Jorge Almeida

No segundo capítulo de Expedição Nocturna à Volta do Meu Quarto (p. 119), Xavier de Maistre conta como impediu que o seu criado fugisse com um cofre que pertencia ao próprio de Maistre: “Alcancei-o facilmente e, sem dizer nada, caminhei ao lado dele algum tempo sem me reconhecer. Se quiséssemos descrever a expressão de espanto e de temor levada ao extremo no semblante humano, poderia ele servir de modelo perfeito no momento em que deu por mim a seu lado. Tive todo o vagar para fazer esse estudo; com efeito, estava tão desconcertado com o meu aparecimento inesperado e com a cara séria com que o olhava, que prosseguiu algum tempo comigo sem dizer palavra, como se estivéssemos os dois de passeio”. Esta descrição da estratégia insólita usada por de Maistre para apanhar este ladrão em fuga parece-me uma descrição frutuosa para compreendermos os livros Viagem à Volta do Meu Quarto (1795) e Expedição Nocturna à Volta do Meu Quarto (1825), publicados pela Tinta-da-China com tradução de Carlos Sousa Almeida e prefácio de Pedro Mexia.

 Os motivos que me levam a afirmar que a descrição do episódio da tentativa de roubo é uma boa descrição dos livros que aqui são recenseados serão explicados apenas no final desta recensão, uma vez que me parece mais urgente começar por apresentar en passant o autor da obra. O nome Xavier de Maistre (1763-1852) é famoso entre os leitores portugueses não por qualquer tipo de conhecimento extenso ou reflexão apurada sobre a obra do autor, mas devido à sua aparição na primeira página de dois clássicos da literatura escrita em língua portuguesa: Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Enquanto o escritor brasileiro admite ter adoptado “a forma livre (…) de um Xavier de Maistre”, Garret inicia a sua obra com uma referência directa a Viagem à Volta do Meu Quarto: “Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo”.

Não foram, porém, as condições climatéricas de Turim que obrigaram de Maistre a viajar à volta do seu quarto, mas sim uma condenação a quarenta e dois dias de prisão domiciliária devido a um envolvimento num duelo. Esta condenação será produtiva (como tantas outras na história da literatura), pois permitirá a de Maistre realizar a sua viagem e oferecer-lhe-á as condições ideais para a escrita do relato dessa jornada, deixando-o entregar-se “alegremente à imaginação” (p. 18) e “andar no encalço das próprias ideias, tal como o caçador persegue a caça, sem procurar determinado percurso” (p. 21), processo sobre o qual de Maistre diz não existir “nada mais atraente”. Nestas afirmações pode-se, desde logo, perceber, além de um vocabulário parecido com o do episódio da tentativa de roubo, que o autor está interessado não em apresentar ao mundo uma nova viagem, mas sim numa “nova maneira de viajar” (p. 16).

Numa época em que o Grand Tour era já uma espécie de instituição entre os aspirantes a intelectuais e em que proliferavam também os relatos de viagens realizadas em paragens mais exóticas, de Maistre propõe uma viagem à imaginação, local que persiste em mostrar-se simultaneamente acessível, na medida em que todos possuem os meios necessários para empreender a tarefa, e oculto, uma vez que ninguém se pode gabar de ter completado tal actividade, pois nessa região haverá sempre espaços que o viajante não irá calcar, nem sequer vislumbrar ou adivinhar. Seguindo Laurence Sterne, inclusive formalmente, de Maistre parodia a moda das narrativas de viagens, esforçando-se por ignorar o mundo exterior (ainda que na sequela de 1825 existam algumas descrições da cidade de Turim) para se concentrar na sua própria consciência. Mesmo o mobiliário que rodeia de Maistre será apenas, antecipando a famosa ideia de Amiel, uma continuação de um estado de alma, embora seja o seu limite. De um busto que tem no quarto, por exemplo, o autor diz: “é o diapasão com o qual harmonizo o conjunto variável e dissonante de sensações e percepções que forma a minha existência” (p. 95).

A paródia às narrativas de viagem então em voga não se resume à substituição do relato de uma viagem a um país exótico ou a uma das paragens obrigatórias do Grand Tour por uma viagem à própria consciência, ou, nos termos do texto, à “imaginação”. Alguns dos topoi dessas viagens são também ridicularizados. É comum encontrar nessa literatura de viagens passagens em que os autores descrevem momentos de arrebatamento perante o desconhecido, seja este uma tribo indígena ou uma escultura de Miguel Ângelo. Nesta viagem à imaginação também não faltam esses momentos de êxtase. O viajante caminha “de reflexão em reflexão”, quer quando tem um “acesso de filosofia” espontâneo (p. 77) quer quando se esforça para o ter “fazendo um esforço de cabeça sobrenatural” (p. 147), até ao momento em que sofre um arrebatamento e consegue compor o “mais completo sistema do mundo”. Todavia, invariavelmente, chegado a este estado, o viajante acaba por ser resgatado devido a uma causa mundana que o ridiculariza. Tome-se, como exemplo, o capítulo (p. 138) em que de Maistre recorda um episódio em que ficara parado a ver um bando de grous no céu. Contemplando as aves, o autor julgou “observar a natureza pela primeira vez”, o que o levou a reflectir, durante o “arroubo que o animava”, sobre quem ele próprio era, de onde vinha e qual o fim da sua existência. Quando regressa “aos negócios deste mundo, de onde por momentos tinha feito uma pequena ausência”, percebe que tinha estado largo tempo a falar sozinho em voz alta, aguçando a curiosidade da multidão que o rodeava e olhava perplexa. O zénite deste tipo de ridicularização é, talvez, o momento final do segundo livro (p. 205) quando de Maistre, empolgado por uma reflexão filosófica sobre o conceito de Tempo, galopa no parapeito da janela do seu quarto como se estivesse em cima de um cavalo numa corrida em que se pretende aproveitar febrilmente todos os instantes que o Tempo lhe irá tomar. Este arrebatamento em forma de cavalgada termina apenas quando a janela cai violentamente sobre o cavaleiro.

