Joana Meirim

 

José Saramago, num obituário intitulado «Sena», publicado no Diário de Lisboa a 12 de Junho de 1978, conta-nos que travou conhecimento com Jorge de Sena através da troca de cartas. Apesar de a maioria ser de natureza editorial, Saramago assinala que a personalidade de Sena é a principal razão de ser para a existência desta correspondência: «quem alguma vez recebeu carta de Jorge de Sena, sabe que nela sempre esteve, além do motivo imediato que a justificasse, um outro motivo que em todas obsessivamente se exprimia: o autor delas» (Saramago 1978, 487). Também Eduardo Lourenço fez uma observação similar. Sem desprimor dos vários destinatários das cartas de Jorge de Sena, julgo que esta observação, na introdução ao volume de correspondência que Eduardo Lourenço trocou com Sena, caracteriza precisamente a relação díspar entre remetente e destinatário:

 

Só que um de nós era personagem e actor eminente dela, ferido na consciência aguda e justa que tinha de o ser, pelo descaso real e outras vezes imaginário a que se sentia ou supunha votado. Daí que de algum modo as minhas cartas para Jorge de Sena sejam, ao fim e ao cabo, uma maneira de me ocupar do caso e do personagem cultural Jorge de Sena. (Lourenço 1991, 10)

 

Desde a publicação do primeiro volume de correspondência (entre Sena e Guilherme de Castilho), em 1981, projecto pioneiro levado a cabo por Mécia de Sena e Vasco Graça Moura na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, que é visível a dissonância de vozes: a voz de Sena sobrepõe-se, de uma maneira geral, à voz dos seus destinatários. Um volume de correspondência de Jorge de Sena, num país que não tem essa tradição, e alguns parecem mesmo considerá-la subgénero menor pelo pretenso tom confessional ou por medo de que o autor afinal não tenha morrido, é acima de tudo apreciado e lido por ter Jorge de Sena como interlocutor principal. As cartas de Jorge de Sena são talvez as mais famosas em Portugal e das poucas que fazem um escrutínio temerário da vida intelectual portuguesa da segunda metade do século XX.

No mesmo obituário, Saramago vaticina que a publicação da correspondência de Sena terá efeitos nefastos no mundo das letras portuguesas: «Se algum dia se publicar a correspondência de Sena, receio bem que metade da catedral literária portuguesa vá pelos ares» (Saramago 1978, 487). De lá para cá não há sinais de que a «catedral literária portuguesa» tenha sequer ruído, mas não deve ser negligenciável o efeito higiénico que a leitura destas cartas poderá ter tido no meio literário português de então e poderá ter no de hoje. Saramago elogia ainda a atitude de Sena nas suas cartas, que se pautam pela franqueza e pelo afronto, jamais revelando medo de ferir susceptibilidades ou de comprometer a sua carreira literária e académica: «Jorge de Sena usava o admirável impudor de não poupar precisamente as palavras que mais riscos comportassem» (Saramago 1978, 487).

A publicação das suas cartas responde à própria vontade de Sena, que desde cedo as entendeu como parte integrante da sua obra. É o que nos diz numa carta de 11 de Março de 1945 a Mécia de Sena: «Porque uma carta que escrevo é sempre uma obra de criação, embora por correspondência» (Sena 1982, 34). Mécia de Sena é a responsável pela edição de mais um volume de cartas, desta vez trocadas com o poeta Eugénio de Andrade. A par da organização, como refere Isabel de Sena na apresentação do volume, Mécia «participa activamente no diálogo» (Sena 2016, 13), aspecto comum a várias das correspondências de Jorge de Sena. Aliás, depois da morte do marido, Mécia de Sena continuou muitos destes diálogos epistolares, e também eles, estou certa disso, merecem uma publicação que, desconfio, poderia abalar saudavelmente alguns dos partis pris e snobismos que caracterizam a «catedral literária portuguesa» a que Saramago se refere.

Neste novo volume, publicado no final do ano passado, as cartas trocadas entre Eugénio e Sena ao longo de quase três décadas de amizade dão conta das típicas irritações senianas: os obstáculos editoriais à publicação da sua obra, as vicissitudes académicas, a circunstância necessária e progressivamente irreversível do exílio (a vida no Brasil e nos EUA) e a vida intelectual portuguesa, de que nunca se desvinculou e sobre a qual lhe chegavam notícias através da agência Recorte (vejam-se as cartas de 4 de Maio de 1971 ou de 19 de Fevereiro de 1974). Ainda nesta correspondência, as recensões críticas que ambos fazem às obras um do outro, o trabalho de Jorge de Sena como antologiador e a sua actividade de tradutor são assuntos que ocupam grande parte das cartas e uma extensão temporal significativa.

As primeiras cartas, a de Sena sobre As Mãos e os Frutos, em Junho de 1949, e a de Eugénio sobre Evidências, de Fevereiro de 1955, tratam da leitura e comentário das suas obras poéticas, a que não escapam genuínos gestos de canonização mútua, a par de outras cartas em que as críticas negativas nunca são veladas. A preparação da 3.ª série das Líricas Portuguesas é um tópico a que Sena dá particular destaque, pedindo a Eugénio conselhos, numa carta de Janeiro de 1958, sobre a lista de autores a incluir. Esta antologia corresponde à tentativa de representar um período e não é reveladora dos gostos de Sena, como o próprio sublinha em diversas cartas, nomeadamente numa de Julho de 1969, a propósito da reedição da obra, agora em versão aumentada: «O volume nunca esteve em harmonia com os meus gostos, Eugénio, nem agora, nem então» (Sena 2016, 242).

