A Forma de Vida entrevistou Isilda Sanches, locutora e programadora na Antena 3.

 

Porquê a mudança da Oxigénio para a Antena 3?

Estava há 16 anos na Oxigénio. Foi uma rádio que criei de raiz, era como um filho. Mas já eram 16 anos — aos 16 anos já se é um bocadinho independente. Tive o convite para vir para a Antena 3 e achei que era uma oportunidade que não devia perder, apesar de ter sido uma das decisões mais difíceis que tive de tomar. Para as pessoas que me seguiam na Oxigénio não foi fácil perceber a minha saída para a Antena 3. A política musical é diferente. A Oxigénio é muito direccionada para um tipo específico de música, mas também mais fechada em termos de estilos. Está mais vocacionada para a música de dança, funk, hip-hop, até ao jazz e faz parte de um grupo em que há outras rádios que ocupam outras franjas do espectro, nomeadamente o rock alternativo — abordado pela Radar —, o jazz — que perdemos para ser abordado pela Marginal —, e outra música mais comercial que tinha a ver com outras rádios do grupo — a MEO Sudoeste e a Nostalgia. O facto de haver este espartilhamento não quer dizer que eu só gostasse daquele tipo de música. Aliás, eu venho do rock, como a maior parte das pessoas em Portugal da minha geração. Quando crescemos não havia muitas alternativas e havia géneros que eram olhados com desdém porque eram muito «felizes», havendo aquela ideia de que «as pessoas inteligentes não dançam», essas coisas muito parvas. Depois, nos anos 90, deixei-me levar pelo ritmo, sem vergonha, de forma bastante despudorada, e foi com a rádio que descobri a música de dança, nomeadamente com a XFM, logo a primeira rádio em que trabalhei. Aí é que foi a mudança de paradigma para mim e para muita gente que trabalhou também na rádio. Levámos com um grande embate em termos de revoluções musicais. Os anos 90 foram muito ricos nesse aspecto e aconteceram muitas coisas novas. Mas não vendi os meus discos de rock e continuo a gostar de coisas que não envolvem sequer ritmos dançantes. O meu gosto musical sempre foi muito abrangente. O facto de me ter especializado na música de dança não quer dizer que tenha esquecido tudo o resto. Daí também não ser muito difícil rever-me na política musical da Antena 3. Se por um lado foi difícil sair da Oxigénio, porque era o meu meio, onde estava segura, e onde sabia para quem estava a falar de cada vez que entrava em antena, por outro foi um desafio. Não estava cansada da Oxigénio, mas foram 16 anos e havia que tomar uma decisão: «Ou fico aqui para sempre, ou então vou tentar ainda fazer outra coisa». Depois há sempre o atractivo de uma rádio nacional. Os meus pais nunca me tinham ouvido na rádio, porque emitia só para Lisboa — também foi uma maneira de chegar às minhas raízes. Mas no fundo foi a questão do desafio, de não querer parar, e até de provar a mim própria que conseguia fazer isto, que conseguia ir buscar o conhecimento que já tinha e unir os pontos todos. É a minha grande ambição: não haver barreiras entre estilos.

Então a haver constrangimentos, a nível de políticas de programação, esses existiam na Oxigénio, e não na Antena 3.

Na Oxigénio tinha muito mais constrangimentos de estilo, porque éramos aquilo a que se chama uma rádio temática. Éramos uma rádio de música e estávamos posicionados naquilo a que se chama «urbano», mas mesmo assim numa perspectiva que não existe em muitas rádios no resto do mundo, porque passávamos muita música antiga. Normalmente, o urban tem a ver com R&B, e nem sequer passávamos muito isso. Tentávamos passar toda a música que seria possível ter numa rádio que estava mais vocacionada para a música de dança. Isso, obviamente, implicou ir buscar coisas muito atrás, o que apreciávamos. Há sempre aquele interesse extra em mostrar alguma coisa que mais ninguém mostrou: a origem dos samples, de quem é esta ou aquela versão… São coisas que, na música nova, não são muito faladas. Mas a música nova é nova porque saiu agora, não vem do nada, deve sempre a alguém. Mostrar isso foi sempre o meu desafio na rádio.

Na Antena 3 está a conseguir fazer isso e regressar às suas raízes?

