Interessa-me a leitura não recomendada. Os livros com que nos tenhamos cruzado por acaso, várias vezes até, antes de imaginarmos que poderiam desempenhar um papel na nossa vida: algumas horas de leitura, interrupções e regressos, releituras, pensamentos vagos, ideias novas, citações bem ou mal recordadas.

Na história da leitura de cada livro, poderíamos considerar vários momentos: a altura em que ouvimos falar do livro pela primeira vez, a ocasião em que vimos o livro numa livraria ou folheámos algumas páginas online, o dia em que comprámos o livro, a primeira leitura, talvez uma segunda leitura com um fim mais específico (citar determinado passo, pensar sobre o livro, escrever sobre ele), além de qualquer leitura secundária (livros ou textos sobre esse livro). 

Será que uma história particular da leitura de um livro é importante? Sim, na medida em que nos diz como encontramos ou como fomos encontrados. Cada encontro passageiro com um livro que virá a ser importante para nós é um gesto diferente apontando para o mesmo centro. Certas coisas (erros, ideias, situações) repetem-se na nossa vida até finalmente lhes prestarmos atenção. 

A propósito do interesse que o relato autobiográfico de uma experiência pode ter, ocorre-me um episódio engraçado. Em 1846, um ano depois de começar a viver junto ao lago Walden, Henry David Thoreau deu uma conferência sobre Thomas Carlyle, em Concord. No fim, os ouvintes explicaram que, apesar de o terem ouvido com proveito, preferiam ter assistido a uma conferência sobre a vida de Thoreau nos bosques. Nós somos animais curiosos, como já alguém disse. Da curiosidade que sentimos em relação aos outros retiramos não só prazer mas também informação e inspiração que nos ajudam a viver. Em 1847, desenvolvendo excertos do diário que mais tarde seria usado como ponto de partida para Walden, publicado em 1854, Thoreau fez uma conferência intitulada «A History of Myself».

A minha história da leitura de Walden inclui algumas separações e reencontros e é bem possível que este percurso irregular e cheio de interrupções esteja inscrito no programa do próprio livro.

A primeira vez que ouvi falar de Thoreau foi no filme O Clube dos Poetas Mortos (Peter Weir, 1989). Cada pessoa verá esta longa-metragem à sua maneira — enquanto filme sobre como (não) dar aulas ou sobre como (não) ler, enquanto filme sobre a adolescência, enquanto filme sobre o teatro, etc. Eu pertenço ao grupo daqueles que vendo este filme perceberam pela primeira vez que as coisas que lemos não estão desligadas da vida — apesar de em muitas escolas, incluindo universidades, nos obrigarem a reagir a elas como se não tivessem nada a ver connosco nem com os outros seres humanos. É verdade que o filme também explora as consequências de compreendermosmal o que lemos — uma das personagens principais perde a vida por esse motivo —, mas a incompreensão é um problema humano mais vasto, não um risco exclusivamente associado à leitura.

Pelas minhas contas, li Walden pela primeira vez mais ou menos dez anos depois de ver o filme. O filme não foi decisivo para eu ler o livro, mas talvez tenha lançado as sementes da leitura, por mencionar Thoreau. Lembro-me vagamente de levar o meu exemplar na viagem mais longa de avião que fiz até agora. No fim da viagem, troquei por outros, lidos pelos meus companheiros, os livros que lera durante o percurso. 

Em 2015, interessada não exactamente em Thoreau mas sim em Stanley Cavell, li Senses of Walden (1972), um ensaio que este filósofo escreveu sobre o livro de Thoreau. Curiosamente, reencontrei neste livro e na obra deste filósofo a percepção que O Clube dos Poetas Mortos me deixou sobre a relação entre os livros e a vida. Cavell procura sempre contextualizar as questões filosóficas mais difíceis na vida humana, e esta, para ele, também inclui o que as pessoas lêem e escrevem. 

Em 2016, por coincidência não relacionada, Walden voltou à minha vida quando me propuseram que o traduzisse. Apesar de toda a minha história prévia com o livro, traduzir Walden foi uma experiência de estranheza.

Aliada à estranheza de traduzir o que anos antes lera apenas como leitora (enquanto o leitor pode distrair-se de vez em quando, levantando a cabeça do livro, pensando noutros assuntos, associados ou não, o tradutor tem de estar atento a todas as palavras), a estranheza da redescoberta dos passos esquecidos do texto. Talvez por não ter o livro na estante para o consultar de vez em quando de modo a ajustar leitura e memória, tinha guardado uma recordação algo idílica do texto: viver em harmonia com a natureza, viver intensamente, ser fiel a si mesmo. Não há nada de idílico nas sensações de solidão e de liberdade de Walden. Tinha esquecido completamente o isolamento do autor, o carácter agreste da natureza, o desespero nunca abertamente declarado mas sempre em questão, a dureza do trabalho físico, a luta contra o aborrecimento, a persistência implacável da atenção.

