Telmo Rodrigues 

Em 2011, a separação de Kim Gordon e Thurston Moore, o casal que esteve na origem dos Sonic Youth, apanhou todos de surpresa: uma relação de trinta anos e um casamento de vinte e sete acabavam, pondo fim à banda e ao sonho que muitos alimentavam de manter uma relação familiar funcional ao mesmo tempo que se mantém uma produção artística relevante (neste caso particular, alguma da música mais relevante das últimas décadas). Na sequência do divórcio, Kim Gordon retomou, de forma mais activa, a sua relação com a arte, dedicando-se a vários projectos, um dos quais a publicação de um livro de ensaios sobre vários tipos de arte editado por Branden W. Joseph (Is It My Body?, 2014). Nesse livro, que colige ensaios da autora desde finais dos anos setenta, uma das preocupações centrais é o lugar da mulher na arte e na música, e, mais especificamente, o lugar de Gordon numa banda de homens (até a sua posição no palco é alvo de escrutínio). Essa preocupação passa para a sua autobiografia mas, sem o cuidado de produzir ensaios num sentido mais académico, torna-se uma constante reivindicação de personalidade que, em vários momentos, Gordon afirma ter sido mal apreendida pelo público: «A imagem que muita gente tem de mim, de que sou desprendida, desinteressada ou distante, é uma persona que vem de anos a ser ridicularizada por cada sentimento que alguma vez exprimi» (p. 41). Nesse sentido, como afirma mais à frente, a música pode ser uma maneira de exprimir sentimentos que não podem ser expressos de outra forma (p. 128); porém, essa música não é óbvia quanto aos sentimentos que Gordon descreve ter tido ao longo da sua carreira (e um capítulo que consiste simplesmente na reprodução da letra de uma canção – «Cotton Crown», pp. 245-6 –, sem mais explicações, serve de pouco). A liberdade conceptual que o registo das memórias permitiria, à partida, na exploração do tema que delineava o livro de ensaios é subjugada pela relevância, a vários níveis, que o divórcio acabou por ter. 

Da sua juventude na costa oeste dos Estados Unidos (com passagens por Hong Kong e pelo Havai), em que era nova de mais para absorver o ambiente hippie dos anos sessenta, até Nova Iorque, onde chegou tarde de mais para viver a revolução punk, Gordon tenta descrever-se como pessoa normal, sem qualquer qualidade especial que denote a importância que ela sabe – embora possa querer recusar – que teve, e tem, em vários campos. Mas essa normalidade está constantemente a ser desafiada pela forma aparentemente casual com que Gordon se cruza e convive com um conjunto de personagens que são, ou acabarão por ser, relevantes em diferentes campos artísticos. No desfile de personagens que fazem parte destas memórias estão alguns dos nomes mais importantes da música, do cinema e da arte americana das últimas décadas (um caso paradigmático é Danny Elfman, com quem Gordon manteve uma relação amorosa durante alguns anos). Movimentando-se nestes ambientes, compreende-se que parte do esforço seja dedicado a tentar explicar que nunca teve como intenção entrar no mundo glamoroso da música pop e que, assim, a sua presença nesse mundo é apenas circunstancial. Mas é peculiar que haja uma miopia tão acentuada relativamente ao que se passa do que se passa e passou à sua volta, ao ponto de ela reduzir tudo, em certa medida, a uma série de explicações banais e desleixadas acerca de padrões de comportamento freudiano que são, de uma forma óbvia, resultado de uma tentativa de lidar com o divórcio. Mesmo que a explicação que propõe para o seu relacionamento problemático com homens seja atribuída ao relacionamento disfuncional com o irmão, isso não explica as três décadas que passou com o marido e a vida que construíram juntos. Parte do esforço de se diminuir parece, aliás, contestado pela escolha de fotos que acompanham grande parte dos capítulos, onde as fotos de Gordon antes dos Sonic Youth ilustram uma espécie de vida onírica que em nada colide com as fotos mais glamorosas dela em palco ou na presença de personagens mais ou menos famosas (Kurt Cobain ou Iggy Pop, para dar apenas dois exemplos relacionados com a música). Em parte, o livro falha exactamente por negar constantemente um tipo de vida de que não consegue, contudo, distanciar-se: um tipo de vida a que muitos, como Gordon bem sabe, aspiram.

A luta para se afastar de uma visão tradicional de estrela de música encontra eco nas descrições da vida familiar, especialmente depois da mudança da família de Nova Iorque para Northampton; mas esse espaço suburbano continua a não ser apenas um subúrbio e a vida normal que advoga continua a fugir-lhe à medida que descreve encontros, fortuitos ou não, com membros de outras bandas ou artistas que também por ali habitam. A vida que Gordon descreve nestas memórias em nada desfaz as ideias públicas sobre a sua imagem, e as fragilidades que continuamente aponta à sua personalidade colidem com os seus feitos. É o divórcio que vem pôr tudo em causa e que vem desfazer o conto de fadas que parecia viver, relembrando que, afinal, Gordon e Moore também são humanos. O encontro com Moore é decisivo para a sua vida em vários aspectos e, embora apareça agora ofuscado pelos eventos recentes, é possível perscrutar essa importância crucial nalgumas passagens («Contou-me história atrás de história sobre ir ao CBGB nos anos setenta para ver o Tom Verlaine, os Television, os Ramones, o Richard Hell e a Patti Smith – toda a música e todas as pessoas que eu tinha perdido» – p. 112). Agora, já sozinha, Gordon relembra-nos que é humana não por ter cometido erros, por ter dúvidas e incertezas, por seguir certos padrões comportamentais ou por amar desmesuradamente a filha, mas pelo ressentimento que perpassa a revisão que faz da sua vida: afinal, até Kim Gordon é humana ao ponto de ter sentimentos menos nobres (na página 47, por exemplo, Gordon menciona um conselho que a mãe lhe deu sobre o facto de os rapazes poderem estar mais inclinados a gostar de raparigas por causa do seu aspecto, mas que o «bilhete» para uma relação mais satisfatória era o cérebro; Gordon conclui, apontando claramente para a mulher mais nova pela qual foi trocada, que o conselho da mãe estava errado). Talvez isso pudesse chegar para construir um livro interessante, mas, como alguns cínicos comentam a propósito de literatura, é preciso mais do que sentimentos para fazer um livro e, neste caso, o ressentimento não chega; e não chega porque reprime todos os outros sentimentos que deviam aparecer naturalmente na descrição de uma vida que teve muito mais importância, e não só mediática, do que aquela que este livro deixa transparecer.