Sim. É óbvio que não passo house à tarde. Mas essas que não dão para passar à tarde passo no meu programa, o «Muitos Mundos», onde passo coisas que também não davam para passar à tarde na Oxigénio, porque são mais experimentais. Aqui na Antena 3 também há uma política musical. O constrangimento principal tem a ver com a música portuguesa, por causa da aplicação da lei da música portuguesa e da fiscalização. Como a Oxigénio tinha o estatuto de rádio temática, estava posicionada num estilo que alegámos que não tinha produção musical suficiente para cumprir a quota, e foi-nos dado o direito de não a cumprir. Mas passávamos muita música portuguesa que não estava editada ou que era instrumental. A lei da música portuguesa diz que não chega a música ser feita por músicos portugueses, tem de ser cantada em português, e isso é um constrangimento muito grande no mundo actual. Não só porque o inglês está generalizado, mas também porque põe de lado a música instrumental, o que é um absurdo. Os Dead Combo são instrumentais, o Rodrigo Leão, até há pouco tempo, também era instrumental. Esse tipo de constrangimento, aqui, é maior e é fiscalizado. A Antena 3 pertence a um grupo que está ligado ao Estado, portanto há uma fiscalização contínua. Essa é a parte mais complicada. Para se cumprir a lei como ela supostamente está enunciada é muito difícil. Nem sequer a produção de música portuguesa permite isso. Ou seja, se calhar permite, mas não com a música nova que está a sair. Permite com alguns géneros antigos, com determinados estilos, mas no grosso, no indie rock, na pop electrónica, no hip-hop… Se bem que no hip-hop fala-se em português mas, por exemplo, um produtor de hip-hop que só faça beats, como o Beats Vol. 1: Amor, do Sam the Kid, não seria considerado para a quota. Essas coisas fazem-me confusão.

Isso implica uma preocupação maior com a programação?

Sim. Não necessariamente minha, porque as rádios hoje em dia têm um software que permite fazer essas contas, mas digamos que isso às vezes coage um pouco a playlist. Acaba por obrigar a mais repetições, para garantir que passam as músicas que têm de passar. Para mim é incompreensível como é que se pode achar que instrumentais ou cantar em inglês não conta na quota de música portuguesa. Não percebo como é que isso é possível num mundo global. Se as pessoas que estão a tocar nasceram em Portugal, ou vivem em Portugal — porque também temos esse caso, há muita gente que, não tendo nascido em Portugal, está cá a viver —, é música portuguesa ou não é? Daqui a pouco é preciso mostrar o cartão de cidadão… Isso faz-me confusão e estou convencida de que deve ser da interpretação.

Disse que, quando entrava na Oxigénio, já sabia quem estava do outro lado, quem a estava a ouvir. Como é a relação com os ouvintes da Antena 3?

Foi muito estranho, no início. Tive de mudar de pele, literalmente. Primeiro, já tinha interiorizado completamente, já tinha «oxigénio» na ponta da língua — a primeira vez que fiz emissão obviamente saiu-me um «oxigénio»… Ainda por cima com uma banda que não tinha nada a ver com a Oxigénio, Mumford & Sons. Obviamente fui gozada! Foi difícil. Agora já passou quase um ano e meio e já sei mais ou menos quem está do outro lado. Sei sobretudo que está muito mais gente! Isso é mais estranho. Aquilo com que ainda tenho dificuldade, e acho que não sou só eu, é lembrar-me de que não estou a falar só para Lisboa. Não estou a falar só para a cidade de onde estou a emitir, estou a falar para o país inteiro. Temos muita informação sobre o que se passa aqui à nossa volta, até porque conhecemos as pessoas, mas passam-se outras coisas no resto do país. Às vezes martirizo-me a pensar: «Podia ter dito isto e não sabia!» Agora vou muito mais ao Facebook ver as páginas dos artistas para ver onde vão tocar, estou mais atenta. Porque Portugal não é só Lisboa, nem é só Lisboa e Porto, e essa é a parte em que tenho mais dificuldade. Claro que, sendo muito mais e sendo no país inteiro, não sei quem é que está do outro lado, mas acho que agora já sei mais ou menos.

Já teve reacções?

