Foi o próprio Papa Francisco que, com aquilo que disse e fez em Fátima ou a propósito da sua viagem ao santuário português, ajudou a repor no lugar vários aspectos da devoção mariana e da própria mensagem de Fátima. Na conferência de imprensa no voo de regresso a Roma, a propósito das «aparições» que ocorrem em Medjugorje (Bósnia), desde 1981, o Papa afirmou: «Eu, pessoalmente, sou mais “ruim” [do que o relatório inicial preparado pelo Vaticano]: prefiro Nossa Senhora mãe, nossa mãe, e não uma Nossa Senhora chefe dum departamento telegráfico que todos os dias, a determinada hora, envia uma mensagem; esta não é a Mãe de Jesus.»

É fácil adivinhar que, se o fenómeno de Fátima ocorresse hoje, Francisco colocaria reservas às aparições com data marcada uma vez que, também na Cova da Iria, a visão dos três pastorinhos acontecia num dia previsto. Mas este é um pormenor, porque o mais importante é o Papa ter dito que Fátima tem uma mensagem de paz e que ele veio como peregrino — duas dimensões fundamentais da relação das pessoas com o santuário.

As afirmações de Francisco no avião apenas confirmaram outros elementos do que o Papa dissera no santuário, durante a sua peregrinação de 12-13 de Maio. Por exemplo, quando perguntou o que preferem as pessoas: se Maria como «mestra da vida espiritual», a«“primeira” que seguiu Cristo pelo caminho “estreito” da cruz dando-nos o exemplo», se «a “bem-aventurada por ter acreditado” sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas» ou, pelo contrário, a «“santinha” a quem se recorre para obter favores a baixo preço?»

Claro que não é fácil mudar a lógica e a atitude religiosa de tantas pessoas que vão a Fátima e fazem da imagem da Senhora a «santinha» que o Papa criticou, nela traduzindo a sua quase exclusiva relação com o divino e o transcendente. Se hoje, por absurdo, os responsáveis católicos abandonassem Fátima, milhares de pessoas continuariam a demandar o santuário, para ali esconjurar medos e sofrimentos, para ali celebrar reencontros e alegrias.

A dimensão antropológica de Fátima está para lá da institucionalização e da configuração devocional católica. Isso mesmo reconheceu o Papa, ainda na conferência de imprensa do voo de regresso, ao dizer que «não se pode negar» o «facto espiritual» e «pastoral», relacionado com as pessoas que procuram este tipo de experiências «e se convertem, pessoas que encontram Deus, que mudam de vida...». Para muitas pessoas, a experiência vivida em Fátima e na sua relação com Nossa Senhora é uma forma de traduzir a necessidade de terem algo de tangível, de concreto, na sua busca de Deus. O mistério do transcendente só pode ser palpável na medida em que assume formas concretas — sejam elas a entrega através de um serviço a outro ou a devoção a uma imagem de um santo ou de Nossa Senhora como se continuassem vivos na terra.

Ao colocar em confronto a «santinha» e a «mestra da vida espiritual», Francisco está no entanto a apelar também à criatividade e comprometimento dos responsáveis católicos e do santuário, no sentido de ajudarem a purificar e reconfigurar o catolicismo mariano que ali desagua — na linha do que vem sendo feito nas últimas três ou quatro décadas, sim, mas dando-lhe um novo fôlego. Como Teresa Toldy já propôs, Fátima poderia desenvolver mais serviços de acolhimento das pessoas que ali chegam com as chagas abertas da sua vida. Seria uma forma de acolher o apelo do Papa, feito na homilia de dia 13 de Maio, no sentido de uma «mobilização geral contra a indiferença».

Também frei Bento Domingues tem defendido que Fátima precisa igualmente de se converter cada vez mais num lugar de evangelização, através do debate, da edição de publicações e organização de colóquios, à semelhança de vários dos que têm sido realizados nas últimas duas décadas. Mas deve fazê-lo ainda através da valorização cultural e artística, ou nas perspectivas da carta do Papa Francisco sobre os santuários: estes, apesar da «crise de fé» contemporânea, permanecem «espaços sagrados» que as pessoas buscam para encontrar momentos de «pausa, silêncio e contemplação». Ou também, como frei Bento já defendeu, tornando o santuário como que uma «universidade da paz».

