Afastada do mundo glamoroso das discussões académicas, a revisão de texto é uma forma de leitura que permanece na obscuridade. Sempre que um revisor precisa de explicar a alguém que esse é um dos seus modos de vida tem de se armar previamente com a paciência possível para comentários sobre viagens de comboio e de autocarro. Trata-se, com efeito, de uma actividade tão misteriosa que às vezes os funcionários dos Centros de Emprego, intrigados, exigem dela uma descrição pormenorizada antes de preencherem as fichas dos desempregados.

Num universo sem seres humanos todas as frases nasceriam bem escritas, se houvesse frases. No nosso universo as coisas não se passam assim. As gralhas, os erros morfossintácticos, as repetições, os lapsos, os passos ininteligíveis e as más formulações são frequentes. Ainda assim, parece existir um certo pudor em relação ao erro, como se este não estivesse sempre à espreita, à espera de acontecer.

A leitura que um autor faz do seu próprio texto é diferente da leitura de um revisor. A leitura que um tradutor faz da sua tradução é diferente da leitura de um revisor. Os revisores são profissionais que têm a função de realizar uma leitura atenta e distanciada com o objectivo de detectar e resolver problemas. Ao contrário do que alguns autores, tradutores e até certos revisores pensam, os revisores não corrigem para se divertirem nem para tentarem demonstrar que sabem mais do que o autor ou o tradutor — se um revisor escrever ou traduzir também precisará de revisão —, mas sim porque trabalham para melhorar a legibilidade dos textos.

Melhorar a legibilidade de um texto significa, antes de mais, limpar problemas que possam afectar o prazer da leitura. Assim, a leitura de revisão é muito diferente não só da leitura do autor e do tradutor, mas também de leituras de lazer ou de investigação. Apesar de existir para facilitar o mais possível o prazer da leitura dos outros, a leitura de revisão, visto ter como fim identificar problemas, é um dos tipos de leitura que menos prazer permitem.

Numa fotografia com o subtítulo Proofreader que Sophie Calle usou na instalação intitulada «Take Care of Yourself», apresentada na Bienal de Veneza de 2007, a figura feminina (da própria artista) lê com atitude desconfiada uma carta em que o namorado põe fim à relação. É assim que os revisores passam os dias: perante ecrãs com texto ou folhas de papel, tensos, desconfortáveis, inseguros, obrigados a duvidar do que o autor ou tradutor consideram certo, lendo com uma atenção pouco saudável, para que mais ninguém precise de ler com tanto desprazer.

Lutar contra o erro é uma missão inglória. Há-de sempre escapar uma gralha qualquer, que ficará a aguardar sossegadamente na livraria que o revisor se aproxime dos expositores com as saídas recentes para folhear o livro em que trabalhou. É esse o momento — não as três ou quatro leituras integrais a que um livro é submetido antes de ser impresso — que a gralha escolhe para se revelar em todo o seu esplendor. Nenhum revisor experiente, porém, conseguirá reagir à ocorrência de algum erro com o horror e o espanto das pessoas que não trabalham em revisão. Os revisores convivem com o erro quotidianamente e reservam o assombro para as circunstâncias raras em que pouco ou nada corre mal.

Os revisores costumam ser tratados como figuras menores da edição. São criaturas praticamente invisíveis; a maioria das pessoas não se lembra deles se não encontrar um erro. Por esse motivo, alguém que começa a trabalhar em revisão dificilmente encontra modelos que possa emular.

Certas profissões (médicos, advogados, jornalistas, desportistas) têm grande visibilidade na televisão e noutros meios de comunicação, com direito a séries, filmes e programas de debates. Visto que o grosso do trabalho de revisão é realizado por pessoas sozinhas a ler, a escrever no computador, sentadas, a pensar, o ofício não costuma ser considerado visualmente interessante. Apesar disso, como concordará qualquer pessoa que já tenha participado, voluntária ou involuntariamente, numa discussão sobre revisão, é uma profissão com elevado potencial dramático.