Sim, vai-se tendo. Felizmente, até agora, não tive nenhuma má, pelo menos não directamente dirigida a mim. Mas quando se fala para muita gente está-se mais exposto. E é muito difícil ser-se alvo só de carinho, até seria estranho. Mas sim, tive reacções, e é engraçado ver pessoas que ainda estão a descobrir que agora estou aqui. Na Oxigénio, no início, também não sabia quem é que lá estava. E ao fim da tarde tinha um programa com a participação dos ouvintes através do Facebook, por isso sabia mais ou menos quem eram e como é que pensavam.

Aqui não há esse tipo de interacção?

Aqui não. Há outros programas que têm interacção com o Facebook, mas eu também tenho poucas entrevistas e já há tantas coisas com o Facebook… Nem sei se à hora a que faço emissão há assim tanta gente no Facebook que permita interacção. A Oxigénio era uma coisa mais familiar, de amigos. Isto é um porta-aviões! [Risos]

Nesse sentido, acha que tem influência sobre as pessoas que a ouvem?

Se me ponho a pensar nisso, não digo nada! Não sou o Dale Carnegie, não ensino a fazer amigos e a influenciar pessoas. Se calhar tenho, mas não gosto de pensar nisso.

Não pensa nisso quando está a fazer a emissão.

Também não vou dizer que faço tudo o que me passa pela cabeça. Às vezes saem-me coisas que não deviam sair, mas tento medir o que penso e o que faço. E sim, tento influenciar pessoas. Estou a espalhar o gospel. Quando são coisas em que acredito mesmo, é óbvio que tenho aquele orgulho — e nem gosto da palavra orgulho —, tenho a vaidade de poder dizer: «Fui das primeiras pessoas a passar isso!» Ou quando alguém me vem dizer: «Ouvi no teu programa!» Há algo de profeta que as pessoas que fazem rádio e que gostam de música têm, que é um bocadinho chato. Eu já era assim antes de fazer rádio, já era assim na escola. Claro que a maior parte dos meus amigos estavam-se nas tintas para os discos que eu queria que eles ouvissem, mas eu insistia. Agora é fantástico, porque tenho um programa de rádio. Tornei-me um bocadinho menos chata, já não ando sempre a doutrinar os meus amigos, agora passo na rádio e pronto. E até posso fazer a coisa com um certo ar blasé. Mas quando gosto realmente de uma coisa, gosto de angariar adeptos. Agora, é um mérito muito pequeno porque não faço a música. Gosto de me ver como um meio de transmissão. As coisas chegam até mim e eu gosto de as fazer chegar aos outros. Quando sei que alguém vai gostar daquela coisa, aí sim, digo directamente. Faço isso também com as séries de televisão. Quando vejo uma série de que gosto, vou logo para o Facebook escrever sobre isso. Quando gosto de uma coisa, gosto de mostrar aos outros. Houve uma parte ali na adolescência em que detestava quando alguém dizia: «Eu tenho esse disco que tu tens». E eu pensava: «Afinal não sou assim tão especial quanto isso». Hoje em dia não.

Hoje em dia dá-lhe mais gozo partilhar.

Obviamente. É essa a minha função.

E, nesse sentido, quando programa, fá-lo tanto para si como para os outros.

Sim. Se eu não estiver a programar para mim, também acho que vai soar falso. Tenho de acreditar no que estou a fazer. Obviamente não posso dizer que adoro tudo o que passo; isso nem sequer acontecia na Oxigénio, por exemplo. Há coisas de que gosto muito e há outras que não, mas essas penso que pode haver pessoas que vão gostar. Não tenho um gosto irrepreensível. Ou seja, tenho para mim, mas tento ter o distanciamento suficiente para perceber que coisas que a mim não me dizem muito vão dizer algo a outras pessoas. Aí é onde sou mais profissional. Penso: «Vou retirar-me parcialmente da equação. Na verdade, isto para mim é batido, já me soa a outras coisas, já ouvi isto quinhentas vezes, mas está bem feito. Vamos lá dar uma oportunidade: vamos passar isto». Se tiver de passar uma coisa que desprezo, aí acho que as pessoas vão notar;  mas isso não acontece. Às vezes, quando era preciso fazer campanha por bandas que vinham a festivais — isso acontecia muito na Oxigénio, porque era uma rádio que pertencia, numa determinada fase, a dois dos principais promotores de festivais em Portugal —, tínhamos de passar coisas nas quais não acreditávamos. Mas depois ia-se ver e essas bandas eram dos grandes chamarizes do festival e não valia a pena estar armada em esquisita. Eu podia não achar grande piada mas, bolas, sejam felizes!