 

Salvar os seus, mais do que o império

Fátima resulta de circunstâncias religiosas e políticas muito concretas, que vêm desde o início e que se foram verificando ao longo deste século: o conflito entre o novo regime republicano português e a Igreja; um catolicismo marcado por devoções ritualistas, pelo medo de Deus e por uma lógica de confronto com os «inimigos» da Igreja; as perseguições aos cristãos na União Soviética; as duas guerras mundiais, a Guerra Civil de Espanha e a guerra colonial portuguesa em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau; a estabilização das relações entre o Estado e a Igreja no regime democrático; a queda do Muro de Berlim...

Há cem anos, os 120 quilómetros que separam Fátima de Lisboa eram também a distância entre o país muito pobre, analfabeto e com uma agricultura de subsistência, e a capital urbana que começava a despontar para o desenvolvimento, a cultura e a política. Mais ainda: era a distância entre o povo, predominantemente monárquico, e as elites da capital, maioritariamente aderentes da República, implantada em 1910.

Era também grande a distância entre um povo surdamente revoltado pela participação, desde 1916, de Portugal na Grande Guerra, e um regime que, em nome de interesses geopolíticos, agravava desse modo as condições sociais dos mais humildes. As populações confrontavam-se com «a precariedade da vida perante a situação de uma guerra que as pessoas aceitavam, mas perante a qual procuravam uma protecção de natureza religiosa e divina», diz o historiador António Matos Ferreira, num estudo no livro A Senhora de Maio (de que o autor deste texto é co-autor).

A realidade da guerra está presente desde o primeiro momento. Uma das primeiras perguntas que Lúcia, então com 10 anos, faz à visão é se a guerra duraria muito. Mas a resposta à pergunta, que muitas pessoas depois lhe pediram para repetir, durante os cinco meses seguintes, só viria a 13 de Outubro: a guerra acabaria nesse mesmo dia, contaram as crianças. Mas essa versão seria mais tarde corrigida para um mais vago «em breve...», depois de Lúcia ter argumentado com a pressão que as pessoas lhe haviam feito.

Apesar das diferentes versões, a questão da guerra manter-se-á tão presente em Fátima como esteve no mundo, durante o último século, tornando-se central no fenómeno e na própria mensagem que a partir dele se divulga. Nas seis vezes em que as crianças relatam ter visto Nossa Senhora, as perguntas sobre a guerra, o seu eventual fim e o regresso dos rapazes portugueses foram uma constante, a provar que o tema era uma preocupação maior das populações.

De tal modo que a guerra acabou por ser um outro factor de oposição do catolicismo popular à I República. Como comentava o historiador Bruno Cardoso Reis, «ao contrário do que aconteceu em França, com a união sagrada em torno da guerra contra a Alemanha, o que se passa em Fátima, com as perguntas e afirmações sobre o fim da guerra, agudiza o conflito» entre católicos e República.

Na década de 1930, a Guerra Civil de Espanha e, depois, o início da II Guerra Mundial, viriam a marcar de novo o discurso de Fátima sobre a questão — neste caso, aliado também à questão do anticomunismo. O Papa Pio XII, que atravessa o período da II Guerra Mundial, não queria deixar o argumento da paz apenas entregue à esquerda política, observa Bruno Reis. Por isso, uma das suas iniciativas é organizar, em 1951, um congresso sobre a paz, presidido por Giovanni Montini, o futuro Papa Paulo VI.

Com a guerra colonial em que Portugal entra a partir de 1961, Fátima convoca de novo a questão da paz. O santuário era, já, uma «escola popular de nacionalismo católico», como diz Reis. Mas ninguém controlava completamente o fenómeno, que acabava por ser uma manifestação de um problema: as pessoas iam a Fátima rezar para que os seus mais próximos voltassem sãos e salvos da guerra (ou que nem sequer partissem...). E isso, observa ainda o investigador, traduzia uma coisa simples: as populações católicas estavam preocupadas «com a salvação dos seus entes queridos e não com a salvação do Império»...

Não será por acaso que, durante esses 13 anos de conflito nas três colónias que Portugal mantinha em África, se verificará outro fenómeno: os grupos católicos de oposição ao regime utilizam Fátima como lugar para divulgar informação: há panfletos distribuídos no santuário, uma carta dirigida ao Papa Paulo VI entregue em Fátima, um grupo de padres angolanos (Joaquim Pinto de Andrade, Alexandre do Nascimento e outros) que pensa ocupar a nunciatura em Lisboa durante a visita de Paulo VI...