Os revisores que conheço reúnem um conjunto de características: olho para o pormenor, conhecimentos de linguística, experiência de leitura, memória visual, cultura geral, familiaridade com as convenções de edição, ouvido para o tom e os ritmos da linguagem, intolerância a pretensiosismos bacocos, além de um certo brio, generosidade e abnegação. Trabalham por respeito para com o autor ou tradutor e o leitor, geralmente sem obterem por isso qualquer tipo de reconhecimento — pelo contrário, por vezes gerando algum ressentimento. Estas características manifestam-se em graus diferentes em cada revisor. Nenhuma delas pode, só por si, ser considerada decisiva para fazer um bom revisor. Aliás, algumas, se presentes em excesso, prejudicam a actividade. Felizmente, revisores diferentes têm temperamentos e capacidades distintos: uns revisores têm mais facilidade para identificar e resolver certos problemas, outros têm mais olho para questões de outro género. Não há revisões intocáveis e perfeitas. A revisão ideal exigiria pelo menos dois revisores com respeito pelos critérios um do outro.

Não nos precipitemos, contudo, para a canonização do revisor. Sempre que dois ou mais revisores se encontram para discutir critérios e correcções há probabilidade de conflito. Apesar da importância da actividade, o trabalho da revisão implica muitas vezes a imposição de critérios discutíveis e a atenção a pormenores que facilmente passam despercebidos ao leitor descomprometido. (Ironicamente, são as questões menores — maiúsculas e minúsculas, localização das notas de rodapé, algumas vírgulas, embirrações pessoais e arbitrariedades — que geram as discussões mais acesas entre profissionais de revisão.) Tal é a intensidade dramática destes debates, que qualquer leigo, testemunha inocente ou até especialista na matéria que tenha assistido a uma discussão sobre revisão se terá sem dúvida interrogado sobre a ausência incompreensível de abordagens literárias, teatrais, televisivas ou cinematográficas à profissão.

Enquanto o mundo do espectáculo não acordar para o potencial dramático do ofício, no entanto, o revisor em busca de representação vê-se reduzido a identificar-se com figuras que originalmente não foram concebidas para esse fim, sabendo que as interpreta de modo enviesado. Por exemplo, de acordo com o artista John Everett Millais, o óleo Mariana (1851) representa uma personagem de Measure for Measure, de Shakespeare. Esta obra podia, porém, servir como retrato do revisor ao fim do dia, exausto, tentando endireitar as costas depois de horas na má postura exigida pela caça ao erro. Quando foi exposto pela primeira vez, o quadro apareceu acompanhado de uma legenda com um excerto de um poema homónimo de Tennyson onde a enunciadora se queixa do cansaço e do carácter desinteressante da sua vida (depois de ter sido rejeitada pelo noivo quando o seu dote se perdeu num naufrágio): «She only said, “My life is dreary, / He cometh not,” she said; / She said, “I am aweary, aweary, / I would that I were dead!”» Perto do canto inferior direito da tela, reparamos num ratinho algo perdido e triste — uma espécie de erro que passou despercebido e não sabe para onde ir. Assim é o fim de um dia de trabalho de revisão.

Sir John Everett Millais, Mariana, 1851.

Sir John Everett Millais, Mariana, 1851.

Se os revisores tivessem um totem, os gatos e os ratos seriam fortes candidatos. Nesta parelha, sem dúvida o revisor assume o estatuto de caçador. Aliás, os revisores com gatos em casa já terão notado muitas vezes que os animais de estimação seguem com um certo interesse e admiração o olhar de revisão, procurando de vez em quando verificar o papel ou o ecrã que atraem a atenção do dono, não vá dar-se o caso de alguma presa digna de nota estar em questão. É preciso sublinhar, no entanto, que na actividade de revisão se dilui alguma da antinomia que tradicionalmente opõe o par constituído por gato e rato. Um tanto paradoxalmente, o estatuto do rato não é totalmente alheio ao do revisor.

Nas artes visuais, à semelhança dos revisores, os ratos são quase sempre figuras menores e secundárias, remetidos para os cantos mais escuros das imagens. Ao mesmo tempo, tal como os erros, os ratos parecem quase sempre criaturas fora do lugar, um elemento que é necessário escorraçar. Por um lado, os ratos são como os erros, por vezes bem escondidos, que o revisor está encarregado de capturar; por outro, podem instalar-se no interior do responsável pela correcção, corroendo-o por dentro, enchendo-o de dúvidas sobre as próprias capacidades sempre que constata que deixou um ou mais erros escapar.