Há pouco falou em ter de mudar de pele quando veio para a Antena 3. Numa ocasião, disse que tinha tido de aprender a falar com um sorriso, que percebeu que isso fazia diferença. Era mais séria na Oxigénio?

Não, na Oxigénio desenvolvi a minha personalidade em rádio. Na XFM é que era terrível… Aí, as pessoas gozavam comigo e diziam que parecia aquela personagem do Cães Danados, do Tarantino, o que fazia rádio, porque era muito monocórdica; diziam-me que estava sempre com um ar de desdém. E eu não percebia! Mas, obviamente, era falta de experiência. Diziam-me: «Levanta os cantos da boca». E era a única coisa que era preciso fazer. Isso foi algo que, por mo terem dito, fui desenvolvendo. Na Oxigénio não era mais séria, não. Como sabia quem estava do outro lado, sabia até onde podia ir. Aqui contenho-me. Hoje em dia contenho-me menos, já estou mais à-vontade — agora já mudei de pele. Quando usei essa expressão tinha a ver com mudar o meu vocabulário, porque já tinha interiorizado uma série de chavões que temos de utilizar em rádio, e a Oxigénio estava inscrita no meu ADN. Ainda hoje a frase «Oxigénio, música para respirar» está pronta para sair. Mas agora, mesmo que isso aconteça, já tenho muito mais à-vontade para, na primeira sílaba, saber o que tenho de fazer.

Sente que a responsabilidade é maior na Antena 3, por causa do alcance? Falar para mais pessoas implica mais responsabilidade?

Sim. Para mais pessoas e para um público não tão uniforme. São pessoas muito diferentes. A escala é maior, a diversidade é maior, a responsabilidade é maior, e eu tento não pensar muito nisso para o medo não ser maior, também.

Começou primeiro por escrever sobre música do que a trabalhar em rádio.

É verdade. Sou a chamada geek. Tive dois irmãos mais velhos. Foram os dois muito influentes na minha vida. Nasci no Sabugal — que na altura era uma vila, agora é cidade —, perto da Guarda, já muito perto da fronteira com Espanha. Cresci a ouvir rádio. Ouvia muito o «Som da Frente», do António Sérgio. Foi muito importante na minha formação cultural, musical e enquanto ser humano, ouvir rádio nos anos 80. Nasci em 1969. Ouvia o John Peel — consegui montar uma antena para apanhar o programa, gravava cassetes para mostrar aos meus irmãos. Escrevi-lhe cartas, a que nunca respondeu, e depois conheci-o em Glastonbury, em 94. Tenho cartas dele, uma delas a pedir-me desculpa por nunca ter respondido. O John Peel foi uma pessoa mesmo incrível, super aberto. Acho que nunca vou conseguir ser tão afável com alguém que não conheço de lado nenhum como ele o foi comigo. Meti conversa com ele numa casa-de-banho do festival e ele podia perfeitamente ter olhado para mim e pensado: «Quem é esta maluca?» Mas não — saiu da casa-de-banho, esteve a falar comigo muito tempo e passou a mandar-me cartas. Ele colaborava na XFM — tenho duas cartas dele. Eu vivia para a música; era daquelas pessoas que tinha um intervalo de 20 minutos e ia a casa carregar no REC da cassete para gravar o «Sinais de Fumo» do «Som da Frente». Às vezes pedia à minha mãe para pôr a gravar e ainda houve outras vezes em que faltei às aulas. Aquilo era de facto importante para mim. Se aos dez anos me perguntassem o que queria fazer diria que era trabalhar com música e escrever sobre música. E acho que foi quando eu tinha 13 anos que o Blitz — que não existia há muito tempo, um ano ou dois, talvez — lançou um concurso em que oferecia o Live in Concert dos The Cure. Tínhamos de escrever um artigo sobre eles e eu fui uma das dez pessoas seleccionadas. Não fui eu que ganhei; não tive o artigo publicado, só tive lá o nome e recebi o disco em casa. Mas aquilo serviu-me como uma espécie de incentivo e então fui para Comunicação Social porque queria escrever sobre música. Enquanto estava a estudar tive a sorte de conhecer pessoas que tinham a mesma paixão que eu, nomeadamente o Rui Miguel Abreu, que também tinha ido para Comunicação Social pela mesma razão. Comecei a escrever sobre música enquanto ainda estava na faculdade. Fiz cadeiras de todas as áreas: publicidade, cinema, jornalismo… Não fiz nada de rádio, mas acabei na rádio. Antes disso, ainda trabalhei em cinema. Mas o que eu queria mesmo era escrever sobre música. Juntava a minha mesada para comprar discos, e tinha listas. Ainda consegui manter a rádio e a escrita regular até 2008, altura em que acabou o suplemento do DN e perdi a avença. Às vezes tenho saudades, mas a coisa está muito complicada para a comunicação social e parece que as pessoas deixaram de se interessar por música. Pelo menos é isso que os editores dizem.

