Lauro Reis

 

Depois de quase três décadas de avanços e recuos, Martin Scorsese concretiza finalmente o projecto que havia idealizado depois de realizar A Última Tentação de Cristo (1988). Silêncio (2016) é uma adaptação do livro homónimo de Shusaku Endo, escritor japonês cristão, publicado em 1966. Esta adaptação cinematográfica reproduz fielmente a narrativa do romance epistolar de Endo: após saber que o seu mestre, o padre jesuíta Cristóvão Ferreira, havia apostatado, renunciado à sua fé em público pisando uma figura de Cristo (fumi-e), e recomeçado a sua vida como um japonês, os seus discípulos, padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, não acreditando em tais rumores, partem para o Japão em busca de respostas. Esta é a premissa de um filme que se destaca pelo contraste entre a claridade de execução cinematográfica e a sua ambiguidade temática: a duplicidade do silêncio como abandono ou aproximação a Deus.

A sequência inaugural do filme coloca o espectador a presenciar um método de tortura onde, para além dos gritos dos cristãos japoneses e a narração do padre Ferreira (que é forçado a testemunhar tamanhas crueldades, com o intento de o forçar também a apostatar), nenhum som é audível. Desta forma, o espectador partilha com o padre Ferreira o silêncio opressor que emana quer da natureza instrumentalizada para causar dor, quer dos japoneses encarregados de torturar: o homem e a natureza como criadores de sofrimento e de dúvida. Dito isto, os diversos métodos de tortura utilizados pelos japoneses não são estetizados no filme, pelo contrário: são tornados explícitos e acentuados pelo silêncio que cobre as vozes dos cristãos, dos perseguidores, e até da natureza. Há uma intenção engenhosa ao utilizar o próprio som como veículo para amplificar o silêncio. Um silêncio que perdura mesmo perante os gritos, os gemidos, a crueldade e a iniquidade. Um silêncio que se torna total, opressor e que esconde tudo, inclusive Deus.

Neste contexto é-nos possibilitado escutar o silêncio que amplifica a solidão do padre Ferreira e que, com esmagadora força, o leva a cair sobre os joelhos em desespero e a procurar respostas no seu diálogo interno com Deus; diálogo que, por causa da crueldade que testemunha, receia não existir. William T. Cavanaugh, teólogo e professor universitário, lembra que o silêncio de Deus (na obra de Endo) pode resultar da sua incarnação: ao fazer-se homem, Deus escolheu não eliminar o sofrimento, mas precisamente sofrer com a humanidade (Cavanaugh 1998, 10). Partindo desta perspectiva, Deus não teria de responder ao padre Ferreira, porque estaria a partilhar do mesmo sofrimento. O que corresponderia ao silêncio que, nestas circunstâncias cruéis, os padres Rodrigues e Ferreira suportam. Contudo, tanto o filme como o livro não procuram oferecer qualquer resposta simples e absoluta face à existência e universalidade da igreja e do cristianismo. O que o filme procura é descortinar o contexto nipónico que provocou os terríveis conflitos e instalou tanta dúvida nos corações dos padres; conflitos que acentuaram particularmente o desconsolo, a solidão e o silêncio do protagonista, o padre Sebastião Rodrigues.

Silêncio decorre no século XVII, altura em que surgem os «Kakure Kirishitan» (cristãos escondidos). Devido a complicações políticas e religiosas entre Portugal e Espanha em décadas anteriores, o governo do Japão decide suprimir o cristianismo, sob pena de morte; antes de se fechar à influência externa e criminalizar o cristianismo, relatos afirmavam que havia perto de 300.000 cristãos japoneses. Porém, quando os padres Rodrigues e Garupe chegam ao Japão, o cristianismo é considerado tabu, proibido, e não existiam quaisquer comunidades ou vestígios cristãos; os poucos cristãos que sobreviviam às perseguições praticavam em segredo, escondidos, temendo aquilo que lhes pudesse acontecer caso fossem denunciados ou apanhados em flagrante. Todos os padres haviam fugido, sido mortos ou, como no caso do padre Ferreira, notoriamente famoso por ter sido feito um exemplo, apostatado. Este contexto político-religioso será personificado pelo «Inquisidor» Inoue, perseguidor-chefe, responsável por impedir o semear do cristianismo em terras nipónicas. Homem inteligente e cruel, uma combinação perigosa, Inoue é o responsável por testar os limites da fé dos padres e de levar ambos, Ferreira e Rodrigues, mestre e discípulo, à apostasia.

