Posicionando-se por um liberalismo ortográfico, os editores da Forma de Vida não estão particularmente impressionados com a qualidade da discussão pública em torno do Acordo Ortográfico. Assim, decidimos pedir a algumas pessoas — contra, a favor e indiferentes — as suas opiniões sobre o Acordo. Reunimo-las de seguida. Escrevem neste simpósio Abel Barros Baptista, João Costa, Paulo Franchetti, Maria Filomena Molder, Gustavo Rubim, Miguel Tamen e José Maria Vieira Mendes.

 
 

Mazelas

Abel Barros Baptista

É uma coisa entre o escusado e o malogrado. Escusado, porque não há rigorosamente nenhuma necessidade de unificar ortografias (aliás, se se pôde aprender com toda esta movimentação foi que há mesmo razão, não direi para as apartar, mas para dispersar em cada uma o vínculo ortográfico). Malogrado, porque não unifica, antes cria diferenças novas, quase todas ridículas, corroendo-se ao ponto de prescindir de qualquer noção de ortografia.

Aflige por isso que tanta perturbação persista por causa duma coisa escusada, porque inconsequente, e malograda, porque incompetente. Mas outras mazelas afligem mais quando despontam na movimentação em torno do famigerado acordo. Uma delas, dir-se-ia a óbvia, é o modo como a discussão reactiva as noções vulgares de língua portuguesa, ou melhor, uma noção vulgar de língua portuguesa que, com ou sem recurso ao termo «identidade», pressupõe um laço natural entre nacionalidade e língua e acredita que o português europeu é a matriz de todas as outras variantes, que dele seriam derivações ou adulterações. O apego, sentimental ou político, à língua como património nacional, enternecedor que seja, produz mistificações e reactiva velhos sonhos.

É o caso de outra mazela, aliás, decerto menos óbvia: a ideia de que a língua une, tudo e todos os que a falam, sob uma homogeneidade fundamental e persistente. O pesadelo do acordo apenas se entende como versão ridícula dum certo delírio de omnipotência, que seria este: pela via legal, formulando e impondo a lei da ortografia, ganharíamos o poder de aniquilar a força diferenciadora da língua e assim lhe restabelecer o poder identitário. Sabe-se que isto galvaniza alguns espíritos, sabe-se que antes repugna a outros, e a discussão entre eles provavelmente permanecerá por muito tempo. Mas era escusado apoucá-la com a minúcia ortográfica.

 

O Acordo poderia ter duas linhas

João Costa

Para que fique bem clara a minha posição sobre o Acordo Ortográfico: percebo que este dispositivo interesse aos Ministérios dos Negócios Estrangeiros para dar uma imagem de cooperação entre os países de língua portuguesa. Se tivesse sido eu a escrevê-lo, teria a seguinte formulação:

Artigo único:
Reconheçam-se como válidas, em todos os países da CPLP, as normas ortográficas em vigor nos restantes países.

Esta formulação permitiria que o uso de qualquer variante ortográfica não pudesse ser penalizado ou considerado ilegítimo em qualquer país de língua oficial portuguesa ou em qualquer contexto de uso da língua.

Esta não foi a opção de quem negociou o Acordo Ortográfico, tendo sido preferida uma versão que tenta unificar a ortografia.

Quem me conhece sabe que não consegue arrancar de mim nenhuma posição inflamada a favor ou contra o Acordo Ortográfico. Sei que a ortografia é uma mera convenção, que nenhuma versão da nossa ortografia foi coerente entre transparência ou etimologia e que esta e outras versões de instrumentos de normalização ortográfica têm problemas técnicos já assinalados por vários. Não me parece que a versão 1990 seja pior ou melhor do que a versão 1945 —— basta pensar no uso do hífen. É apenas uma convenção — o facto de “hospital” se escrever com <h> em português e sem <h> em italiano não tem qualquer consequência.

Muito do debate em torno do Acordo Ortográfico rasa o absurdo e descreve as consequências da sua aplicação como algo próximo do Armagedão. Há dados que me fazem manter-me longe deste debate.

