Experimentem lá falar de doenças a ver se não começam todos a fugir cada um para seu lado. Acabareis sozinhos! Falar de doenças, excepto entre médicos em ambiente médico, é socialmente mal visto. Culturalmente, então, nem se fala! Pior do que aparecer embriagado, em desalinho, num evento sóbrio. Falar de doenças é, em si mesmo, doentio. Não conheceis o doente que vos põe por ordem tudo o que sofreu, o dia e a hora da consulta, o que disse o médico, o que ele disse ao médico, a expressão do médico, “não quero assustá-lo, mas”, onde era a dor, se cresceu, se atenuou, se migrou, perspectivas de futuro, de modo que o ouvinte só quer escapar, ou, em sendo impossível,  mudar de conversa? Mas eu quero lá saber.

Eis algumas das doenças pelas quais somos responsabilizados: doenças dos nervos (excepto nervo ciático, óptico, etc.), depressão, anorexia, gastrite, cirrose (só para quem bebe álcool), sida (válido para homossexuais masculinos, não para hemofílicos, embora para quem não saiba, seja tudo a mesma coisa). Eis algumas das doenças pelas quais não podemos ser responsabilizados: pé boto, palato fendido, joelho de água — a não ser como resultado de desastre de um desastrado — tiroidite dentro do limite, nefrite, tuberculose em alguns casos, pneumonia — apenas no caso de não se poder enraizar numa atitude demasiado descontraída em relação à gripe. Alguns cancros de casuística algo emotiva. A trombose e a tromboflebite vêm com uma responsabilidade partilhada entre a vítima que não fez o exercício preventivo, comeu febras em vez de nabos, e o sacana do trombo. A “constipação mal curada” que degenera em qualquer coisa de maléfico é sempre da responsabilidade do constipado. Uma pessoa que sofre de gastrite é uma neurótica, logo uma “infeliz!”, uma pessoa que sofre de reumatismo é uma “coitada!”. Um não-fumador com cancro de pulmão é um “coitado!”. Um fumador com cancro de pulmão é culpado. (“Bem feito!”). Tal como o sifilítico, e todo o que contrai doença venérea. Excepto a mulher do sifilítico, coitada, uma infeliz. Quem se diverte e apanha uma doença, é toma lá que é para aprenderes. Em geral, e mesmo sabendo racionalmente que nem sempre assim é, a doença mental é da responsabilidade do doente. A não ser que se possa ancorar na realidade objectiva de um tumor ou de um desequilíbrio hormonal (ufa, são as supra-renais!). Da esquizofrenia à demência, há feitios, há personalidades, há manias; se o doente não procura tratamento, é porque não quer mudar; se procura tratamento e ele não resulta, é porque o doente é um estupor e não há droga que o acalme. Como os toxicodependentes, já agora. Há doenças que fazem parte da biografia (pedra na vesícula, sinusite, alergia à penicilina) mas não são propriamente biográficas; outras, aparentemente, são de tal forma biográficas que comprometem a vida, logo a escrita (dermatite herpetiforme anal de Marat, que escrevia no banho, obstipação de Kafka, hemorróidas de Rousseau). Conhecida a ligação da escrita ao sistema digestivo. Ora, meus amigos, Kafka escrevia como um obstipado, olhem-me aquela relação entupida com o pai, e Marat morreu de um efeito colateral da dermatite, no banho em que, estando a tratar-se com umas plantas curativas, foi assassinado. Bem pouco terapêutico, o tal banho. Chamem-lhe ironia do destino, que o destino sente-se lisonjeado. Para os mais radicais dos naturistas, toda a doença é, em última instância, assacável ao doente. Enquanto ele não conseguir afinar a sua harmonia com a Natureza, bem pode penar. Definir “Natureza” é que é o diabo. É vasta, a Natureza, vaga, e vasto e vago o seu conceito. Tanto refere constelações que interferem no nosso eu do dia-a-dia, como seguir a paleo-dieta, destilar toda a sorte de ervas com propriedades carminativas, cumprir todas as posições do ioga. A Natureza é de uma exigência atroz, o que acaba por tornar a harmonia volátil e contingente. Coisa de segundos. Agora, harmonia, uns segundos depois, chá de hortelã para a restaurar. Argila verde alinhada com Neptuno. Tudo auto-sugestão? Algumas coisas auto-sugestão? Que coisas auto-sugestão? Depois se vê. E há os brutos que restabelecem a harmonia com cortisona. Cortisona para tudo e chega de conversas e beijos na testa. O que é este corpo eminentemente desarmonioso pelo qual somos responsáveis? Quem é este eu que apanha doenças e sofre acidentes e envelhece e morre? Somos nós? É nosso? Sou eu ou é eu? É eu, a quem trato com a cerimónia própria de um corpo estranho, vamos lá tomar a colherzinha de xarope, Sôdona Luísa, a ver se isto não degenera em algo da sua responsabilidade, partindo do princípio de que o vírus não é de sua responsabilidade, que a senhora pôs-se a jeito, hã? Andar de autocarro em Dezembro? Com tudo a espirrar e a tossir-lhe em cima? Onde é que começa o eu que trata do eu que toma xarope? Magnas questões que vêm irrespondidas do fundo dos tempos. Não é o que interessa. O importante é que, sabendo o que sabemos desde o século XVII, continuamos a tratar coitados e infelizes como duas categorias diversas, com dois pesos, duas medidas, a mão compassiva afagando coitados, a palmatória do olhar de censura repelindo infelizes.

Conversa de Mesa

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