“Minha querida, tens uma boa cabeça, só tens de aprender a usá-la.” Dizendo isto ele fazia-se Deus condescendente, nas alturas, pois o que na verdade me dizia era: “Recebeste uma vida, só tens de aprender a vivê-la.” Desta forma terminou o discurso directo que motivou a minha antecipação da viagem de regresso. Com estas palavras eu recuperara a clareza de visão, isto é, a minha prosa clara, coisa que ele em mim reconhecia: “A prosa é clara, minha querida, só tens de aprender a saber o que fazer com ela.” Posso não saber o que é Deus, mas aprendi que não pode ser um homem. Quando muito, o amor. Ou a história. De imperfeito a mais-que-perfeito vai sendo feito o passado, isto é, assim chego ao fim do início abrupto de uma história que quero contar – e que vou localizar em Roma, numa noite.

Mas não é assim que se começa. Ninguém tem tantas certezas antes de saber o que quer dizer. É que, além disso, estou a mentir: não foram aquelas palavras que determinaram a antecipação do meu regresso; eu lembrara-me delas já depois de ter decidido ir, enquanto esperava no aeroporto pela hora do check-in. Eu ia regressar porque teimosia não é o mesmo que resiliência. Isto é o mesmo que dizer que admiti ter errado. Mas não estou a ser clara. O que quero dizer é que, por muito que me tenha custado ver o erro e corrigi-lo, eu estava errada a respeito de um homem que durante anos me pareceu Deus, o amor e a história em que acreditei, por causa de quem viera para Roma – romanticamente! Por outro lado, estava certo fazer o que eu fiz, isto é, ninguém pode ter tantas certezas até ao momento em que percebe que o que fez afinal foi errar. Paciência! Quem comete um erro perde uma certeza mas fica com a esperança de conseguir não voltar a errar. É a vida! Mas será que um pouco de jovialidade não é areia para os olhos? Juvenilidade? Ou até, que diabo, um pouco de preguiça de espírito?

Voltando ao início, começo. Para começar devo dizer que aquela foi a minha primeira noite num aeroporto. Partindo às seis da manhã, e muito me tendo custado, como disse, ver e corrigir o erro, decidi esperar pela hora do voo no aeroporto. Eu não estava sozinha. Quer porque quem voa às seis da manhã pode escolher passar a noite no aeroporto, quer porque num aeroporto nunca se está sozinho, eu estava rodeada de pessoas. Havia solitários que se tinham precavido trazendo sacos-cama e almofadas para dormir no chão; havia quem não esperasse sozinho e usasse o outro como almofada, nos bancos; havia eu, que não conseguia dormir fora da cama. Vejo, porém, que repito ou minto. A verdade – o que nisto é novo – é que enquanto eu esperava sentada, na minha boa cabeça jovial vagueava o início de uma aria que não me largava havia meses: “Sei tu il mio viaggio all’orrizonte, / Il sole che abbraccia il mondo, / Poiché ci sei tu, ci sono anch’io.” As palavras daquela odisseia tinham-se tornado a justificação acidental da minha vinda para Roma, tal como as palavras dele podiam, se eu quisesse, justificar o meu regresso antecipado. Mas era tão simples quanto isto: ele não era Deus e eu tive de vir para Roma ver o erro. Naquele momento, sozinha num banco e rodeada de pessoas, eu comecei a olhar para elas. E assim se chega ao fim do princípio. Agora posso começar a falar sobre a dor.

Parece-me que tenho vivido a minha vida dividindo-a em períodos de espera e de movimento. Quando me movo espalho vida e sinto que nunca fiz senão fazer e desfazer malas de viagem. Enquanto espero, não me mexo; a minha imobilidade é estéril, sou uma morta sentada de olhos abertos, a olhar para dentro. Não consigo estar ao mesmo tempo à espera e em movimento. Eros ou Thanatos, dançar ou dormir, o transbordo ou o vazio. Quem não é igual a mim? Isto é tão familiar que não pode ser só meu. Quem não compreende? Mas isto é meu: a prosa clara não me deixa aprofundar, e com isso viajo à superfície. De alguma forma, o movimento é a forma activa de não pensar na morte, e a espera a passividade em que consiste a consciência dela. Eu sei o que é a dor, conheço-a e julgo reconhecê-la onde quer que vá. Sei ainda que um dia vou morrer e que um dia todas as pessoas que conheço e espero vir a conhecer deixarão de existir; sabendo isso, consigo comparar a dor delas com a minha, imaginar que a minha dor foi a delas, prever que a dor delas será a minha. Se não for por isso, eu não sei nada.