Sempre que sai uma notícia num jornal sobre o Acordo Ortográfico, surgem centenas de comentários de leitores que, horrorizados, listam os horrores do Acordo Ortográfico em mensagens pejadas de erros ortográficos.

Ouvia, há tempos, alguém que tinha escrito “nada a opôr [sic]” vociferando que não retirava o acento circunflexo, porque se recusa a escrever com o Acordo Ortográfico, que sempre escreveu assim e não vai mudar!

O mesmo, tal e qual, ouvi de alguém que, num programa de rádio, dizia: “não é por causa dos brasileiros que vou tirar a cedilha de vocês”!

A obsessão com a ortografia e tudo o que se diz sobre o seu impacto no mundo é a consequência de uma escolarização em que as produções escritas são, tradicionalmente, corrigidas em função de desempenhos temáticos e ortográficos. Coesão e coerência, conformidade com sequências textuais ou explicitação de regras de pontuação são dimensões da escrita a que a escola nunca prestou a devida atenção, que justificam muitos problemas de escrita (e leitura) e que explicam que se dê tanta importância à ortografia.

Tratando-se apenas de uma convenção, a ortografia não gera penalizações. Se eu escrever a minha lista de compras para o supermercado com inúmeros erros, ninguém saberá e, mesmo que saiba, nada acontece. Só no sistema educativo é que há penalização do erro e é interessante verificar que a introdução do Acordo Ortográfico no sistema educativo se deu sem problemas.

Se é verdade que a ortografia é uma mera convenção e que quem redigiu o Acordo visou uma unificação da ortografia, também é verdade que qualquer pessoa minimamente informada sobre as variantes do português deveria saber que as diferenças fundamentais entre o português usado em Portugal, no Brasil, Angola, Moçambique não estão na ortografia. Tente-se escrever um texto em conjunto com um colega brasileiro e veja-se como se tropeça em cada linha. Há um evidente desconhecimento da língua portuguesa na génese de algumas decisões políticas, o que é confrangedor.

Passados vinte anos sobre a criação deste Acordo, não são ainda evidentes os passos claros que a CPLP está a dar para uma eficiente política de língua. Para dar apenas um exemplo, ainda não se vislumbra uma política comum sobre o ensino de português no estrangeiro.

Dito tudo isto, alguns amigos que conhecem esta minha posição (ou ausência de posição), perguntam-me se uso ou não o Acordo Ortográfico. Comecei a usar no dia em que li um arrazoado de argumentos nacionalistas e de comentários racistas sobre os restantes países da CPLP a propósito do Acordo Ortográfico. Pensei que não queria ser identificado com aquele tipo de argumentação e nesse mesmo dia passei a utilizar, sem grande dificuldade, a nova convenção ortográfica (nunca senti aquela insegurança de que alguns falam, dizendo “Agora não sei como se escreve”).

Passados alguns meses, participei numa reunião em que, em defesa do Acordo Ortográfico, ouvi um eminente académico tecer comentários absolutamente nacionalistas e a rasar o racismo... Fiquei sem saber o que fazer e, pela primeira vez, me deparei com a hesitação de não saber como escrever.

Cresce em mim a vontade de reagir de forma adolescente e não usar o Acordo quando escrevo àqueles que o defendem ferozmente e usar quando escrevo aos que são violentamente contra. Mas, por vezes, tenho de escrever a ambos e, nessa altura, penso: isto é apenas uma convenção, para quê gastar tempo a pensar no assunto?

Se se tivessem ficado pelas minhas duas linhas, ter-se-ia poupado muito tempo...

PS: Ao reler o texto, apercebo-me de que, por vezes, o Acordo Ortográfico não tem mesmo importância nenhuma na forma como se escreve. E garanto que não foi intencional.
 

O acordo não serve para nada, exceto para criar confusão

Paulo Franchetti

Talvez a pergunta melhor não fosse essa, mas sim a quem serve o AO, para ter sido implementado como foi.

