[Este é um ensaio escrito sem livros — que estão a caminho de Lisboa, estando eu ainda em Boston. As influências mais ou menos explícitas são Alasdair MacIntyre, Martha Nussbaum, Oscar Romero e Juan Carlos Scannone.]

 

Fátima é um tema complexo — e um tema no qual eu não sou especialista. Apesar de ser um católico empenhado, que junta a isso o facto de ser jesuíta e padre, nem a história nem a teologia de Fátima são assuntos que eu tenha passado tempo considerável a estudar e a procurar entender na sua profundidade. Este ponto prévio é importante: ao longo deste texto, o que vou procurar mostrar não é propriamente a credibilidade de Fátima enquanto evento de fé. O que aqui procurarei fazer é antes sugerir que inspirado por aquilo que Fátima representa no imaginário colectivo do povo português há três teses que podem ser propostas: em primeiro lugar, a tese de que em Fátima se pode encontrar um alerta para a Igreja Católica portuguesa urbana sobre os perigos de se refugiar na pregação confortável de uma mensagem dirigida apenas a uma classe média sofisticada; em segundo lugar, a tese de que Fátima revela o falhanço da Igreja portuguesa em desenvolver uma estética popular que possa revelar a presença de Deus no mundo através da educação para a beleza; e em terceiro lugar, a tese de que, na mensagem de Fátima tão centrada na ideia de construir a paz, a Igreja pode encontrar a linguagem inspiradora que tem faltado ao nosso país. A minha esperança no futuro da Igreja é enorme — de outra forma, não lhe dedicaria toda a minha vida. Estas três teses são apenas tentativas de tornar essa esperança mais concreta.

 

I. A Igreja urbana sofisticada precisa de redescobrir a fé dos simples

Um dos paradoxos do Catolicismo nos nossos dias é o facto de a Igreja urbana se ter distanciado das massas populares e de se ter aproximado cada vez mais de uma elite com um certo tipo de sensibilidade intelectual e estética. Há muitas razões para este distanciamento e analisá-las não é o objectivo deste texto. Aquilo que aqui se pretende fazer é só apontar para um facto evidente: num país como Portugal, a força da Igreja costumava estar nas massas populares que viviam as suas vidas de uma forma discreta, rotineira, quase escondida. Era uma força anónima, que se encontrava nos campos, nas vilas, nas aldeias, nas periferias das cidades, do norte ao sul do país, em todo o tipo de pobreza e de riqueza, vivendo vidas invisíveis nas quais a fé cristã desempenhava um papel central. Por mais que dizê-lo esteja fora de moda nos meios académicos, Portugal foi até recentemente um país vincadamente cristão — de um cristianismo popular, disseminado, partilhado. E Fátima, mais do que qualquer outro tipo de manifestação religiosa, tem sido o lugar onde ao longo do último século esta Igreja anónima se encontra. No seu sentido mais positivo, usado como um verdadeiro elogio evangélico por São Mateus, Fátima é o lugar onde a Igreja pode ser dos simples. E o que a história nos mostra é que a simplicidade faz parte da fé do nosso povo, tal como faz parte do texto dos Evangelhos.

Em décadas recentes, porém, a Igreja tem tido dificuldade em manter junto do povo a relevância que até há pouco tinha. Sobretudo nos grandes aglomerados urbanos, ou suburbanos, o crescente desenraizamento cristão do nosso povo é uma fonte de preocupação. A Igreja tem dificuldade em transmitir a fé aos anónimos das nossas cidades, como não tinha dificuldade em transmitir esta fé aos anónimos das nossas aldeias. Talvez por isso iniciativas como o movimento para a Nova Evangelização tenham tanto impacto junto dos cristãos urbanos, pela esperança que trazem de a fé poder ser aquilo que define a identidade de um povo. Mas a dificuldade de transmitir a fé cristã nos subúrbios é evidente, facto comprovável por estatísticas e explicável só com dificuldade.

Como reacção a esta dificuldade de falar de Cristo nas cidades e nos seus subúrbios, a Igreja portuguesa tem sofisticado a sua linguagem. Em Lisboa e no Porto, mas também em cidades como Braga ou Coimbra, é fácil encontrar comunidades onde o tipo de discurso requer uma certa formação intelectual e uma certa sofisticação estética para que possa ser entendido. Em várias cidades portuguesas, a Igreja encontrou um lugar confortável junto de uma classe média não de primeira, mas pelo menos de segunda geração. Uma classe média já cristã, já interessada, já espiritualmente atenta. Este lugar que a Igreja encontrou é apelativo, sobretudo por trazer às nossas Igrejas a juventude que nos subúrbios frequentemente nos falta. Este é um fenómeno novo na vida da Igreja em Portugal: historicamente, eram os simples que enchiam as nossas igrejas. Actualmente, são os sofisticados. O tipo de música, de homilia, de decoração, são nas nossas cidades cada vez mais dos médios e cada vez menos dos simples.

Este fenómeno de distanciamento das massas e de aproximação a uma urbanidade cosmopolita é paradoxal. Curiosamente, a teologia que mais influenciou o Papa Francisco fala da necessidade de não apresentar a mensagem cristã de uma maneira inacessível ao povo. A Teologia do Povo, como movimento especificamente argentino, pede à Igreja que defenda a fé dos que entendem Cristo mais no seu afecto do que na sua razão. O afecto também explica e o afecto também esclarece. O fascínio da Teologia do Povo com as devoções populares nasce daí, neste movimento tão contemporâneo de encontrar nas práticas aquilo que nos educa para a prossecução do bem. E Fátima tem esse potencial de ver as suas práticas a ser educadas para que Cristo possa ser redescoberto. Os Evangelhos são histórias de todos, que não podem ser pregados só para alguns.