Mas tem tido colaborações no Observador.

São esporádicas. Agora já não pertenço a nenhuma estrutura de jornal, mas enquanto houve condições para isso, enquanto o meio da imprensa escrita em Portugal foi suficientemente saudável para poder ter trabalhadores e colaboradores em número considerável, aproveitei sempre. Escrevi no Blitz, n’O Independente, no Diário de Notícias, no , tive uma colaboração com a Elle. Ainda pensei em fazer um blog, mas aí vou ser muito honesta: a Internet é muito interessante mas tem um efeito perverso ao nível do consumo de cultura, porque habituou as pessoas a terem de borla aquilo que deveria ser um trabalho pago. Posso fazer um parágrafo sobre alguma coisa, mas agora escrever um texto longo… Tomei a decisão de não o fazer porque qualquer dia ninguém é pago por coisa nenhuma, e não podemos viver de boa vontade. Por isso optei por não ter muito essa presença online. Prejudico-me, porque sou menos visível, até porque há muito aquela competição, de termos de estar sempre a fazer coisas. Mas não quero ter nada a ver com isso. É tudo uma grande falácia, especialmente as questões do ego. Isso é tudo falso. As pessoas já não prestam atenção ao que lêem em papel, e muito menos na Internet. Às vezes tenho umas fases de maior descrédito em relação ao sistema moderno, mas continuo a ser uma cidadã minimamente inserida no meio social.

Mas não escreve só sobre música. Recentemente escreveu sobre literatura, sobre Philip K. Dick

K. Dick é a minha paranóia. Sou aquilo a que se chama uma «Dick Head» e acho — acho — que agora já não posso dizer que ele seja menosprezado, porque já tem muito crédito nos círculos literários. 

Nos últimos anos cada vez mais.

Acho que ele de facto tem uma produção filosófica, vou pô-la nesses termos, que é muito profunda, e que a mim me diz muito. Revejo-me nas dúvidas dele, nas questões que ele levantou. Obviamente, como quase todas as pessoas, entrei em contacto com o K. Dick através do Blade Runner. Vi o filme, adorei, e só vim a conhecer o Philip K. Dick na faculdade quando me emprestam O Homem Duplo. Tive logo uma epifania. Fui procurar mais coisas. Na altura ainda não havia Internet. Depois, com a chegada da Internet, acabei por aprofundar a pesquisa. Ele tinha uma filha chamada Isolda e achei que isso era um sinal, coisa de adolescente. Agora tenho tudo o que há do K. Dick em português, mesmo aquelas edições más. Tenho a colecção Argonauta, com as traduções do Eurico da Fonseca, que são algumas vezes ingenuamente mal feitas. Também tenho edições em inglês, ainda não tenho é o Exegesis, mas estou a pensar encomendá-lo. Já estou tentada há muito tempo, mas ainda não tomei a decisão — aquilo deve ser muita paranóia e às vezes até pode ter efeitos um pouco perversos. [Risos]

Também escreveu sobre uma série, Black Mirror.