Eugénio também acompanhou zelosamente a preparação das antologias de poesia traduzida por Sena, quer na selecção dos poetas, quer na escolha das ilustrações, incentivando e louvando a actividade tradutória do amigo. A organização do volume Poesia de 26 Séculos, cujo título é da autoria de Eugénio de Andrade, é tema de um número significativo de cartas, cujas primeiras remontam a Maio de 1969 e as últimas à data da edição do volume, que ficamos a conhecer através de uma carta de Mécia de Sena, de 15 de Maio de 1972. Eugénio segue de perto todas as fases deste projecto e é também o «agente literário» de Sena junto da Inova (cf. carta de Sena, de 7 de Abril de 1970), tentando acelerar as edições pendentes e participando no crescimento gradual de Poesia de 26 Séculos ao incluir as traduções que Sena lhe vai enviando desde os EUA. Numa carta de 2 de Outubro de 1970, Jorge de Sena fala das suas «fúrias tradutórias», que em parte são reacção à morosidade desta edição:

 

Há muito pouco tempo te escrevi a pedir notícias e a fazer-te o recipiendário que continuas a ser das minhas fúrias tradutórias. Vou traduzindo tudo o que sempre quisera traduzir – e, como o livro não sai, não paro. Foram o S. João da Cruz, o John Clare, o Pushkin e o Lermontov. E aqui vai agora o São Francisco de Assis, que me farás o favor (...) de inserir entre a desavergonhada Beatriz de Viennois e o herético Peire Cardenal... (Sena 2016, 353)

 

A actividade de tradutor assume lugar conspícuo nesta correspondência, assim como já tinha assumido nas cartas trocadas com Carlo Vittorio Cattaneo, poeta italiano e tradutor de Jorge de Sena. O critério essencial por que se rege nas suas traduções é reiterado em várias cartas: privilegia a fidelidade, ou seja, a tentativa de ser tão exactamente fiel quanto possível e lamenta que as pessoas que traduzem não sejam, regra geral, «suficientemente poetas» (Sena 2016, 214). Traduzir, para Sena, é procurar equivalentes, fazendo soar em português o que outros disseram numa língua estrangeira. Veja-se a este propósito o comentário elogioso de Eugénio sobre as traduções de Dickinson: «Há toda uma série de poemas que, graças a ti, ficaram a ser modelarmente portugueses, pela perfeição com que passaram à nossa língua. Traduzir é isso, não é verdade?» (Sena 2016, 238).

Finalmente, faço ainda notar a presença constante daquele que é o leitmotiv da obra de Jorge de Sena, revelado de forma desabrida na sua correspondência: o desejo de reconhecimento em vida pelos seus contemporâneos. Sena desejava ser apreciado em vida e não se contentava com a ideia de que a consagração é atributo exclusivo da posteridade. As suas cartas fazem eco das imprecações de «Camões dirige-se aos seus contemporâneos», poema sobejamente glosado em toda a sua obra. Na correspondência, Sena dirige-se a vários dos seus contemporâneos e acusa a falta de reconhecimento (mais vezes real que imaginária), parecendo não haver, contudo, recompensa que lhe baste. A relação que Sena tem com os prémios e com o reconhecimento é ambígua. Por um lado, não esconde a revolta no momento em que lhe faltam os prémios (veja-se a carta de 7 de Novembro de 1964, a propósito da atribuição do Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores ao Livro Sexto de Sophia de Mello Breyner); por outro, reage melancolicamente a uma das poucas consagrações que teve em vida (a homenagem que a revista O Tempo e O Modo lhe dedicou em 1968): «E aqui estou eu com uma consagração às costas, comovido e grato, sem saber que fazer com isso» (Sena 2016, 194).

É o próprio Jorge de Sena quem constata, de forma pungente, essa mesma ambiguidade que configura um dos traços fundamentais da sua personalidade literária. O êxito parece-lhe ridículo e supérfluo, mas a «sede de triunfo» prevalece: «Em matérias de glórias, eu sou, francamente, um sujeito contraditório (...). Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado» (Sena 2016, 214). Este menino sedento de atenção é um dos grandes intelectuais do século XX português, e este adjetivo relacional sempre lhe pesou («a minha doença é ser português e não conseguir ser outra coisa», diz-nos em carta de 4 de Maio de 1971). Apesar de ilustre outcast, como tantas vezes se apelidou, era dos contemporâneos portugueses que esperava o prémio, que chegou raras vezes e soube-lhe sempre a pouco. Há neste desejo de querer ser ouvido, entendido e admirado qualquer coisa de «demasiado humano», expressão que Sena usa recorrentemente. Neste sentido, Sena não foi tão megalómano ou vaidoso, como muitos contemporâneos e sucessores quiseram fazer acreditar, quanto ousado, desmistificando a ideia de que em vida os escritores devem escrever abnegadamente, sem ânsia de triunfo e glória, crentes apenas na celebridade póstuma.

 

Referências

Saramago, José. «Sena» (1978). Lisboa, Eugénio (org. e introd.). Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984.

Eduardo Lourenço e Jorge de Sena: Correspondência. Ed. Mécia de Sena. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1991.

Mécia de Sena e Jorge de Sena: Isto Tudo Que Nos Rodeia (Cartas de Amor). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982.