No dia 31 de Janeiro de 2014, foram avistadas cinco maritacas na Avenida António Augusto Aguiar. O que faziam ali cinco aves tropicais, soltas em pleno inverno lisboeta? Estes pássaros grandes, coloridos, barulhentos, misturados entre os pombos quietos e cinzentos, passaram despercebidos a praticamente toda a gente que estava à sua volta. Eu reparei. E desde já estabeleço uma nota importante: falo de mim com um certo pudor – não gosto de usar a palavra «eu» logo no primeiro parágrafo –, pelo simples facto de «eu» me parecer um objecto de estudo de fácil acesso para as questões que me interessam aqui. Do que me interessa falar aqui é sobre o que é ser daqui, o que é estar aqui, ou estar em algum outro lugar.

Reparei nas maritacas, enquanto caminhava pela rua fora, porque ouvi um grasnar que era para mim ao mesmo tempo familiar e estranho. Algo que eu conhecia, mas que não pertencia àquele contexto. Conhecia, percebi, do tempo em que vivi em São Paulo, Brasil, altura em que ouvi e vi uma variedade de pássaros tropicais, incluindo as inconfundíveis maritacas.

Ocorreu-me então que ser uma maritaca em Lisboa não é o mesmo que ser uma maritaca em São Paulo. E aquilo que me interessou averiguar foi precisamente o que significa isto: o que é ser daqui e estar ali, o que é nascer no Porto e estar a caminhar em Lisboa, o que é ser português no Brasil, ou ser uma ave tropical num país mediterrâneo.

 

POSIÇÕES RELATIVAS

O ruído das aves foi a primeira impressão que tive da diferença entre estar em Portugal e estar no Brasil. Cheguei ao Brasil já bem tarde na noite, fui recebida com um abraço familiar e dormi. Quando acordei, estava dentro de uma casa confortável, e ouvia os pássaros a cantar lá fora. Mas não era o mesmo barulho ao qual eu costumava chamar «pássaros a cantar lá fora»; os pássaros eram diferentes, o seu canto era diferente. Estar dentro de uma casa ao amanhecer, enquanto os pássaros cantavam lá fora, era diferente. Mas não tão diferente quanto eu esperaria.

Poucos dias depois, escrevi: «Não é muito diferente, estar aqui. É estranho, mas é verdade. Parece-me mais importante, tangível, decisivo, a minha posição relativa a esta cadeira – sentada na ponta, como quem está pronto e prestes a levantar-se, ou mergulhada no fundo dela, chamando o sono e o sonho – do que a minha posição relativa ao mundo»1. Ainda hoje tento descrever aquilo que fazia com que tudo fosse familiar e estranho ao mesmo tempo, e penso que apesar das tentativas só posso descrever detalhes, e ainda não tenho alcance sobre o todo. Mas, sobretudo, o que me surpreendeu então e me parece óbvio agora, é que a posição em relação a mim não tinha mudado, com uma simples viagem de dez horas de avião. Eu achava o mesmo de mim, e sentia-me a mesma, e a sensação de estar num quarto confortável, com a luz matinal a querer entrar pelas janelas, juntamente com o canto dos pássaros, era familiar, mesmo que em certos detalhes fosse tão estranha. Mas era isso: dentro de mim, nenhuma alteração se tinha dado – ainda.

Foi nesses primeiros dias que senti o primeiro embate de ser dali e estar aqui. Todos sentimos já a estranheza de ser estrangeiro num país que visitamos. Mas quando temos a necessidade de operar exactamente na mesma engrenagem que os nativos, ela confere uma importância diferente a esta estranheza. Há uma vontade de amaciar essas diferenças, ao mesmo tempo que, vistos do exterior, somos descritos exactamente pela diferença que tentamos atenuar. Para todos os efeitos, e em múltiplas situações, para o melhor e para o pior, eu era a portuguesinha. Se em Portugal isso era uma característica totalmente muda em mim, dez horas depois, com uma viagem de avião pelo meio, essa era a primeira característica visível de mim. Não foi, no entanto, a primeira vez que senti esse embate; muito mais cedo, quando comecei a estudar na Universidade de Lisboa, tinha já sido a Ana do Porto. Tendo nascido no Porto e ido estudar para Lisboa, tinha já passado por esta experiência de me embrenhar num sistema que não nasceu já a contar comigo. Por isso, tudo o que descrevi aqui me parece natural. Ganhou um interesse novo para mim, no entanto, na intersecção destas duas estranhezas, na simultaneidade destes dois deslocamentos.