Mas me ocorrem algumas possibilidades de resposta:

  1. No Brasil, serve para mais uma vez demonstrar a inutilidade e a desqualificação cultural e científica dessa instituição anacrônica, caricata de si mesma, que se chama Academia Brasileira de Letras;
  2. Em Portugal, para mostrar a dupla face do pós-colonialismo: de um lado, os rugidos xenófobos e nostálgicos do período imperial de alguns revoltados contra o AO; de outro, a subserviência institucional aos interesses econômicos do e no Brasil (e desconfio que, se eu não fosse um homem de letras, mas um executivo de editora portuguesa ou espanhola, talvez ficasse muito tentado a trabalhar, às claras ou encobertamente, pela aprovação do acordo em Portugal);
  3. No Brasil, serve para mostrar como a indústria editorial, nacional ou multinacional, especialmente a que publica livros escolares e de referência — os mais beneficiados aqui com o parto doloroso desse aleijão — , tem aumentado seu poder econômico e cooptado intelectuais e políticos em postos de decisão;
  4. Em Portugal, serve também para tornar patente o desconhecimento de como funciona o Brasil e da nenhuma importância que aqui se atribui ao pequeno mercado português ou à manutenção de vínculos culturais com a antiga metrópole — pois a implantação do AO no Brasil parece servir a interesses exclusivamente brasileiros, tendo Portugal nessa história apenas função e uso, restrito, como argumento, perdendo mesmo nisso para alguma cobiça pelo também hoje pequeno mercado africano;
  5. Ainda no Brasil, para mostrar como — apesar de tudo, inclusive da irresponsabilidade do governo em decretar açodadamente  desde há alguns anos que só podem ser utilizados nas escolas livros com a nova ortografia — a sociedade civil ainda tem algum poder de influência, revelado na “suspensão” do acordo, para estudos, a meio caminho; medida que, diga-se a bem da verdade, parece tão absurda neste momento quanto o decreto de sua implementação;
  6. Nos dois países, para mostrar como a língua é tratada sem critério e sem respeito, justamente pelos que deveriam zelar por ela;
  7. Nos dois países, ainda, para evidenciar que a lusofonia, as proclamações, os jantares, as viagens subsidiadas, os acordos anódinos e ineficazes e todo o arsenal discursivo da integração cultural pode nunca frutificar, mas ser muito produtivo como argumento a justificar uma ação inconsequente, seja do ponto de vista científico, seja do ponto de vista cultural;
  8. Em resumo: o acordo não serve para nada, exceto para criar confusão, para afirmar a inépcia linguística de seus autores, para favorecer os vendedores de livros didáticos e de livretos e cursos sobre a “nova ortografia”, e — claro — para aumentar o gasto das famílias e dos governos com aquisição de livros didáticos e obras de referência de uso nas escolas.
 

O hábito faz o monge

Maria Filomena Molder

Acordos parecem à partida boas coisas e costumam ser associados a coisas boas, concórdia, aprovação, consonância e até unissonância. Eu gostaria de gostar do Acordo Ortográfico.

Mas cada caso é um caso: o hábito não faz o monge — forma medieval de falar das aparências — ou como diria Wittgenstein, para percebermos o significado de uma palavra não basta ir ao dicionário, é preciso pôr à vista os seus usos.  

Só que no caso de acordos firmados entre dois Estados, como o AO, o uso da palavra acordo é inseparável do texto que se chama Acordo Ortográfico. Quem o foi ler descobre estupefacto que o hábito faz o monge e na prática, no uso que desse acordo se faz, o reino do hábito conhece uma verdadeira apoteose: os defensores do acordo ortográfico tentam provar que o acordo ortográfico é um acordo porque se chama acordo, foi concebido como acordo, votado como acordo, assinado como acordo e posto em prática como acordo. Nunca um hábito ficou mais usado, e quanto mais usado mais parece ganhar imunidade contra a sentença medieval, quer dizer, para além do hábito este monge não faz nada para ser monge, deixou cair a identidade, o pôr-se à prova, o cair em si.

