Ana Ferraria

À saída da projecção do mais recente filme de Alexandre Sokourov, Francofonia – O Louvre sob ocupação, durante a última edição do Lisbon Estoril Film Festival, dois desconhecidos pretenderam sondar a minha opinião acerca do mesmo. Segundo estes, Francofonia debruçava-se sobre tudo menos a francofonia (região linguística de língua francesa) e o seu título tratava-se, por isso, de propaganda enganosa. De acordo: este filme não tem como tema a cultura francesa e muito menos a sua língua. Após vários dias nas salas do Louvre, e continuando o estudo de temas históricos, como fizera em muitos dos seus filmes (como no caso da Trilogia composta por Moloch, Taurus e O Sol), o realizador russo utilizara, desta feita, a ocupação de Paris pelo Terceiro Reich como fio condutor para um documentário sobre a história de um dos mais importantes museus europeus e, fundamentalmente, como leitmotiv para o estudo de questões de cultura e poder, e de sobrevivência da arte e da memória humana.

Data daquele verão de 1940 a interacção entre o director do Louvre, Jacques Jaujard, e o presidente da comissão para a preservação de arte da wermacht, o conde Franz Wolff-Metternich. Jaujard e Metternich são os responsáveis pela conservação das obras de arte do Louvre durante os primeiros anos da década de 40, ao evacuarem-nas para a província francesa, longe da acção da guerra. Segundo o autor, o primeiro objectivo do filme fora ponderar o valor da vida humana e o valor da arte. Com isto, pretende-se fazer alusão à cedência do governo francês, por oposição à decisão do soviético, que resistira durante anos ao poderio nazi, originando milhões de mortos. Enquanto o Louvre fora quase na totalidade evacuado (se bem que algumas das suas salas viessem a servir, mais tarde, para guardar obras furtadas pelos nazis em território francês), o Ermitage servira como hospital de campanha durante o cerco de São Petersburgo. À opulência baça de Paris durante a ocupação, o espectador é confrontado com as imagens de destruição e desespero da cidade russa, símbolo da resistência. É impossível não criar um paralelismo entre os dois museus, objectos ambos da câmara de Sokourov (lembremo-nos do filme A Arca Russa, onde se pretendera representar a história russa desde a fundação de cidade de Pedro). “O Ermitage e o Louvre são duas montanhas europeias… Mas as suas histórias incluem revoluções malditas”, afirma o realizador, acrescentando, a propósito do funcionamento e da vida nos grandes museus europeus, que estes representam “o estado ideal, humanista; deveriam ser eles a governar”(1). Apesar de Francofonia não apresentar o impacto visual de A Arca Russa, filmado num único take de 95 minutos, sempre em movimento ao longo das salas do Ermitage, a câmara de Sokourov mantém-se irreverente e inconfundível, na forma como olha os quadros suspensos nas paredes do Louvre, por exemplo, ou no modo como ficção, arquivo, documentário e sonho se unem.

Nos interlúdios desta narrativa, encontramos, passeando-se pelos corredores do museu, dois símbolos da história francesa: uma Marianne inconsequente, encarnação poética da democracia, sussurrando pelos cantos “liberté, equalité, fraternité”, e um Napoleão Bonaparte patético, que vigia e espia a herança da sua obra, afirmando repetidamente “Tout ça, c'est moi”. Este duo de personagens naïfs  parece representar, por um lado, a desconfiança de Sokourov no presente da democracia dos países europeus (a ingenuidade e impotência das democracias que acabam impreterivelmente por sucumbir a poderes mais sedutores e asseverantes); demonstra, por outro, a falácia da assumpção de a arte ter uma pátria específica: “Um museu não é propriedade de um país, é propriedade universal” (1), afirma em entrevista. Realça, além disso, o seu ressentimento contra a revolução francesa e as suas consequência, tanto a nível humano como a nível artístico (a tomada de posse de obras de arte por entidades e personalidades históricas). 

Em paralelo com estes episódios, a voz de Sokourov relata a origem e a história da capital de França, a invasão nazi, e o destino do primeiro duo de personagens, revelando-lhes, em género de oráculo, o seu futuro, finda a guerra. O realizador toma parte, por outro lado, em outra narrativa do filme, contracenando com um amigo marinheiro, responsável por carregar contentores de “arte europeia” para um local seguro. A tempestade marítima a que este navio alegórico está sujeito simboliza o perigo a que a cultura europeia se continua a prestar. Em entrevistas posteriores à première do filme, o autor justifica este receio com a abertura das fronteiras europeias aos migrantes muçulmanos, por exemplo: “Ninguém pensa em defender a nossa cultura, que em breve deixará de existir… Para realmente ajudar as pessoas, é necessário intervir nos seus países, tentar resolver lá os problemas. Ao invés disso … tentamos acolhê-los e impor-lhes o nosso estilo de vida. Os resultados serão catastróficos para as duas partes”. Ao afirmar que “a Europa que alcançou as mais altas realizações de arte e de filosofia continua a cometer erro atrás de erro” (2), Sokourov parece contradizer-se. Se uma obra de arte não pertence a nenhuma nação, também não deveria pertencer a nenhum continente, ou cultura, num sentido mais inclusivo. Para o realizador, não se trata, no entanto, disso: a sua preocupação com o destino das obras de arte, enquanto fonte de memória da humanidade, tem ganho forma concreta nos últimos anos devido, principalmente, à recente documentação (em vídeos tecnicamente cada vez mais avançados) da destruição de cidades, templos, e peças de arte em guerras com motivações religiosas. Recorde-se, a título de exemplo, a demolição do templo de Palmyra, Síria, em Agosto de 2015 (3). Ao cinema da extinção, Sokourov responde com o da criação e preservação.

De modo a enfatizar o seu sentimento europeísta abrangente, Sokourov escolhe uma equipa quase na totalidade francesa, por um lado, e preenche, por outro, o filme com várias alusões à sua pátria: desde as aparições iniciais de Tolstoi e Tchekov, à referência ao Ermitage, até ao hino russo, com que o filme encerra. O espectador dificilmente se poderá esquecer de que não se trata de um filme sobre a França: ouve-se tão depressa o francês, como o alemão ou o russo. Este é um filme europeu. No entanto, prevê o autor, não será exibido na Rússia, porque lá não existe interesse, nem por parte do espectador nem por parte dos distribuidores de audiovisuais, em mostrar “pinturas humanitárias sobre a Segunda Guerra Mundial” (4).

  1. “Entretien avec Alexandre Sokourov por Cyril Béghin e Jeaassé” in Cahiers du Cinema. N. 716. Novembro 2015. pp. 26-29.
  2. http://fr.news-4-u.ru/sokourov-a-la-mostra-de-venise-a-declare-a-propos-de-lincompatibilite-europeenne-et-musulmane-de-lesthetique.html. 
  3. http://www.dailymail.co.uk/news/article-3208207/ISIS-destroy-ancient-temple-Palmyra-using-dynamite-jihadi-group-continue-destruction-Syria-s-heritage.html#v-4257202720001.
  4. http://latestnewsresource.com/fr/news/film-sokurova-frankofonija-voshel-v-konkurs-venetsianskogo-kinofestivalja
  5. Cyril Béghin. “Fortune de guerre” in Cahiers du Cinema. N. 716. Novembro 2015. pp. 24-26.