A minha senhora romana estava sentada de óculos escuros no banco em frente do meu, com o marido. Só que ela era portuguesa. Não interessa que fosse portuguesa; naquele momento, no aeroporto, esperando o voo, era uma senhora romana. Se eu não compreendesse a língua em que se dirigia ao marido, a mesma em que ele lhe respondia, ela não deixaria de ser uma senhora romana de óculos escuros, exibindo, ao tirá-los, que era minha companheira de dor – que ia um dia morrer, como eu, e que tinha chorado tanto que ao tirar os óculos escuros para enxugar os olhos com um lenço eu não vi dois olhos, mas dois vulcões activos. O facto de a lacrimosa senhora romana ser portuguesa só me fez ver a possibilidade de ela vir a ser também uma companheira de viagem. Teríamos assim em comum o facto de irmos ambas morrer, deixarmos Roma e regressarmos a Lisboa no voo das seis da manhã.

Era meia-noite; ao terminal 3 chegavam os últimos passageiros do último comboio que ligava Termini a Fiumicino. É sempre uma tristeza deixar Roma, mas ainda mais quando já se está triste. Ninguém conseguiria perceber que eu estava tão triste como a minha senhora romana; mas esta é uma suposição tão frágil como aquela que sustenta que se leia tristeza nas lágrimas de outra pessoa. É chegada então a altura de saber por que razão lhe tenho chamado senhora romana. É muito curioso, e vou tentar ser clara, a duas dimensões: ela tinha o cabelo, a pele, os lábios, as magníficas sobrancelhas, o porte e o vestuário de uma senhora romana. Como o arqueólogo de Gradiva que viaja para Pompeia no encalço de um sonho, eu via nela a personificação de uma figura que enchia as memoráveis medidas do meu imaginário. O facto de ela e o marido estarem vestidos de preto conduziu-me à conclusão de que aqueles olhos empolados, vulcões rosados numa planura de pele fina nutrida por bons cremes ou abençoada com boa genética, eram a marca de um luto. Ela perdera alguém, a notícia da morte viera ensombrar as férias do casal em Roma, e agora tinham de voltar; iriam do aeroporto para um funeral.

A minha senhora romana voltou a pôr os óculos escuros, enquanto o marido procurava algo nas malas de viagem: duas malas grandes com destino ao porão, duas pequenas para se arrumarem nos compartimentos em cima dos assentos do avião. Com os óculos postos eu não conseguia ver se os olhos dela estavam abertos, se pensava ou se tentava dormir. As mãos em repouso no colo, uma sobre a outra, lembravam-me eu nos períodos de espera, sem a esperança das viagens que sempre lhes sucedem. Haverá quem consiga esperar mexendo-se? Nós não éramos. Faltavam menos de cinco horas para o check-in, seria um bom jogo ficar no banco e ver quem se levantava primeiro...

Eu já decidira não me denunciar, isto é, não diria uma palavra para não estragar com palavras a senhora romana. É que, depois, se fossem simpáticos, eles iriam fazer perguntas e eu teria a maior das dificuldades em não contar a história da minha odisseia. A vantagem do que não se diz, e até do que não se vê, é o espaço que fica para ser preenchido com o que a vontade cria. Não fora assim que eu, antes de vir para Roma, de um homem fizera Deus? Portanto, ficaremos as duas paradas, uma em frente da outra, e eu não falarei com ela nem saberei se também olha para mim.

Os “silêncios desconfortáveis” são uma invenção de pessoas pouco imaginativas: nada melhor do que o silêncio para ver o que está à nossa frente. De óculos escuros, a minha senhora romana não parecia olhar para o marido, que continuava inquieto a abrir fechos de bolsas, mostrando a quem passava e a mim, ali parada, o conteúdo das malas. Ele lembrava-me eu nos períodos de movimento, sem temer a imobilidade que sempre lhes sucede. Estavam bem um para o outro, pensei, mas numa só pessoa não convém que existam duas. Era então aquilo que se ia passar ao longo das horas que nos distanciavam da partida? Nem um pouco de jovialidade para nos salvar de não se passar nada?

Mas o tempo foi assim passando. A melodia da aria em cujas palavras eu voltara a meditar quase me distraiu de ver que o marido da senhora romana parecia ter encontrado, numa das malas de porão, o que empenhadamente e há horas procurava. Depositando nas mãos da mulher o que se assemelhava a uma pequena embalagem de soro fisiológico, inclinando-lhe depois a cabeça para trás, ele ajudou-a a deitar sobre os olhos algumas gotas do líquido contido no recipiente. Os olhos dela fecharam-se para absorver o líquido. Dois fungos e um espirro: o marido limpou-lhe o nariz. O ritual amoroso originou um alívio de tal modo visível na expressão do belo rosto romano que ela nem precisava de ser portuguesa e pronunciar de olhos abertos: “o raio da alergia!” Vejo e corrijo o erro, levanto-me e vou embora. Meu querido, a prosa é clara para iluminar os limites de uma mente – para que possamos ver.