O revisor é inseparável do erro. Sem erros não haveria revisor. O revisor transporta o erro no coração. Mais do que isso, como os ratos roem, o revisor rói os textos, alimentando-se dessa destruição por alguns lhe chamarem aperfeiçoamento, correcção.

Há um cartoon de Tom Gauld que tem como protagonista Marvello, o Prodigioso Ratinho da Gramática. Marvello constata que desperdiçou a vida numa demanda inútil para tentar corrigir o que nasceu torto. Está deprimido ao ponto de nem a perspectiva de identificar e corrigir erros e gralhas o conseguir animar. Sente-se estafado, atordoado com a vertigem do desperdício do seu próprio tempo.

Não se trata só de pensar que passou a vida a tentar contrariar o universo, a lutar contra a natureza das pessoas e da própria língua. Marvello está ciente de uma oposição não só existencial mas também filosófica ao seu trabalho. A sobrevivência exige transformação através do erro: as pessoas e a língua precisam de erros se querem garantir a adaptação e sobreviver. Lutar contra o erro é como lutar contra a maré, sabendo que se vai ser engolido por ela — e desejando, a partir de certo ponto, ser-se engolido por ela.

Alguns revisores gostam do que fazem, outros não. Os revisores mais cansados da actividade e das discussões vão adquirindo um certo fascínio pelo erro. Pensam que por vezes é preciso escrever mal se queremos dizer aquilo que precisa de ser dito. Quando as pessoas escrevem, têm de errar. Têm de entrar pelas palavras dentro, com construções estranhas, circular em torno do tópico principal até acharem a expressão que mais lhes convém.

De onde vêm as regras? As regras são impostas a um universo desregrado. As regras existem para tranquilizar as pessoas. Basta dizer que «há uma regra que nos obriga a» para as pessoas se sentirem reconciliadas com o universo escorregadio da linguística. Seria bom que viver, falar, escrever pudessem simplesmente depender de seguir regras. Mais do que isso, tudo seria mais fácil se perceber se as coisas tinham corrido bem dependesse de avaliar o cumprimento da regra. Contudo, é preciso por vezes ignorar a regra.

Fallor ergo sum, «erro, logo existo», escreve Santo Agostinho em A Cidade de Deus. Lendo esta citação descontextualizada, Marvello interroga-se: se não posso cometer erros, não existo; se só corrijo os erros dos outros, não existo; um texto sem erros existe? E ainda: só se lembram de nós quando deixamos os erros escapar; só aí começamos a existir; a possibilidade de errar ajuda-nos a existir; não poder errar apaga-nos.

Marvello tem de se acalmar.

Para não ceder à vertigem, precisa de encontrar um equilíbrio entre o predador e a presa dentro de si. Por um lado, tem de redescobrir o prazer da adrenalina da caça; por outro, por muito que o escorracem para os cantos, convém que compreenda que roer os textos para os corrigir é não uma actividade meramente parasitária e destrutiva mas sim um passo indissociável da construção.

Ler o poema «North Haven», de Elizabeth Bishop, pode ajudar Marvello. Não é propriamente um texto sobre revisão: é uma elegia que carrega o peso da história complicada e dolorosa da amizade entre a autora e Robert Lowell, tendo sido escrito em memória do poeta. Contudo, qualquer revisor que o leia reconhecerá nos seus versos uma das mais belas representações de sempre desta actividade.

Perante o lugar onde costumava passar férias, por vezes encontrando-se com Lowell, a poeta reflecte sobre o carácter cíclico da Natureza e sobre a renovação e as perdas dentro da repetição. Bishop constata que até a Natureza faz revisão. Os pássaros que regressam são pássaros revistos: parecem os mesmos, mas pertencem a uma nova geração, provavelmente já com correcções. Mesmo estes pássaros novos aperfeiçoam as suas canções, tal como os poetas revêem os seus textos. E sem dúvida os últimos quatro parágrafos desta crónica sairiam a ganhar depois de uma reformulação.

Bishop não diz isto, mas nós sabemos bem que a própria História se repete e os erros também, se não prestarmos atenção. «[R]epeat, repeat, repeat: revise, revise, revise.» Os mortos nada podem alterar, mas enquanto houver vida haverá revisão.

           

 

 

faca de papel #2

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