A própria viagem do Papa Montini, em 1967, assinalando os 50 anos de Fátima, teve várias referências à questão da paz. Paulo VI disse que viria como «peregrino da paz» e, na homilia da missa que presidiu no santuário, repetiu a palavra «paz» por dez vezes.

 

Factor de conflito com a República

Fátima não foi sempre o que é hoje. E, deve dizer-se, em cada momento Fátima corresponde a muitas experiências diferentes — tantas quantas as das pessoas que peregrinam ao santuário, à procura de alívio, consolo ou em acção de graças. Ou, simplesmente, em busca de um tempo de silêncio ou tranquilidade, de refúgio espiritual ou procura de si mesmo.

Com os primos, Francisco Marto, de 9 anos, e Jacinta Marto, de 7, Lúcia foi a protagonista dos acontecimentos iniciados a 13 de Maio, conforme o relato que os videntes fariam depois. Durante os seis meses dos acontecimentos (anos mais tarde, Lúcia iria contar que já em 1916 as crianças tinham visto um anjo), as mensagens que os videntes escutam são muito simples: rezar o terço, pedir pelos pecadores, interceder por pessoas doentes ou soldados que tinham partido para a frente de combate...

Ao mesmo tempo, as pessoas foram dando dinheiro, que uma das primeiras peregrinas recolheu, e Lúcia quis saber o que fazer com tal soma. «Façam dois andorezinhos pequeninos; um leva-o tu mais três meninas como tu e vão de branco; o outro leva-o o Francisco e mais três meninos como ele; levem uma capa branca, levem-no à Senhora do Rosário e apliquem-no a ela», pediu a visão, segundo o relato de Lúcia.

A 13 de Outubro, para quando estava prometido um sinal «para que todos» acreditassem, alguns milhares de pessoas concentraram-se no lugar, atraídas pela notícia que entretanto começara a circular.

Depois de uma chuva intensa, a tempestade parou. «O Sol começou a desandar, parecia uma roda de fogo, todo à volta, todo à volta, todo à volta, para este lado do poente, e veio à Terra», contava a amiga Maria do Rosário, num depoimento que se pode ler no livro A Senhora de Maio. «Quando ele veio abaixo, as pessoas tiveram muito medo, porque pensavam que se acabava o mundo, o Sol a descer, a descer. Mas não se acabou, e a Lúcia disse: “Não tenham medo que não há novidade, isto é um milagre do Sol.”»

Depois dos acontecimentos, Lúcia foi para a escola. «A Senhora», como ela se referia à aparição, dissera logo na segunda vez (em Junho) para ela aprender a ler. Nessa época, Lúcia não conhecia palavras como Rússia — o tema da conversão da Rússia seria um dos mais repetidos durante décadas, até ao início da década de 1990, depois da queda do Muro de Berlim — a propósito de Fátima e do chamado «segredo». Entretanto, ela seguiria a vida religiosa, primeiro como religiosa doroteia, depois como carmelita.

Os relatos ingénuos dos primeiros três anos, acerca das visões das três crianças (e sobretudo de Lúcia) em 1917, coincidiram com a primeira adesão popular e as críticas severas dos republicanos. Nessa primeira fase, Fátima esteve, de algum modo, entregue a si mesma e o acontecimento ficou ainda marcado pela morte de Francisco (Abril de 1919, com quase 11 anos) e Jacinta (Fevereiro de 1920, com quase 10 anos). A hierarquia da Igreja entraria no processo logo no início da década de 1920, com o bispo de Leiria a ordenar a compra de terrenos para erguer o futuro santuário.

No final dessa década, o mesmo bispo, D. José Alves Correia da Silva, viria reconhecer o fenómeno como «autêntico». Entre 1930 e 1945, suceder-se-iam as novas narrativas de Lúcia. Depois, sucessivamente, viriam o aproveitamento mútuo entre Fátima e o Estado Novo; a oposição surda das populações à guerra colonial e as ambiguidades de um santuário que falava de paz mas se silenciava perante um regime que coarctava a liberdade e conduzia a guerra; e, finalmente, o esvaziamento do discurso anticomunista após a queda do Muro de Berlim e a estabilização do fenómeno, com a democracia pós-25 de Abril de 1974.