Outra estranheza de Walden é a pura sensação de tempo livre que o autor nos transmite. Nos dias que correm, nada mais estranho do que esta disponibilidade para observar e participar na vida da Natureza. Muitos de nós passam grande parte do tempo em interiores, não no exterior, presos a ecrãs de computadores ou de telefones. Por este motivo vamos perdendo o vocabulário das actividades que já não cultivamos e a esta perda alia-se o risco da incapacidade de pensarmos sobre o lugar que ocupamos e sobre a sua relação com o que nos rodeia. Pelo contrário, Thoreau retrata a experiência de viver nos bosques através de uma quantidade absolutamente esmagadora de pormenores descritivos, relacionados com materiais de construção, técnicas de cultivo, registo exaustivo de despesas, formatos possíveis de bolhas no gelo, batalhas de formigas, movimentos de esquilos, brincadeiras com mergulhões e até um estranho gato alado. 

Para o autor, pensar e escrever são não só objectivos de partida, mas também actividades tão inevitáveis e essenciais como as tarefas mais físicas a que precisa de recorrer para sobreviver na Natureza. Percebe-se claramente que Thoreau escreve para resistir à solidão, ao tédio, ao Inverno, ao desespero. Se não escrever, perecerá.

Mas, mais do que isso, Thoreau escreve assim porque vive assim. Thoreau escreve sobre estes assuntos comezinhos porque é neles que se joga a sua própria vida. Tal como trabalha no campo com as suas próprias mãos e constrói a sua própria casa, Thoreau pensa pela própria cabeça. Em Walden, cada elemento concreto é indissociável não só da actividade física que implica mas também da actividade mental com que se relaciona. Quando o autor corta árvores, lavra a terra, lança sementes ao chão ou regista as despesas com pormenor exasperante, é como se o fizesse nele próprio. 

Talvez o mais estranho de tudo seja o facto de ainda hoje continuarmos a ler com fascínio intrigado um livro sobre os assuntos tão distantes da nossa existência contemporânea como Walden. Aliás, à estranheza de ler Walden associa-se a estranheza da própria actividade de ler em 2017. Como ler no meio da chinfrineira generalizada das redes sociais, da televisão e de outros afazeres que nos esgotam a capacidade de prestar atenção? Como suportar a estranheza do silêncio da leitura, a estranheza de ouvir em silêncio a voz de alguém e de com ela começarmos a ouvir a nossa própria voz? Como ouvir a voz de alguém? E como poderemos ouvir a nossa própria voz?

Cavell salienta que Thoreau foi viver para os bosques porque atravessava uma crise — visto que nada o atraía no modo como os outros viviam, precisava de perceber como devia viver, o que poderia fazer. (E neste aspecto, Walden, com todo o seu individualismo, autoconfiança, solidão, relacionados com a crença de que é possível começar de novo, é sem dúvida um livro indissociável da mundividência norte-americana.) Uma das singularidades que continuam a impressionar-nos em Walden relaciona-se com o estranhamento que o autor detecta nos seus contemporâneos em relação à sua própria existência. Thoreau observa que os seus contemporâneos não estão presentes na sua vida — limitam-se a fazer como os outros fazem, sem qualquer questionamento — e recomenda-lhes que contactem com o seu próprio desespero silenciado, que o deixem falar, dizer o que não deve, o que não se diz, em tons considerados irritantes ou pouco adequados, inconformados com o que os outros defendem e cultivam.

Em contexto académico, muito se tem falado sobre o facto de a obrigação de escrever e publicar continuamente dar origem a textos geralmente desinteressantes e dispensáveis que não só ninguém quer ler como também ninguém quer escrever. Walden está nos antípodas de tudo isto. À necessidade de escolher um tema canónico, Thoreau opõe os temas menos elevados que se possa imaginar, prefere referências estranhas, não ostenta a preocupação de parecer inteligente a todo o custo. 

A partir de Walden, estou a dizer que, em contexto académico ou fora dele, cada um tem de escrever sobre o que considera importante, independentemente de se tratar de um tema menor ou não, heterodoxo ou não. O caminho para descobrirmos tanto a forma de vida como a forma de escrita que mais nos convêm poderá ser árduo e implicar construirmos coisas com as nossas próprias mãos, mas não há modo de o evitarmos se queremos viver e escrever deliberadamente.

Cavell nota que Thoreau nada faz para seduzir o leitor. O autor limita-sea escrever o que tem de escrever. Só quer os leitores que tiver. Entre estes estão os que um dia descobriram por acaso uma frase sua e ficaram curiosos, comovidos, indignados, admirados, inspirados ou com vontade de contra-argumentar. Nem sequer andavam à procura dele. Prestaram-lhe atenção não por ele fazer alguma coisa para os conquistar, nem por causa de qualquer suposto brilhantismo dispensável da argumentação, nem por ter uma conclusão esclarecedora, mas porque algo ali os tocou, ajudou a falar ou a viver. Thoreau disse o que precisava de dizer e alguns ouviram e compreenderam.

Faca de Papel #1

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