Que os deuses cegam aqueles a quem querem perder (pelo menos desde os Gregos que esta cegueira é conhecida entre os homens) é uma forma suprema da humorística bondade dos deuses para connosco. Mas noutras tradições (desculpem mas não encontro a fonte: uma coisa é certa não fui eu que descobri isto!), há quem diga que perdido está o homem que consegue realizar um sonho.

Não é preciso ir muito longe, basta comparar o Acordo Ortográfico com o Quinto Império de Pde António Vieira. Não, não pensem que o vou fazer, mas houve quem o fizesse, apertando as mãos — e lavando-as respectivamente mesmo que não o soubessem — no  momento em que definitivamente o monge e o hábito ficaram agarradinhos um ao outro, isto é, no momento em que o Acordo Ortográfico foi selado como Acordo Internacional, aqui bi-lateral entre Portugal e o Brasil, mas jurando aplicar a nova sentença a tudo o que mexesse em português.

O que estava em vista com aquela comparação que fica por fazer, é que com o Acordo Ortográfico houve um grande sonho que se viu realizado, a saber, finalmente o português de Portugal e o português do Brasil já eram indiscerníveis, só haveria daqui para a frente uma norma internacionalmente reconhecida (quando existem, por exemplo, meia dúzia de normas para o alemão, dezassete para o inglês, quinze para o francês ou vinte para o espanhol). Apre! O AO tinha conseguido qualquer coisa que Nemroth não teria ousado sonhar. 

Mas, desprevenidamente e parte da sua ameaça própria, a realização do sonho arrastou consigo a impossibilidade de o cumprir. Vejamos. Se alguém se encontrar em Bruxelas, como participante nas comissões de cultura em representação do Instituto Camões e no fim lhe perguntarem: ‘Isto agora é redigido na ortografia portuguesa única (de Portugal e do Brasil), mas entre ‘facto’ e ‘fato’ ou entre ‘secção’ e ‘seção’, como é que se vai escolher?’. O que é que responderia essa pessoa? *

Segundo alguns — que temo nunca tenham lido a sua Nota Explicativa —, este Acordo Ortográfico é muito bom, estavam há que tempos à espera dele, cansadíssimos de escreverem letras que não se ouvem. 

Aqui, neste ponto não quiseram saber de um outro hábito (tão estudado por tantos monges filósofos, e cuja acme se encontra no pensamento escolástico), que não veste o monge. Trata-se do tesouro que se acumula desde a infância enquanto se ouve soletrar as palavras e se fica a fazer parte de um dos segredos mais instantes da vida dos homens, e que apenas por ensino se comunica, isto é, aprender a ler e escrever, o que não nunca foi não é nem poderá ser equivalente ao falar (e isto mesmo nas normas como a italiana que tão perto estão da maneira como se fala). Deste hábito o pérfido monge inventariou sem dó nem piedade, com o corretor — um dos mais cómicos efeitos da sanha acordista — em riste, tudo o que tendo sido aprendido teria de ser desaprendido. Como seu hábito, o monge adoptou o “critério da pronúncia”.  A confusão babélica não nasceu de um critério melhor. 

Em 1986, Sophia de Mello Breyner escreveu que ação parecia o nome de um pássaro. Coisas de poeta comentou-se (mesmo entre os desfavoráveis ao AO, cuja discussão pública era acesa, e o repúdio se mostrava em larguíssima escala). Mas, na verdade, olhando para ação, percebe-se que está prestes a levantar voo, que o c que lhe foi tirado o arranca do chão, tornando irreconhecível a sua pertença à Terra.  Coisas que o poeta nos deixa ver.

* Numa das passagens de um artigo publicado no Jornal I de 28 de Março de 2013, intitulado “Acordo Ortográfico. Há ou não vantagens para a relação de Portugal com os PALOP?” da autoria de Diogo Pombo, pode ler-se o seguinte: “Fernando Cristóvão é outra das vozes defensoras do acordo. O professor catedrático de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foi um dos linguistas que, na década de 80 do século passado, negociou com o Brasil as condições do AO. E desse tempo recorda um exemplo para explicar a sua defesa do acordo. “Em Bruxelas, quando participava nas comissões de cultura [presidiu, entre 1984 e 1989, ao Instituto da Cultura Portuguesa, actual Instituto Camões], perguntavam-me no fim: ‘Isto agora é redigido na ortografia português ou brasileira?’. Eu dizia que era em português, pois estávamos na União Europeia. Mas respondiam-me que estavam mais interessados no Brasil e em África”, contou.
 