O anticomunismo que se cola a Fátima tem também vários contextos: na então União Soviética, Estaline fazia dos cristãos um dos alvos privilegiados de perseguição, entre os milhões que foram levados para os campos de trabalho forçado do «arquipélago de Gulag»; em Espanha, onde Lúcia vivia ainda durante a década de 1930 (residiu em conventos em Tui e Pontevedra), os republicanos envolvidos na Guerra Civil opunham-se ao clericalismo e ao poder da Igreja e chegavam, mesmo, a assaltar conventos e mosteiros.

Um dos episódios que traduz a ligação entre Estado Novo e Fátima é a carta da irmã Lúcia, de Novembro de 1945, divulgada e estudada por José Barreto no livro A Senhora de Maio. Nela, Lúcia escreve que Salazar era o escolhido por Deus «para continuar a governar a nossa pátria». Além de que o ditador, apesar de não ir com frequência a Fátima, usava palavras como «sacrifício», «calvário» ou «redenção», muito presentes no léxico de Fátima, como nota o historiador José Miguel Sardica na Enciclopédia de Fátima.

A referência ao comunismo foi-se acentuando — sintetiza António Matos Ferreira, num outro texto do livro A Senhora de Maio — «com as progressivas medidas de Estaline relativamente à Igreja Ortodoxa, com a Guerra Civil de Espanha e com a Guerra Fria».

No início, Fátima também fica marcada por ser mais um dos factores de conflito entre a Igreja e o novo regime republicano. Para isso contribuem vários elementos. Entre eles, está a feroz oposição da imprensa republicana, rápida a denunciar a «crendice», a «pérfida especulação» e a «superstição» que o fenómeno revelaria. Lúcia era referida como «papagaio bem falante» e instrumento usado pelo clero. O atentado em 1922, contra a primeira Capelinha das Aparições, também ajudou a deitar mais achas nessa fogueira de conflito.

 

Um segredo e «os erros da Rússia»

O chamado «segredo de Fátima» só muito mais tarde seria revelado por Lúcia. Nas suas Memórias, ela escreveria, em 1941: «Bem; o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar. A primeira foi, pois, a vista do inferno!» A descrição que Lúcia fazia, a seguir, sobre o que ela e os primos teriam visto corresponde, em grande parte, às palavras que se encontram na Missão Abreviada, livro que, na época, servia como catecismo popular e circulava muito em Portugal, sobretudo entre o clero. Contava a vidente: «Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas...» Depois desta visão, Lúcia conta ainda o que ouviu: «Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.»

A segunda parte do segredo vinha a seguir e relacionava-se com a Rússia — referência que só apareceria nas novas visões que a religiosa contaria ter tido em Tui, nas décadas de 1930-40, quando já estava no convento. Escreve Lúcia nas suas Memórias: «A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior», escrevia, referindo o início da II Guerra Mundial — para Lúcia, a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, foi o verdadeiro início da guerra, quando o Papa era ainda Pio XI.

A estas referências — bem como à questão da linguagem anticomunista — não serão alheias a personalidade do cónego Manuel Formigão, que se tornaria confidente e director espiritual de Lúcia e é por muitos considerado «o quarto mensageiro e o “apóstolo” de Fátima». Na Enciclopédia de Fátima, Jesué Pinharanda Gomes escreve que ele foi «o principal escritor do primeiro período da literatura sobre Fátima, assim como o doutrinador que deu consistência à mensagem que os pastorinhos, por sua cultura e idade, dificilmente conseguiriam pôr em forma discursiva».

Nas Memórias, e a propósito da guerra, Lúcia acrescentava:

 

Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o Meu Coração Imaculado triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

 

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim dos regimes comunistas na Europa de Leste, muitos pensaram que estaria cumprida a promessa que Lúcia escutara, em 1917. A própria Lúcia disse, mas já depois desses acontecimentos, que a consagração que o Papa fizera em 1984 teria sido plenamente realizada. A referência ao fim dos «erros da Rússia» tornou-se, entretanto, cada vez mais rara no discurso oficial do Santuário e da própria hierarquia da Igreja.

 

Holocausto e nazismo ausentes, soldados que disparam tiros e setas

A terceira parte do segredo seria escrita por Lúcia em 1944, a pedido do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, mas só viria a ser revelada no ano 2000, durante a última visita do Papa João Paulo II ao santuário. A visão de um «bispo vestido de branco», que aos pastorinhos parecia o Papa, a subir «uma grande cidade meia em ruínas», era o centro da visão revelada por Lúcia. Mas era relativa a um tempo em que, na Igreja, se falava ainda do Papa como estando prisioneiro no Vaticano, depois da unificação de Itália e do fim dos Estados Pontifícios, em 1870.

