Marana Borges

 

É uma manhã cinzenta, como são as manhãs inglesas, com poucos contrastes de cor (e de emoções). Verde escuro, tonalidades de marrom, cinza. O céu nublado distingue-se do chão de relva mais por nuance que por oposição. Nesse demorado plano geral, acompanhamos de longe o passeio campestre de uma mulher ao encontro de seu cachorro, sempre à frente, sempre fora do alcance. O começo resume a ideia do filme: é sobre distâncias que ele nos falará — entre um casal de idosos sem filhos; entre quem pensamos ser e quem nos descobrimos sendo; aquilo que julgamos conhecer do outro e o que o outro mesmo desconhece sobre si; onde estamos hoje e o que escolheríamos para nossas vidas quando ainda não era tarde demais.

Kate Mercer (Charlotte Rampling) anda a passo lento; não tem pressa porque envelheceu, mas também porque seu cotidiano rural de professora aposentada é tão simples quanto monótono. A celeridade virá, sob medida, nos preparativos para o grande dia. Como Mrs. Dalloway a decidir comprar flores para uma festa de aparências, Kate prepara a sua: visita o salão, planeja o menu, fala com convidados da cerimônia de 45 anos de seu casamento com Geoff (Tom Courtenay). A saúde frágil do marido, que a obrigara a cancelar a celebração dos 40 anos de matrimônio, impulsiona-a na escolha da nova data pouco convencional. Aliás, é o passo mais afastado de Kate em relação a convenções.

Poucos dias antes da festa, Geoff recebe a notícia de que sua namorada de juventude fora encontrada nos Alpes, onde morrera soterrada, e o corpo permanecia congelado à espera do funeral. O filme desenrola-se a partir do olhar de Kate sobre a reação do marido. Um olhar que engana ao querer-se amoroso, mas que é inquiridor, severo, ofendido, sem nunca perder a sutileza. Daí enganar-nos. Geoff, impactado pela notícia, reavalia sua vida conjugal. Kate teme o pior: não celebrar a longevidade de seu casamento e descobrir que o marido não a ama. Ou será que sua maior preocupação é apenas com o sucesso da festa?

Vale a pena recuperar o passeio matinal do início do filme. Contra toda a nossa expectativa e os ensinamentos mais rudimentares (e conservadores) de fotografia, a personagem desloca-se da direita para a esquerda da tela. Cedo aprendemos a evitar tal movimento: não é o percurso de quem vai, mas de quem retrocede. Bem acertado, aqui. Ambos passarão a investigar o passado. Mais que descobrir quem é o parceiro, querem encontrar a parcela perdida de si próprios. Não sairão ilesos.

No nível da trama, o roteiro (co-assinado por Haigh e inspirado no conto «Another Country», de David Constantine) é inteligente. Enquanto nos preocupamos com a crise de ciúmes desencadeada pela chegada da carta, desenrola-se clandestinamente a história que realmente importa — a de personagens que nunca se irão tocar. Não se trata propriamente de oposição. As personagens não se prestam a encarnar polos claros (por exemplo, razão e sensibilidade). São as nuances que prevalecem para compor o distanciamento: Kate a ler no sofá, com as costas eretas de uma lady, põe-se a escutar, entre uma página e outra e sem perder a postura, o marido que lhe vem contar sobre sua juventude.

É um filme sobre um casal, mas também um filme para Rampling. Sua exímia atuação lhe rendeu o Berlinale e uma indicação ao Oscar. Muito inferior está a de Courtenay (que também foi premiado no Berlinale). A falta do ator é mostrar-se insosso, por vezes irritante, na tentativa de aparentar fragilidade. Ou será que o espectador identificou-se demais com o olhar da protagonista sobre ele?

Impossível não resgatar L’Amour (2012), de Michael Haneke. L’Amour, contudo, é mais cru e exposto; desavergonhado porque «realista», sem nunca ser óbvio. Extremo. Afinal, é disso que se trata — de extremos, de como conviver com o parceiro na etapa final da vida. Se em L’Amour o amante desejaria ter preservado o presente contra o avanço da doença e a separação, 45 Years toma a via inversa: insinua quão internados podemos estar em um presente que não acena qualquer esperança. Aqui, os amantes já estão separados, apesar das aparências. Nesse cativeiro por nós próprios construído, o amor não é senão abismo. Enquanto Haneke faz um grande elogio ao amor, Haigh prefere a dúvida. Talvez tão incômodo quanto a certeza da morte seja desconfiar se o que se batizou por décadas de amor mereceu esse nome.

A vida prossegue, empurrada à força pela vontade. É chegada a festa. Geoff terá de tomar partido. Kate também. Por meio de um gesto dela, tão rápido e espontâneo quanto tardio, vislumbramos o horror das decisões de nossas vidas. Mas é um gesto que guarda ambiguidade, como toda a atuação de Rampling, e sobre ele não podemos deliberar. De todas as formas, nos alerta sobre como a recusa — e a impossibilidade — de partilhar tudo com o parceiro (e com qualquer pessoa) é a garantia dos nossos elos. Manter-se desconhecido, afinal, é não apenas inevitável, mas igualmente necessário (e doloroso).