O Acordo é um passo na direção de um ensino mais verdadeiro do que é hoje o Português

Gustavo Rubim

Concedendo que este é um assunto menor, deve reconhecer-se que alguma coisa foi ferida (ao menos em Portugal) pela simples ideia de fazer um Acordo como o que volta a estar em discussão. Na verdade, a maior parte das pessoas que se pronuncia sistematicamente contra o Acordo Ortográfico não faz a menor ideia do que nele está estabelecido e toda a espécie de fantasias foram formuladas como causas de recusa que a nada correspondem nas cláusulas do Acordo. Em Portugal, o debate sobre o Acordo Ortográfico só numa percentagem residual foi um debate intelectual: na maioria, foi uma querela pública e, em regra, tem sido uma ocasião penosa para se atestar (sem margem para dúvida) o estado miserável da informação cultural e linguística daquilo a que se possa chamar uma “opinião pública portuguesa”. Que muitos professores (e não poucos de Português) surjam a subscrever textos execráveis de todos os pontos de vista, começando logo no da correção linguística, a exigir intervenção legislativa contra o Acordo Ortográfico — essa constatação só agrava a perceção que se pode ter do baixíssimo nível em que se passou boa parte desta discussão. Os textos estão aí, arquivados, e o arquivo será a melhor prova do chauvinismo, da ignorância e do oportunismo que determinou essa reação que entretanto outros, mais deliberados, não se importaram de manipular.

O Acordo acordou um fantasma histórico: o da sujeição de Portugal ao Brasil. Quase ninguém defendeu maior aproximação ao Brasil e não foi por um senso agudo da óbvia insuficiência da ortografia para esse efeito. Foi, antes, porque o “excesso de identidade” que Eduardo Lourenço diagnosticou à cultura portuguesa atual (e é o melhor diagnóstico sobre ela produzido, desde a célebre tese de Pessoa sobre o provincianismo mental) teve aqui um ensejo raro para exibir todo o seu triste esplendor. Nada atesta melhor o raso sentido político da parte maior da opinião culta portuguesa do que a descoberta exaltada de malévolos cálculos políticos brasileiros num Acordo que, no entanto, era também objeto de discussão e contestação no Brasil (e frequentemente por motivos similares, capazes de atribuir à supressão do trema a adulteração da própria linguiça). Ou antes: nada atestava, até que há poucos dias António Guerreiro ultrapassou todos os cúmulos ao integrar a legislação ortográfica nas maldades da “biopolítica” e identificar na histeria anti-Acordo uma epifania da abstrata “arquiescrita” teorizada por Jacques Derrida (cf. suplemento Ípsilon de 29 de Março, p. 30). Já só faltava ao delírio este detalhe requintado: os que reivindicam que não lhes toquem na preciosa língua (de que se imaginam condóminos) serem todos camaradas numa espécie de desconstrução coletiva!

Em Portugal, parece que ninguém consegue demonizar o Brasil sem reproduzir uma tosca caricatura do carnaval. Entretanto, sem prejuízo das emendas com que o Acordo realmente ganharia, foram saindo livros no Brasil e em Portugal que adotam as regras introduzidas pelo Acordo, para não falar nos jornais que foram fazendo a mesma opção. Que aconteceu a esses livros, alguns até de poesia? Arruinaram os versos editados? Tornaram-se ininteligíveis de um dia para o outro? Prestaram inconfessáveis serviços a crapulosos interesses e poderes económicos? Instalaram o caos nas escolas, nas bibliotecas e na mente do pobre leitor?

