Joana Corrêa Monteiro

Existe um lado megalómano em qualquer enciclopédia. A ideia de reunir todo o conhecimento, ou todo o conhecimento de uma determinada área, parece ambiciosa de mais para poder ser levada a sério. Qualquer enciclopédia, nesse sentido, está votada ao fracasso. Ninguém no seu perfeito juízo imaginará ficar a saber tudo o que existe para saber por ter lido uma enciclopédia (aliás, poucas pessoas, no seu perfeito juízo, lerão enciclopédias). E, contudo, as enciclopédias têm a sua utilidade: servem, por exemplo, para se ficar rapidamente esclarecido a respeito de qualquer coisa, ou para desempatar conversas ou apostas sobre datas, inventores famosos ou nomes de cidades.

À natureza cómica de qualquer enciclopédia, esta junta a particularidade de ser uma enciclopédia – ou, mais rigorosamente, um dicionário – de termos intraduzíveis da História da filosofia. É fácil compreender que por ‘intraduzível’ se pretende designar não uma palavra que não tenha tradução, mas uma palavra cuja tradução põe habitualmente problemas. Caso contrário, mais do que vagamente cómico, provavelmente obsessivo ou manifestamente ambicioso, este projecto seria simplesmente impossível – e ainda mais impossível seria a ideia de o traduzir. A quantidade de pontos que se afastaria da realidade, à la Platão, seria absurda. E portanto trata-se de tentar traduzir, o melhor possível, o ‘intraduzível’. Esta é uma ideia com que simpatizo, e que, parece-me, encontra no Dicionário uma execução feliz. Exemplifico com uma leitura breve de uma entrada, escolhida muito tendenciosamente.

Na entrada sobre saudade, começam por se perfilar os candidatos a traduções: anyoransa, em catalão, nostalgie, em francês, Sehnducht, em alemão, desiderium, em latim, e, finalmente, soledad, em espanhol. Não posso aferir o grau de pureza da maioria destas sugestões, mas, nas línguas que conheço, não me parecem maus candidatos. Mais ainda, não me parece que não seja possível explicar o que são saudades a alguém que não seja português, nem – mais importante ainda – me parece que só os portugueses sintam saudades. Ao longo da entrada, discutem-se questões sobre a origem e a etimologia da palavra e ficamos a saber que há quem argumente que na raiz latina solitates se intrometeu, por alguma razão, a ideia e a sonoridade de salvus (saúde). Também são brevemente elencados alguns argumentos de intelectuais e poetas portugueses sobre as saudades, ‘a alma portuguesa’ e a relação de tudo isto com Alcácer-Quibir, mas o ponto que me parece mais bem conseguido, e potencialmente mais interessante para alguém que não seja português, é a explicação da saudade como relação com o tempo. A saudade traz ao presente o passado, na memória, mas também o futuro, no desejo. E não depende da falta do objecto, como se mostra pelo exemplo de Vinicius de Moraes que, de regresso a casa e vendo o Rio de Janeiro pela janela do avião, se sente a morrer de saudades. Na verdade, a presença daquilo ou daquele que faz falta leva, muitas vezes, a uma “descarga catártica” de saudades que acontece justamente no momento do reencontro. É interessante que a análise fenomenológica e existencial da saudade dependa, mas também ilustre, a universalidade deste sentimento, enquanto, contraditoriamente, ele foi sistematicamente usado para demonstrar a excepcionalidade portuguesa. O facto de não existir qualquer palavra que signifique exactamente o mesmo que ‘saudade’ é e não é importante, por isso.

A lista de entradas é muito extensa e percorre tanto os “clássicos”, como logos, pathos, ou lex, como os mais contemporâneos, mas igualmente notáveis, dasein ou kitsch, passando por algumas palavras cuja complexidade e dificuldade em traduzir é muito mais sorrateira. Por exemplo, a propósito de “neighbor”, que poderia sem muita discussão ser traduzido por “vizinho” ou “próximo”, ou “love”, que com bastante confiança pode ser convertido em “amor”, apresentam-se sínteses notáveis da história do uso destes termos em que são sublinhados alguns dos problemas levantados por esses usos. E é talvez nestas palavras que não constituem, na maioria dos casos, dificuldades de tradução, que reside a maior riqueza desta obra. Na verdade, o interessante não é tanto a lista de sugestões de palavras noutras línguas que podem traduzir cada “intraduzível”, mas a sua análise histórica e conceptual. E este ponto revela a chave de compreensão do empreendimento hercúleo desta enciclopédia: traduzir é explicar, ou seja, é encontrar e comunicar sentido. 

Voltando, então, à ideia de um dicionário de intraduzíveis – aliás, à ideia de tradução de um dicionário de intraduzíveis –, termino com o aspecto que me parece mais interessante, e que é actualizado em cada entrada, desde as mais felizes às menos bem conseguidas: a ideia de que a filosofia é muito semelhante à tradução – trata-se de compreender o que os enunciados querem dizer, por um lado, e por outro, de saber dizer exactamente o que se quer dizer. Uma tarefa, aprendemos desde Sócrates, que é ao mesmo tempo mandato divino e nunca acabada – mas que não se pode deixar de executar, nem que seja para que fiquem cada vez mais nítidos perante os nossos olhos os contornos da nossa ignorância.