Em «As Novas Humanidades» os Editores da revista The Point retomam a controvérsia entre o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker e o (até muito recentemente) editor literário da revista New Republic Leon Wieseltier. O choque de pontos de vista entre Pinker e Wieseltier é uma manifestação particularmente expressiva; é mais difícil dizer o que se manifesta. Tratar-se-á de uma batalha em torno de fronteiras disciplinares, em particular das fronteiras das humanidades? Tratar-se-á, mais uma vez, de choque de culturas? Estaremos perante pessoas que digladiam modelos ilusórios de humanidades e de ciência, passando ao lado de alterações muito reais na universidade e na cultura em geral? Tudo isto se cruza no Editorial. O pretexto imediato para a reacção de Wieseltier é a forma como Pinker, pleno de boa consciência (admitamos), defende a relevância da ciência para uma educação humanística (ou, segundo Wieseltier, a invasão das humanidades pela ciência). Wieseltier seria assim a voz indignada das humanidades que vêem o seu espaço violado – por exemplo por autores bem sucedidos de pop science como Pinker. Mas como podem as humanidades reclamar se são elas mesmas (pelos menos nos EUA) a abrir os braços ao ‘cientismo’ e à ‘neuromania’? O diagnóstico deste estado cientista e neurómano das Humanidades nos EUA é o ponto fulcral do Editorial. Os exemplos chegam a ser divertidos, como o de estudantes cuja actividade cerebral é registada em aparelhos de imagem por ressonância magnética enquanto lêem Mansfield Park. Podem ser divertidos mas são absolutamente reais, e de qualquer forma a verdade é que visão das Humanidades em nome da qual Wieseltier reage a Pinker – a ‘compreensão da interioridade humana pelo contacto com obras’ – está muito distante dos factos e do espírito dos curricula. Wieseltier acena com Proust e Tolstoi, como se fosse isso que se faz nos estudos literários nos EUA e o ponto dos Editores é que não é. Deixou de ser. O que aconteceu entretanto? Aconteceu que, para além do cientismo e neuromania, os estudos de humanidades se abriram aos estudos de género, aos gay studies, etc. Ora se essas são as opções com que o potencial estudante de humanidades se depara, até poderíamos simpatizar com Pinker. Por exemplo o livro de Pinker sobre violência a que se alude no início do Editorial (The Better Angels of Our Nature – Why violence has declined, o tal doorstop de 800 e muitas páginas) pode ser filosoficamente ingénuo 1 , mas tem por trás questões reais e trabalho científico em curso (não necessariamente do próprio Pinker) sobre a história dos animais humanos e a violência. Vamos imaginar que somos um jovem estudante americano, ou visitante nos EUA, escolhendo os cursos em que se vai inscrever – não poderíamos considerar a atenção a um tal tópico intelectualmente mais produtiva do que o ‘engajamento’ à força na batalha pela political correctness que transformou a face das humanidades na academia americana?

Desde logo, interesse pela ciência é diferente de cientismo e neuromania. Essa é uma diferença delicada, o que tem um reflexo directo na filosofia académica, por exemplo na filosofia analítica na Europa e em Portugal. O cientismo e a neuromania que preocupam os editores da The Point não são aí desconhecidos. Na verdade correspondem a uma certo enviesamento na recepção europeia da filosofia americana. Quando a filosofia americana da mente e da cognição entrou em força no panorama europeu há umas décadas atrás (a partir dos anos 80, digamos), ela erguia-se contra uma certa falta de relevância intelectual real (nomeadamente para alguns filósofos franceses 2 ), da filosofia historicista e literária dominante, de tradição francesa. Nem tudo, no entanto, foi positivo nesse passo de aproximação da filosofia europeia à filosofia americana: o cientismo e a neuromania de que os editores da The Point se queixam chegaram à filosofia europeia (também) por essa via, e traduziram-se em fazer filosofia como se fosse uma certa espécie de ciência, professando desprezo pela cultura, artes e literatura. Estes seriam os aliados do ‘outro lado’, o lado obscurantista, gaulês, ‘literário’. Ora esta forma de ver as coisas é no mínimo preconceituosa (nomeadamente relativamente à filosofia americana que actualmente se faz).