Uma vez em terras japoneses, os padres Rodrigues e Garupe são guiados por Kichijiro, também ele cristão perseguido, com um passado que o atormenta: Kichijiro havia apostatado e testemunhado a morte da sua família, condenados por serem cristãos. Kichijiro não se considera cristão, não porque não queira, mas porque ao sobreviver, ao renunciar Cristo pública e simbolicamente, receia que Cristo não o considere enquanto tal. Nessa situação intervém o padre Rodrigues, intermediário de Cristo ao olhar de Kichijiro, que coloca finalmente uma voz no silêncio que o consumia. Rodrigues, no entanto, debate-se constantemente com a sua fé, ao mesmo tempo que questiona as limitações nipónicas enquanto mensageiro de Cristo: não existindo qualquer desejo de aprender a cultura, a língua e a história japonesas, parte do pressuposto que prega a verdade única e universal, justificando dessa forma a sua falta de interesse na sociedade nipónica, ao mesmo tempo que mergulha no desejo recorrente de emular os feitos de Cristo.

A certa altura, quando Rodrigues é feito prisioneiro, um capitão japonês, que afirma ter estudado a língua dos padres e a religião cristã, comenta que todos os padres que chegaram a terras japonesas estavam ansiosos por «ensinar, mas não por aprender». O que se perdeu entre a comunicação limitada foi um entendimento de uma cultura e de crenças alheias; o que para uns era Deus, para outros era o sol. (Os padres falharam em compreender um aspecto crucial da cultura japonesa: a honra. Qualquer indivíduo que perca a honra, conceito importantíssimo para a vida pública japonesa, não merece ser respeitado ou adorado. Não havia possibilidade de redenção. A sociedade japonesa daquele tempo não era complacente com segundas oportunidades. Se tal padre, o intermediário mais próximo de Deus na terra, e aos olhares dos cristãos japoneses com um estatuto semidivino, comete uma acção tão desonrosa como apostatar, então a sua religião, o seu deus, por associação, são colocados em causa. Simplesmente pelo facto de não ser inteligível para um japonês nativo qualquer conceito que não esteja assente na materialidade da natureza.) O filme demonstra assim um choque de crenças inflexíveis que, fruto da intolerância e incompreensão, acabam por aproximar-se negativamente pela não-aceitação recíproca.

Tanto o padre Rodrigues como o seu mestre, padre Ferreira, viajaram para pregar um monólogo, não para estabelecer um diálogo, e sofreram as consequências da sua incompreensão. No fim, quem acabou por se converter (aparentemente) foram os padres. Mas a ambiguidade dessa conversão revela-se nos indícios que são lançados durante o filme: não será o acto final de apostasia de Rodrigues, ao salvar pessoas que não compreendem o deus que adora e o sacrifício que aceita, de viver o resto da vida silenciado religiosa e espiritualmente, o maior acto de amor que poderia realizar? Não será a jornada do padre Rodrigues uma aproximação a Cristo, não pelas suas tentativas de procurar correspondências idênticas entre o seu sofrimento e o de Jesus enquanto homem, mas pela actividade silenciosa, conduzida solitariamente, procurando o diálogo com Cristo?

Scorsese capta perfeitamente a ambiguidade e persistência do silêncio, representando-o através de personagens que, fruto da disparidade de culturas, enfrentam obstáculos que impossibilitam o entendimento mútuo; todos os protagonistas se encontram desesperadamente sozinhos, abandonados e perdidos, mesmo quando acompanhados por outra alma solitária. Através de extraordinários planos naturais que acentuam a solidão dos protagonistas, ou o silêncio como banda-sonora que desfigura esse silêncio em dor, o filme comprova, através da sua execução despida de quaisquer embelezamentos estéticos, não ser o silêncio que acompanha os protagonistas, mas os protagonistas que acompanham o silêncio. Creio ser essa a intenção principal do filme: demonstrar a relação que qualquer homem de fé detém com algo que não pode ser exibido, conquistado, materializado. O nome que é dado a isso tanto pode ser Deus, como universo, ou nada, mas é uma parte fundamental do ser humano que raramente é deixada no silêncio.

 

Referências
Cavanaugh, William T. 2001. «The God of Silence: Shusaku Endo’s Reading of the Passion». Commonweal Vol. CXXV Iss. 5: 10-12. Acedido a 24 de Fevereiro de 2017.