 Era interessante e até expectável que os opositores da nova ortografia viessem pegar nesses livros e desmantelá-los a golpes de camartelo linguístico, provando o nefasto impacto ambiental da queda das consoantes mudas ou da escrita dos meses com letra pequena. Pois nada. Saíram as quatrocentas e trinta páginas da Poesia Traduzida de Carlos Drummond de Andrade (Cosac Naify e Viveiros de Castro Editora, São Paulo, 2011) e nem um deles aproveitou para malhar num “veem” que traduz um delicado “miran” de Pedro Salinas. Também saíram os Temperamentos Filosóficos, de Peter Sloterdijk (Edições 70, Lisboa, 2012), e não veio sequer um filósofo veterográfico — com perdão do neologismo — demonstrar que o capítulo sobre Kant ficou manchado ao escrever-se que na “ação livre” o indivíduo “agia corretamente por mero respeito da lei moral” (e escuso de agregar que os grifos são meus). Sinceramente, isto dececiona, porque afinal abrem-se esses livros — visto não haver paciência para abrir o Expresso e francamente não é por causa da ortografia — e mal se resiste a perguntar: tanto barulho, porquê?

Já nem apetece comentar o mal que se recebeu um Acordo que tolera mais de uma grafia para a mesma palavra. Isto é, que não uniformiza onde pretendia até unificar. Que se possa não penalizar alunos (ou orientandos, ou colegas ou funcionários ou pessoas em geral) por escreverem “percepção” em vez de “perceção” ou “concetual” em vez de “conceptual”, eis o que pelos vistos não alegrou a alma nacional. Já se sentia que o desejo de Estado, a ânsia de regra única ditada pelo Estado atravessava a medula de muita gente: agora ficámos cientes de não ser menos intensa nos nervos de vários poetas. 

A hipocrisia suprema gerada na reação ao Acordo foi o argumento da preservação da diversidade do Português escrito, quando na verdade se quer defender a conservação de fronteiras rígidas. É justamente por não ser na ortografia que se decide a efetiva diversidade existente, que propor uma aproximação ortográfica é alargar a consciência da língua marcando como ela não é nacional. A isto, respondeu-se acentuando o estrangeirismo da língua falada e escrita no Brasil ou em Moçambique, como se os livros de Guimarães Rosa nos afetassem tanto ou tão pouco como os de qualquer poeta mongol.

Manter esse discreto apartheid linguístico em que não nos queremos misturar com o Português falado fora da Europa é coerente com querer manter um sistema de escolaridade que, ao fim de doze anos de aulas obrigatórias de Português, assegura que os alunos saem sem a mais leve noção de quem seja Machado de Assis. Quem não se importa que assim seja irá naturalmente erguer a voz contra um Acordo (ortográfico ou não) que assuma o que significa o nome de Machado de Assis neste contexto: que há na história da língua portuguesa um destino brasileiro, como há também um destino africano (ou vários) e um destino timorense. Ao apoiar a reforma ortográfica, em geral, nunca ignorei que estava a tomar uma posição política, essencialmente a mesma que tomo quando combato a filosofia (nacionalista) do ensino oficial do Português em Portugal. É preciso não esquecer que a língua, como a ortografia, ensina-se e, nas condições atuais, subsiste na medida em que se ensinar. Ora, por princípio, não acho bem que se ensine uma língua falsa ou estropiada das suas variações historicamente significativas. O Acordo é um passo na direção de um ensino mais verdadeiro do que é hoje o Português. Para mim, este é um assunto político no sentido mais forte da palavra, inconfundível com folclores lusofonistas de esquerda ou de direita que servem por aí diversas conveniências. E para quem pensa deste jeito, o Acordo não é uma decisão política absurda e arbitrariamente aplicada à língua portuguesa: é o efeito de um problema real de política da língua que não começa nem acaba na ortografia.