A Black Mirror tem a ver com o K. Dick. Gosto muito de ficção científica — vi o Star Trek, vi o Espaço 1999. Eu vivia no campo e para mim a ficção científica era mesmo um escape. Passei a minha infância a olhar para as estrelas e a pensar: «Será?» No caso de Black Mirror, e embora esteja catalogada como uma série de ficção científica, acho que se trata mais de um retrato extremamente impiedoso e acutilante, um alerta para a realidade em que vivemos. Acho que é das séries mais perturbantes e interessantes que foram feitas em televisão desde sempre. Há ali um olhar sobre nós, sobre as pessoas, sobre a nossa relação com a tecnologia, que é importante; é importante que aquelas coisas sejam ditas, a ideia de nos devolver a nossa imagem num espelho negro, e de não ser uma boa imagem. É importante porque andamos todos muito deslumbrados pelo brilho da nova tecnologia — os smartphones, os relógios que contam os batimentos cardíacos enquanto corremos, a presença constante, a disponibilidade constante, aquela coisa do «mandei-te um e-mail e tu não me respondeste», como se uma pessoa tivesse de estar disponível 24 horas por dia. E lá está: é o meu espírito de profeta. Com a Black Mirror senti mesmo que tinha ajudado a espalhar o gospel. A série chega-me por uma pessoa que também é jornalista e que também já tinha escrito sobre ela, o André Santos, que estava na Time Out. É ele que dá a dica.

Vê alguma ligação entre Philip K. Dick, Black Mirror, e a música em que agora é especialista, música de dança?

Sim, claro que sim, tem tudo a ver com tecnologia. O K. Dick, no Universos Paralelos, faz uma descrição que no original se chama «eye in the sky», e que é o título de um disco do Alan Parsons Project, uma banda ligada ao rock progressivo que utilizava muito os sintetizadores. Há uma outra passagem em que ele descreve a música do futuro, e diz: «já estou a vê-los, sentados nos chãos dos seus apartamentos de North Beach, a utilizar máquinas para fazer ritmos» — isto para mim é a música de dança. Por causa do Blade Runner, o K. Dick deve ser dos autores que tem mais parcelas espalhadas pela música industrial e electrónica; muitos dos diálogos do Blade Runner foram samplados por bandas de rock industrial e de música de dança, durante os anos 80 e parte dos 90. Até o Tricky: o «let me tell you about my mother» [da música «Aftermath»] é do Blade Runner. Portanto, sim, acho que está tudo ligado. Para mim faz sentido, por um lado de um ponto de vista tecnológico, porque o K. Dick antecipa muitas dessas coisas, e por outro porque acho que ele já estava a falar de uma sociedade em que a realidade é mutante e em que as próprias pessoas arranjaram outra maneira de serem gente nelas. Aquelas personagens meio à deriva lembram-me muitos amigos meus que saíam para dançar, iam à procura dos discos e mergulhavam naquela realidade paralela da música, porque era a realidade deles; consigo perceber que eles desligavam e iam para o seu universo paralelo. Para mim faz tudo sentido, mesmo que às vezes a união de pontos, o bordado que faço ao unir os pontos, não seja lá muito atractivo. O K. Dick, a Black Mirror, para mim têm tudo a ver com música electrónica; pode não ser dançável, mas tem a ver. A música de dança tem um elemento de método, e também um lado quase de pulsão rítmica ancestral que fala muito comigo. O que me chama na música é o ritmo. Nesse sentido é uma coisa ancestral, que nem sequer tem a ver com o verbo, não tem a ver com a palavra. Obviamente adoro letras e tive a minha fase de decorar as letras — ainda me lembro de canções dos Smiths e sei as letras e gosto disso —, mas o que fala primeiro comigo nem sequer tem a ver com nenhum tipo de racionalização, é mesmo uma pulsão física que tem a ver com o ritmo e que funciona muito bem para mim.

Ainda faz sessões de DJ?

[Risos] Às vezes. Cada vez menos. Tenho uma coisa, que pode ter a ver com fazer rádio, ou então já era assim, mas não me dou muito bem em cima de palcos, com gente a olhar para mim; sinto-me escrutinada. Acabou por não fazer muito por mim, não ser muito satisfatório. Quando toquei a seguir ao Lindstrøm no Vodafone MexeFest, nesse dia decidi: «Reformo-me. Isto não volta a acontecer. Tocar a seguir ao Lindstrøm é razão para me reformar porque assim saio em alta.» E durante uns tempos dizia isso, mas é claro que já voltei a pôr música. Sim, ainda faço, mas não com a regularidade que fazia.

Recentemente também escreveu sobre doze mulheres que foram pioneiras na música electrónica. Foi uma maneira de fazer justiça às mulheres ou à electrónica?

