores das suas canções.

Mas se a mestria de Neil Hannon está em manter uma unidade que lhe é característica, o que importa sobretudo neste disco é ver como o faz de modo tão refrescante, ao mesmo tempo que confirma a fidelidade a si próprio enquanto escritor de canções. Neste sentido, o cuidado laborioso está não apenas na criação de canções perfeitas sem pretensão ou esforço aparente, mas na concretização daquilo que é esperado por nós, por um lado, e naquilo que os The Divine Comedy são, por outro.

Que um disco novo de The Divine Comedy soe a The Divine Comedy é sempre muito bom. Ainda assim, Foreverland supera claramente os últimos álbuns, seja pelo difícil, e neste caso harmonioso, equilíbrio entre «living happily ever after» e «what comes after happily ever after», seja por ser simplesmente uma dúzia de canções em que a pop é um diamante lapidado ao ínfimo pormenor.