 

Leis não devem substituir-se a hábitos inofensivos

Miguel Tamen

As pessoas que chamam à sua língua português (nem todas chamando à língua dos outros a mesma coisa) escrevem, quando escrevem, de maneiras diferentes. Também falam de maneiras diferentes e em qualquer caso dizem coisas diferentes. Às vezes percebem-se umas às outras, e outras não. Quando não se percebem, queixam-se de muitas coisas diferentes: da pronúncia, da sintaxe, da ortografia ou da estupidez dos seus interlocutores. Têm também abundantes maneiras de resolver as suas queixas, que vão das mais práticas (e.g. perguntar a quem fez certos barulhos o que quis dizer, corrigir mentalmente barulhos que não fazem sentido) às mais caras (e.g. perguntar a um tribunal aquilo que quem fez certos barulhos quis dizer).

Uma certa pronúncia, sintaxe ou um nível moderado de obtusidade não são por si necessários ou suficientes para perceber quem quer que seja. Inversamente, posso dizer que quando não percebo uma pessoa (chamemos-lhe por razões simbólicas Professor Malaca Casteleiro) uma transcrição ortográfica diferente daquilo que diz, uma reinterpretação daquilo que diz noutra pronúncia, ou uma neuro-operação que altere os níveis de obtusidade (chamemos-lhe por razões simbólicas operação Professor Carlos Reis) não melhoram em nada a minha compreensão. Em ambos os casos a experiência é comparável a ler um romance de José Luís Peixoto num livro de capa azul e num livro de capa amarela e já agora em qualquer ortografia: temos sempre a mesma vontade de rir, e nunca se percebe bem.

Mudar a ortografia é parecido com mudar a capa de um livro. Não torna um livro bom num livro mau. Não diminui a natureza fatal dos disparates humanos. A única coisa que faz é contrariar hábitos que não prejudicam ninguém e que, tendo embora uma histórica pitoresca e acidentada, nos chegaram como segunda natureza. Ora a meu ver as leis não devem substituir-se a hábitos inofensivos. A ambição de querer estabelecer a perspicuidade entre falantes de português por via legislativa é por isso insensata: mais valia gastar o dinheiro a diminuir o número de juristas em Portugal, a aumentar o número de tribunais em Angola, e a mandar frigoríficos para a Guiné-Bissau.

 

Sou pela confusão ortográfica

José Maria Vieira Mendes

Para que serve aos outros, não sei. A mim tem-me servido para brincar aos carateres. Tirar um e pôr outro conforme a disposição do dia. Recuso porém, com isto, ser representante de um dos lados de uma batalha que me desinteressa. Desinteressa-me a lusofonia, desinteressa-me a conservação da língua, desinteressa-me o bem da poesia e a sagração do sagrado e a uniformização da comunidade e a normatização da escrita e o entendimento mútuo e o nosso passado. Para passado prefiro o meu que não é só meu mas que é cá dos meus. Nesta discussão não sou pois a favor nem contra, porque sou pela confusão ortográfica, contra a norma. E agora posso. Foi a instauração do caos que me levou a querer há de sem hífen. Foi quando percebi que as novas grafias do acordo se contradiziam entre elas e eram hesitantes e pouco claras e violentamente atacadas e disparatadas e até agradáveis e que abriam portas à disposição do escritor que me dediquei a esta nova escrita. Que por mim podia ser mais caótica (não percebo porque não caem alguns tiles — nao, visao, ilusao... — para quando estou em teclado estrangeiro), mas que, enfim, me dá a diversão de, acrescentando um caracter, escrever no mesmo texto a mesma palavra de dois modos, obrigando o leitor a variar a dicção. E a perguntar-se: será mesmo a mesma? Apenas lamento (e a culpa não é do acordo, é minha) não ter ainda sido capaz de abdicar do acento em “pára”. Se o fosse, abriria a possibilidade de misturar um movimento com destino e finalidade com uma imobilidade sem fim à vista. Ou seja, promover um vocábulo paradoxal, tão em linha com o pensamento contemporâneo. Talvez nunca lá chegue. A contemporaneidade foge-me. Como os dias. É o acordo ontológico. Ainda para mais há quem diga que tudo isto é provisório. (Então há que aproveitar, respondo eu.) E que daqui a um ano poderemos estar a escrever com outras letras. (Quem me dera, digo eu. Canso-me depressa da novidade.) Sou incapaz de discutir.