Mas será realmente esse o problema? Será que o problema é a existência de um espaço não ocupado quando uma certa forma de praticar as humanidades recua, o espaço para o qual alguém como Pinker pode avançar?

Talvez seja em parte. Mas o problema é certamente também o da transformação do lugar e do papel social e económico das universidades (o filósofo Robert Pippin retrata no seu comentário ao Editorial a situação americana, que se traduz, nomeadamente, neste momento, na enorme descida do número de estudantes de humanidades) 3 . Podemos acreditar que as humanidades são muito importantes para a educação global do indivíduo; podemos querer aplicar tal ideia à universidade, sugerindo que, esteja esse indivíduo a estudar Matemática, Medicina, Economia ou Design o seu curriculum tenha um componente de humanidades. Essa é simplesmente uma óptima ideia, que as universidades americanas aliás praticaram, na segunda metade do século xx, muito melhor do que as europeias. Mas a ideia segundo a qual o resultado de uma educação universitária é algo de valioso para o indivíduo ele próprio, e como tal um fim em si, é algo que há muito tempo as universidades massificadas, abafadas por agruras económicas, na Europa e nos EUA, deixaram de ter em consideração. É um ideal de outros tempos. Será que alguma universidade está neste momento interessada em tal ideal, ou o vê como a sua ‘missão’, para falar o linguajar tecnocrático? Não creio, por mais que uma ou duas frases bem intencionadas acerca de cultura e artes apareçam usualmente nas auto-descrições oficiais das instituições universitárias. A verdade é que as universidades se veêm hoje sobretudo como propiciadoras profissionais, formadoras de mão-de-obra qualificada para o mercado de trabalho; é em grande medida isso que os seus ‘clientes’ delas solicitam e delas esperam, é assim que o poder politico as vê. Talvez até seja mais assim em Portugal do que nos EUA. Esse é o mais grave problema a partir de dentro da universidade como instituição, e ele não é função da ‘crise de identidade’ das humanidades. É claro, no entanto, que o lugar natural das humanidades e das artes na educação de cada indivíduo fica impossibilitado, ou anulado, numa concepção profissionalizante ou tecnocrática de universidade.

Talvez o ideal da educação global do indivíduo seja então algo que apenas pode continuar a existir fora das universidades. A vida intelectual continua e as humanidades estão lá. Os Editores da The Point têm confiança na identidade dos estudos literários – é a partir desse ponto de vista que falam. Trata-se de participar na conversa acerca do que significa ser humano, dizem (embora, como notam ironicamente, um percurso académico pelos estudos literários possa neste momento parecer impedir tal). Talvez os Editores sejam invulgares; talvez essa confiança esteja a faltar aos estudos literários académicos pelo mundo fora neste momento. Os Editores confiam ainda numa outra coisa: pensam que o assunto das humanidades excede a academia. Estes dois pontos de confiança são importantes (pessoalmente partilho-os). Mas a verdade é que nada obriga a ligá-los à universidade.

Termino com uma queixa de Pinker que me parece sintomática. Ele queixa-se da falta de um agenda progressista por parte das humanidades na academia (um livro como o seu encontraria assim o seu lugar). Fica-se com vontade de citar a epígrafe (de J. Nestroy) que Wittgenstein escolheu para as Investigações Filosóficas: «Überhaupt hat der Fortschritt das an sich, dass er viel grosser ausschaut, als er wirklich ist» (O progresso parece maior do que realmente é). Noutras palavras, é preciso contrapôr à queixa de Pinker algumas perguntas: ‘Progresso’? O que significa? Quem nos diz? Quem fala disso?

 
 

 

NOTAS

1) Esta foi a acusação de muitos. Mas o livro não deixou, sublinhe-se, de ser louvado por filósofos, por exemplo Peter Singer (cf. New York Times, Sunday Book Review, 6 de Outubro, 2011).

2) Estou a pensar no processo que deu origem à fundação do Institut Jean Nicod em Paris, em 2000.

3) Esta ‘explicação económica’ da crise das humanidades (em termos de numero de estudantes) parece-me uma especificidades dos EUA, ligada ao altíssimo valor das propinas universitárias. Em Portugal, antes da situação negra actual, que tocou todas as disciplinas do espectro, as humanidades não estavam particularmente sub-financiadas. Pelo contrário, tinham apanhado o barco da ‘investigação institucional’ em muito boa posição.

 
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