Certa noite, discutindo receitas de bolinhos de bacalhau com amigos brasileiros, lembro-me de ter colocado a mão na anca, levantado a voz e dito com firmeza: «… porque eu sou uma mulher do norte». Para esses meus amigos, esta expressão não significava rigorosamente nada, ou, até, significaria algo completamente diferente do que eu esperaria. Ser uma mulher do norte de Portugal, no Brasil, não tem um expressão característica. Em Portugal, teria bastado a nomenclatura «bolinhos de bacalhau» (e não «pastéis de bacalhau») para invocar a tradição mais autêntica, bruta, e firme a que eu queria dar expressão com a minha mão na anca e a minha frase, manifestamente deslocada. É que ser uma mulher do norte, no Brasil, não significa nada. E eu, que nunca me senti assim tanto uma mulher do norte, nem sequer muito portuguesa, enfrentei o pestanejar em branco dos meus amigos brasileiros com um embaraço universal.

Explicar coisas que sempre sentimos como adquiridas é aquilo que nos revela que não estamos exactamente no lugar de onde somos. Tal como quando temos que explicar a alguém onde é a Avenida da Liberdade (em qualquer cidade portuguesa), sabemos que esse alguém é de fora. Certa vez, partilhando um táxi, olhei para São Paulo pela janela em movimento, e saiu--me a expressão «Primeiro estranha-se, depois entranha-se». Nunca me senti tão portuguesa como quando expliquei à pessoa com quem partilhei o táxi a história dessa frase de Pessoa.

E são estas pequenas coisas que eu carregava em mim sem saber que faziam com que Portugal inteiro tivesse vindo comigo e que, à primeira vista, antes de que estas estranhezas se tivessem revelado, estivesse tudo no mesmo lugar. Apenas a mala ainda não tinha sido desfeita.

 

MALAS E BAGAGENS

Chateaubriand escreve, a 11 de Dezembro de 1803, no diário da sua «Voyage en Italie»: «chaque homme porte en lui un monde composé de tout ce qu’il a vu et aimé, et où il rentre sans cesse, alors même qu’il parcourt et semble habiter un monde étranger»2, uma citação escolhida por Levi-Strauss para terminar a sua introdução à obra «Tristes Trópicos», que relata parte da sua experiência no Brasil, precisamente.

É isto, então: enquanto carregamos o nosso próprio mundo, composto de tudo aquilo que vimos e amamos, apenas parecemos percorrer e habitar o estrangeiro. Mas o que significa isto, carregar um mundo, o nosso mundo? Carregar como? Carregar onde? Carregar o quê? E como funciona essa bagagem? É uma bagagem porque é um peso, ou é uma bagagem porque é um conjunto de coisas úteis? Ou as duas coisas? E podemos escolhê-la? Podemos escolher largá-la? E se eternamente parecemos percorrer e habitar, nunca realmente percorremos e habitamos um lugar estranho?

Estas são questões para as quais não há uma resposta conclusiva, e de facto todos sabemos que estamos a falar de coisas que não se medem, não têm um peso e não ocupam um espaço fora da nossa consciência de nós mesmos. Sabemos também que isso não retira valor à ideia de uma mala cheia de coisas que nos definem. Talvez possamos simplesmente dizer, como e. e. cummings, a respeito das coisas que amamos: «i carry it in (my heart)»3.

 

MUNDO NOVO

Não sabendo ao certo responder a estas perguntas do ponto de vista de quem carrega malas por determinados lugares, gostaria de considerar também o ponto de vista do lugar. Porque se um lugar continuamente deixa passar por si pessoas que não lhe pertencem, então, o lugar está condenado a nunca ter ninguém que lhe pertença, a não ser os que lá nasceram?

Não é assim, e o Brasil sabe-o bem. Aliás, o Mundo Novo inteiro foi construído assim. Pessoas chegaram vindas de várias partes da Europa, e tornaram-se Americanos. Deve ser por isso que, no Brasil, a relação com a nacionalidade é completamente diferente da de Portugal. É infinitamente mais fácil ser-se brasileiro do que ser-se português, e isto porque é perfeitamente habitual acabar por se ser brasileiro tendo-se nascido português, italiano, japonês, para nomear apenas os exemplos mais comuns.

Tomemos um exemplo controverso: Padre António Vieira. Português? Não, brasileiro. É claro, nasceu em Portugal. Mas a sua vida foi vivida no Brasil, a sua obra foi feita lá, o seu coração estava com os indígenas brasileiros que procurava libertar, física ou espiritualmente. O facto de ter dedicado a sua vida ao Brasil não o torna brasileiro? Para um brasileiro, sim, claro que sim; para um português, a certidão de nascimento é inalterável, e prevalece.

Isto pouco importa; Padre António Vieira pode até ser português e brasileiro ao mesmo tempo, com pouco prejuízo para o próprio. Mas, mais uma vez, e o lugar, como é que fica? Portugal é o mesmo com e sem este escritor? O Brasil é o mesmo sem aquelas cinco maritacas? Cinco portugueses podem fazer parte do tecido estrutural do Brasil, sem sobressalto. O contrário não será tão fácil, eu diria, e nisto se distingue o mundo novo do velho mundo: a aceitação mais ou menos fácil da sua natural regeneração.