Em Viagem à Volta do Meu Quarto, o leitor é brindado pelo autor com a explicação daquilo que este considera ser a “chave” para compreender o seu livro, uma descoberta metafísica que de Maistre diz influenciar todos os seus pensamentos e todos os seus actos e a que chama, inspirando-se em Platão, “sistema da alma e do animal” (p. 25). Baseando-se na crença de que o “Homem é composto de uma alma e de um animal”, de Maistre afirma que “a grande arte de um homem de génio é saber educar bem o animal para que possa caminhar sozinho, enquanto a alma, liberta dessa penosa convivência, poderá elevar-se até ao céu”. Os episódios já referidos mostram como de Maistre tenta várias vezes e através dos mais variados métodos “elevar-se até ao céu”. Esses episódios exemplares revelam-nos, contudo, que o “animal”, a que por vezes de Maistre chama “o outro”, acaba sempre por vencer a “alma”. O irracional vence o racional, como no episódio (p. 65) em que de Maistre se propõe comentar duas estampas que tem no quarto: o auto-retrato de Rafael e o retrato que o pintor italiano fez da sua suposta amante, conhecido como La Fornarina; enquanto a alma examina o auto-retrato imbuída de um “respeito quase religioso” que censura o comportamento imoral da fornarina responsável pela perdição do artista, o animal, “fixando um olhar atento sobre o rosto deslumbrante daquela funesta beldade, sente-se pronto a perdoar-lhe a morte de Rafael”. Não é, contudo, apenas no campo do sensível que o animal vence a alma, pois também no campo da lógica o animal parece triunfar, como se vê no capítulo em se relata uma disputa argumentativa entre as duas partes que compõem o Homem (p. 98). Quando a alma percebe que o animal está a vencê-la no domínio do raciocínio, tenta escapar-se através de uma técnica cobarde, pedindo ao seu criado que lhe prepare café, de modo que “o barulho das chávenas atraísse por completo a atenção do insurgente”, e o fizesse esquecer a disputa argumentativa que estava prestes a vencer. Estes episódios mostram que de Maistre nunca se julga um “homem de génio”, pois sabe que não domina a arte que permite à alma “chegar ao céu”, isto é, a um mundo puramente especulativo. Sendo assim, resta-lhe ironizar com a sua condição, tendo “acessos de filosofia” que ou não são levados muito a sério (veja-se como o “mais completo sistema do mundo” passa rapidamente a ser elogiado não por ser o mais completo, mas por ser um dos mais curtos (p. 151) ou são mesmo ridicularizados (veja-se a proposta de um novo método de criação poética que consiste em juntar ao método declamatório de Pope o preceito de bater com a cabeça em tabiques). Desta forma, o génio do autor nestes dois livros consiste sobretudo na ironia presente em todas as reflexões desta viagem à imaginação.

O que mais surpreende no texto é que nada está fora do alcance desta investida de carácter irónico, desde o próprio estilo literário (p. 197) até considerações políticas vitais para o autor, um aristocrata cheio de amor a uma pátria que o abandonou na Revolução Francesa (p. 189). Um leitor atento tem sempre a sensação de estar perante um texto profundamente ambíguo. Num capítulo (p. 27) que parece ter como tema maior a pintura, o leitor desconfia que o que está realmente em causa é o já famoso “sistema da alma e do animal”; noutro capítulo (p. 63) em que se disserta comparativamente sobre os méritos da música e da pintura, a verdadeira intenção do autor é não a apresentação das virtudes de cada uma dessas artes, mas sim abordar as falácias que esse tipo de dissertação geralmente implica; e um capítulo (p. 33) em que se disserta sobre o “sistema da alma e do animal” com recurso a um exemplo da limpeza de um retrato é, na verdade, a descrição de uma masturbação.

Posto isto, retome-se a descrição do episódio da tentativa de fuga do criado com o cofre. Inicialmente, o ladrão vê na pessoa que está ao seu lado na rua apenas mais um transeunte e não o patrão, vítima do seu acto e provável vingador, daí que não sinta necessidade de alterar o seu comportamento. Só depois, quando reconhece o patrão, revela alguma perturbação. Porém, como de Maistre continua de cara séria e a comportar-se como mero transeunte e não como perseguidor de um ladrão ou como vingador de um crime, o ladrão não muda de comportamento. Devido à inadequação do comportamento da vítima, o criminoso assume também um comportamento estranho: nem tenta escapar nem se entrega voluntariamente, continua apenas a andar. O ladrão sabe que aquele homem é a sua vítima e, no entanto, este não parece sê-lo, pois nada no seu comportamento o identifica enquanto tal. O mesmo se passa com a ironia. Ela está constantemente presente nos dois livros de Xavier de Maistre, mas não é possível identificá-la recorrendo a marcas textuais. O leitor de Viagem à Volta do Meu Quarto é muitas vezes surpreendido pela sensação de que está a ler mais coisas do que aquelas que são afirmadas ou negadas no texto e pela percepção de estar incessantemente a seguir um caminho cheio de bifurcações. Todavia, quando decide encarar o texto, este mostra-lhe uma estrada de sentido único com a mesma cara de sempre, como a cara séria da vítima ao lado do ladrão. Resta ao leitor, mesmo que tenha percebido muitas das bifurcações que aquela estrada sem bifurcações tem, continuar a viagem acompanhado por de Maistre em ritmo de passeio. Tal viagem é, por tudo o que se disse acima, altamente recomendável.