Às mulheres. Se bem que a Daphne Oram, por exemplo, é importantíssima na história da electrónica. O que eu acho é que essa história não está contada, como não estão outras histórias, a das mulheres na ciência, por exemplo. E acho que é importante. Estamos no século XXI; há uma ditadura do «agora» que às vezes é muito injusta, e isto mesmo na era da «retromania». Achamos que agora é tudo muito revolucionário, que a música é muito ousada, que toda a gente faz coisas que há dez anos seriam impensáveis — mentira! Foram feitas coisas muito mais arrojadas no início do século XX. Ninguém ou muito poucos sabiam dessas mulheres, depois sabe-se da Daphne Oram, depois de mais uma ou outra, mas há muitas mais. Eu própria andei a pesquisar. No cinema é a mesma coisa. As pessoas pensam que agora se faz imensa coisa mas — e pareço uma velha a dizer isto — já foi tudo feito. Muito provavelmente os gregos pensaram em tudo. [Risos] Na parte rítmica, obviamente, a cena ancestral e tribal já tinha lá tudo. Portanto, o que é que nós fizemos? Complicar as coisas, no fundo. Fomos pondo camadas para parecer que somos originais. Tenho uma sobrinha adolescente, e é engraçado porque eles pensam, como todos nós, que o mundo começou no ano em que nasceram. Também foi por causa disso que quis ir à procura dessas mulheres e contar a história. Não tanto por um culto do passado, da nostalgia do passado, mas porque é importante dizer que não somos assim tão à frente como pensamos. Houve gente que fez coisas extraordinárias em condições extremamente adversas. Sempre adorei aquela ideia de raparigas a rodar botões; se me tivessem dado a oportunidade era isso que teria feito. Gosto daquela coisa de uma parede modular de sintetizadores, ligar as máquinas e rodar botões e aquilo ficar para ali a fazer coisas, adoro. Ainda não tenho um sintetizador modular mas tenho um teremim…

Estivemos a falar de escrita e de rádio, mas nunca quis fazer música?

Deixo isso para quem sabe. Mas não. Nunca quis subir a um palco para tocar, isso foi sempre o mais complicado. Comprei um teremim porque adoro o som, que vem da minha fixação na ficção científica. O som do teremim já vinha dos filmes clássicos de ficção científica e de terror: arrepia-me. É epidérmico. Finalmente, há uns seis anos, comprei um teremim, que é muito mais difícil de tocar do que alguma vez imaginei. Não tocamos em lado nenhum, é só ter os braços suspensos, saber a escala e andar… É uma coisa muito complicada, e para já é preciso ter musculatura, coisa de que ninguém se lembra; uma pessoa está ali cinco minutos a brincar e dói, mas adoro o instrumento. Quem sabe se algum dia ainda me lembro de fazer alguma coisa, até porque agora já tenho um programa de edição.

Deu aulas na ETIC. Como foi essa experiência? Parece mais uma oportunidade que teve de espalhar o gospel.

É. Foi estranho.

Especialmente para quem não gosta de estar à frente de pessoas.

É isso. É essa parte que é estranha. As turmas eram pequenas, por isso ao fim de duas ou três aulas já estava à vontade com os alunos. Mas tinha sempre dúvidas: «Será que tenho alguma coisa para lhes ensinar?» A minha dúvida é sempre essa. Tenho algum conhecimento mais especializado, mas se calhar não é assim tão especializado que me torne uma professora indispensável. Tecnicamente, por exemplo, não posso ensinar produção, tem de ser sempre algo como jornalismo ou história da música. Foi interessante, mas sofro sempre um bocadinho com estas coisas.

A oportunidade partiu de um convite da ETIC?

Partiu de um convite do Rui Miguel Abreu, que organizou lá o curso de jornalismo. Posso dizer que tive excelentes alunos em vários anos. Isso deu-me um grande gozo e continua a dar-me um grande gozo ver que eles continuam ligados à música. Ainda no outro dia houve um aluno de jornalismo que me mandou um disco. Já se passaram três anos e ele mandou-me um disco dele, da prensagem dele, da editora dele; só tem vinte e cinco discos e deu-me um a mim. É aí que acho que, se calhar, até consegui… Não podemos fazer muito sobre a maneira como os outros nos recebem, e eu tento fazer o meu trabalho o melhor que consigo e de forma honesta, tento colocar lá um bocadinho de mim.

 

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