«Chegado ao cimo do monte, prostrado e de joelhos aos pés da grande cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares...», dizia o texto.

O documento não fala da perseguição dos regimes ateus contra a Igreja, mas, na interpretação lida pelo cardeal Angelo Sodano em nome do Papa e da Santa Sé, esse era o significado correcto dado por Lúcia. Nunca, neste processo e ao longo do século, há qualquer referência de Lúcia ao regime nazi — que o Vaticano considera de natureza pagã —, ao Holocausto dos judeus ou, mesmo, à perseguição movida pelos nazis contra tantos cristãos em toda a Europa ocupada.

É conhecido que, em 2000, o Papa João Paulo II fez saber que lia no documento de Lúcia a referência ao atentado que sofrera a 13 de Maio de 1981, na Praça de São Pedro, no Vaticano. No comentário teológico que publicou em Junho de 2000, o cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e futuro Papa Bento XVI, relativizaria essa leitura, falando do segredo como resultado de visões privadas e caracterizando como «razoável» que o Papa tivesse visto nessa descrição o atentado que sofrera. E acrescentava, numa alusão a livros como a Missão Abreviada: «A conclusão do “segredo” lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé. É uma visão consoladora, que quer tornar permeável à força santificante de Deus uma história de sangue e de lágrimas.» (O texto do segredo e do comentário teológico ao texto estão disponíveis na página do Vaticano na internet

 

Visões, peregrinação e busca de si mesmo

Não é por acaso que, nos quatro textos que pronunciou em Fátima, o Papa Francisco nunca tenha falado de aparições. Essa marca já tinha sido deixada pelo seu antecessor no Comentário Teológico referido.

Nesse texto, Ratzinger definia os conceitos: «A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de percepção ou “visão”: a visão pelos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual (visio sensibilis, imaginativa, intellectualis).» E acrescenta a seguir: «É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc., não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa.»

Para Ratzinger, o que se passa em Fátima é da ordem da «percepção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível». Não faz sentido, assim, falar de aparições, nem mesmo à luz deste Comentário Teológico, o documento mais oficial da Igreja Católica sobre os acontecimentos de Fátima. Mas a visão interior, escrevia ainda, não se deve entender como uma «fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva». Antes significa «que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos». E o que se vê, conclui, são «verdadeiros “objectos” que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual».

A perspectiva de Ratzinger é retomada e desenvolvida por Carlos Azevedo, no seu livro Fátima — Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã, publicado já em 2017, e que provocou um debate no interior da Igreja Católica em Portugal.

A mudança de linguagem a que o livro apela tem tido correspondência numa parte do discurso do Santuário e de outros responsáveis católicos, no sentido de depurar as expressões mais ligadas a uma religiosidade popular muito marcada pelas ideias do sacrifício e da troca com o sagrado.

Além do discurso estético em mudança — de que a nova Cruz Alta, de Robert Schad, é o exemplo mais significativo —, «há uma nova narrativa religiosa muito presente nos fenómenos cristãos que apresentam mais vitalidade: a conversão é dirigida ao indivíduo, que é o interlocutor essencial. É o indivíduo que é chamado a converter-se», como nota o antropólogo Alfredo Teixeira, numa entrevista publicada no livro A Senhora de Maio.

Fátima continua a falar às pessoas, por causa dessa busca de sentido para a vida, pela procura de uma «identidade em movimento, muito cara à nossa experiência contemporânea», como diz ainda Teixeira. «A peregrinação é um gesto simbólico que descreve, de maneira lúdica e numa dimensão ritual, de forma muito eficaz, esta experiência contemporânea», menos dependente da religião votiva e mais próxima da busca da realização «de si mesmo». Ou seja, do lugar onde, como dizia o documento do II Concílio do Vaticano sobre a Igreja no mundo actual, cada pessoa se encontrar com Deus.

(Este texto é devedor de algumas ideias ou excertos de artigos antes publicados pelo autor no semanário Expresso, nas revistas História — Jornal de Notícias, Vida Nueva, Catalunya Cristiana e World Mission e na página da Rádio Renascença na Internet.)

[António Marujo, além de jornalista, escreve no blog Religionline

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