Pese embora a exactidão burocrática, a certidão de nascimento não é garantia da nossa proveniência, quando falamos desta relação identitária. Veja-se por exemplo o que escreve Le Clézio, escritor que nasceu em França e viveu parte da sua infância na Mauritânia, sobre os seus pais, que, como afirma nas frases anteriores a esta citação, são aquilo de onde vimos: «J’ai longtemps rêvé que ma mère était noire. Je m’étais inventé une histoire, un passé, pour fuir la réalité à mon retour d’Afrique, dans ce pays, dans cette ville, où je ne connaissais personne, où j’étais devenu un étranger. Puis j’ai découvert, lorsque mon père, à l’âge de la retraite, est revenu vivre avec nous en France, que c’était lui L’ Africain. Cela a été difficile à admettre. Il m’a fallu retourner en arrière, recommencer, essayer de comprendre.»4 A identidade do pai, na sua velhice, como que refez a sua certidão de nascimento, e, sobretudo, a identidade do filho saiu alterada desse processo. O lugar de onde somos é sentido ainda com mais intensidade se já aqueles de quem vimos já eram do mesmo lugar.

 

SER DE UM LUGAR

O pano de fundo aqui é a questão da ligação da nossa identidade com o lugar de onde somos. Até que ponto é que estas duas coisas estão ligadas? Somos, para sempre, o lugar de onde vimos? O lugar de onde vimos também precisa de nós para se identificar? Creio que a resposta para estas questões terá que ser sempre sim, até certo ponto; e esse ponto é definido individualmente. No entanto, sim, estou convicta de que o lugar – seja aquele de onde vimos, onde estamos ou para onde vamos – é um dos factores que nos definem enquanto indivíduos.

Charles Taylor aponta para esta forte ligação intrínseca ao ser humano, que funciona também pela negativa e na direcção contrária: «the disorientation and uncertainty about where one stands as a person seems to spill over into a loss of grip on one’s stance in physical space»5. Parece existir algo como um «essential link between identity and a kind of orientation»6, que é mesmo mais subtil do que a identificação do lugar: a localização espacial dentro de uma casa, um escritório, uma faculdade, uma sala de aula, apontam para questões identitárias, e vice-versa. As tais posições relativas que são importantes não só numa escala geográfica ao nível do mapa, mas também numa escala humana, da relação com os objectos que nos rodeiam, e a nossa posição particular em relação a eles.

Aliás, a minha convicção é a de que todos estes lugares são importantes na constituição da nossa identidade; grandes ou pequenos, passados, futuros ou presentes. Ser uma maritaca em Lisboa diz-nos alguma coisa sobre a ave particular em questão, e ser-se do norte, ou ter-se vivido no Brasil, é suposto ter deixado as suas marcas. Mesmo que não correspondam directamente ao preconceito que temos à partida daquilo que significam estas coisas (leia-se, a propósito da ideia prévia que temos de pessoas que ocupam determinadas posições, o texto de Lydia Davis «A Position at the University»).

Talvez não seja usado em vão, embora nos pareça à partida forte, o verbo escolhido para designar a proveniência: ser de um lugar. E esse lugar também somos nós, cada lugar é um conjunto de indivíduos – os que lá nasceram, e também os que de lá partiram, os que com ele sonham, os que sobre ele escrevem, os que o sobrevoam.

As cinco maritacas tropicais fazem parte da Avenida António Augusto Aguiar. E, para quem as souber ver, podem lá ser avistadas, em qualquer dia solarengo, junto à Confeitaria Imperial, grasnando ruidosamente por entre os quietos pombos cinzentos.

 
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Notas

1) No blogue, também ele influenciado por uma observação ornitológica, «Aqui há sabiá».

2) Na tradução de «Tristes Trópicos» das edições 70: «Cada homem traz consigo um mundo constituído por tudo o que viu e amou e no qual penetra a todo o instante ao mesmo tempo que percorre e parece habitar um mundo estranho.», p. 38.

3) «i carry your heart with me (i carry it in)», poema de e. e. cummings:

       i carry your heart with me (i carry it in
       my heart) i am never without it (anywhere
       i go you go, my dear; and whatever is done
       by only me is your doing, my darling)
                                                i fear
       no fate (for you are my fate, my sweet) i want
       no world (for beautiful you are my world, my true)
       and it’s you are whatever a moon has always meant
       and whatever a sun will always sing is you

4) Na tradução de Leonardo Fróes, ed. Cosac Naify: «Por muito tempo sonhei que minha mãe era negra. Inventei-me uma história, um passado, para escapar da realidade em meu retorno da África, neste país, nesta cidade onde eu não conhecia ninguém, onde me tornara um estrangeiro. Depois descobri, quando meu pai, na idade da aposentadoria, retornou para viver conosco na França, que o Africano era ele. Foi difícil admitir isso. Tive de voltar atrás, de recomeçar, de tentar compreender.»

5) Charles Taylor, Sources of the Self, ed. Harvard University Press, 1989, p. 28.

6) Idem.