Olhar para Fátima é olhar para o que a Igreja costumava ser. Aí vemos a força da fé simples. Mas olhar para Fátima é também olhar para aquilo que a Igreja pode vir a ser: uma Igreja que fala de Cristo com um afecto rigoroso e que esclarece por via da prática. Para a Igreja portuguesa, o desafio do futuro passará em primeiro lugar por redescobrir o valor da simplicidade, de forma a conseguir construir uma linguagem que possa seduzir a suburbanidade. Fátima é um ponto de partida possível para isso. E por isso, Fátima pertence ao futuro — não ao passado.

 

II. Sem educação para a beleza não há futuro

Parte da dificuldade que a Igreja tem tido em atrair a si aqueles que procuram uma fé simples nasce do total falhanço em desenvolver uma estética popular que possa revelar a presença de Deus no mundo através da educação para a beleza. O Papa Bento XVI, que entre artistas desperta frequentemente um misto de admiração e de distanciamento, referia constantemente a importância de usar a beleza para falar de Deus. Com curtas e esporádicas excepções, o Cristianismo ocidental resistiu veementemente a qualquer tipo de iconoclastismo. Daí a desmesurada ambição dos grandes projectos medievais e renascentistas de construir uma catedral onde o Espírito de Deus caiba, ou de pintar a figura angélica que transportará o observador no desejo de viver castamente. A arte é uma obsessão cristã. Por essa razão, o fraco estado da nossa estética popular é especialmente chocante.

Bastam cinco minutos a pé em Fátima para ter vontade de vomitar — esteticamente, não literalmente. Apesar da inegável beleza de alguns elementos isolados presentes no santuário — em especial a notável imagem peregrina de Nossa Senhora guardada na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima — o que se pode ver é feio e vulgar. A estética popular de Fátima é uma estética falsa, enganadora, que não convida à oração e que tira proveito da simplicidade das gentes. É uma estética puramente capitalista, onde se vende qualquer produto que haja interesse em comprar. Não deixa de ser curioso que os nossos clubes de futebol sejam capazes de ter camisolas, cachecóis, estádios, ou posters que galvanizam, ao passo que ao redor de Fátima a quase totalidade da imagética religiosa deprime. Num lugar onde se fala de aparições, dever-se-ia poder aprender a ver melhor.

A vida cristã só é sincera se convidar a uma renovação de vida. A conversão consiste nisso mesmo: em renovar a vida, ou em fazê-la mudar de direcção. O cristão procura incessantemente crescer em humildade, procura aprender a perdoar sinceramente, procura não se deixar aprisionar por nenhum tipo de ídolo que lentamente se transforme num absoluto que tome o lugar que só Deus pode ter. Também a arte cristã tem que levar a um constante desejo de renovação de vida. Não há verdadeira arte cristã que seja estática: mesmo a contemplação do puramente sublime desperta o desejo de dar graças a Deus pela inexplicável atractividade da Criação. Toda a vida cristã é um exercício de aproximação a Deus e a arte cristã tem sempre que servir esse propósito.

Oferecer aos simples uma verdadeira experiência de beleza será um dos desafios do futuro para a Igreja portuguesa. Redescobrir o significado do mecenato das artes e a sua importância para a transmissão da fé parece ser um passo fundamental neste processo de oferecer ao povo um tipo de arte que aproxime de Deus e que ajude a renovar a vida. Um mecenato que leve à produção de uma arte que tenha uma dimensão ritual de longo alcance e que promova um verdadeiro encontro com Deus. A solução, no fundo, não podia ser mais evidente — mas também não podia ser menos portuguesa: é preciso inundar Fátima da beleza que lhe falta. Nas lojas, no Santuário, na imaginação dos peregrinos que lá se dirigem. Se a Igreja portuguesa quer ver em Fátima um lugar onde a conversão é possível, então a beleza é uma ajuda indispensável. Sem beleza, a fé dos simples não encontrará veículo para a expressão do seu afecto.

 

III. A paz é aquilo que nos distinguirá

O que mais impressiona em Fátima é a transparência das gentes. A fé que se vê em Fátima é sincera, é despretensiosa, é tão simples que por vezes parece demasiado simples. Em Fátima, todas as alegrias e todos os sofrimentos encontram expressão. Aí se vê o que é a oração no seu estado mais puro, porque a oração não é senão o desejo de se encontrar com Deus. Que Deus pareça encontrar-se com tanta gente num espaço tão pequeno é um facto assinalável. Por essa razão, a importância de Fátima não se perderá: aquele será sempre o espaço onde os alegres e os aflitos podem encontrar o sossego que procuram.

Mas a fé que em Fátima se vive não é uma fé só de invólucro. A mensagem de Fátima é sempre cristã. Por isso, não chega olhar para Fátima como um lugar onde qualquer tipo de satisfação emocional pode ser alcançada — um lugar onde tudo pode ser dito, onde tudo pode ser pedido, onde tudo pode ser esperado. Como fenómeno de fé cristã, a mensagem de Fátima tem que inspirar a Igreja e o mundo nos seus desejos de construir a paz. E uma paz duradoura, que signifique mais do que a ausência de guerra: uma paz que só pode ser alcançada onde há justiça e uma justiça que chegue a todos. A autobiografia de Dorothy Day explica qual é a paz que em Fátima a Virgem Maria chama o mundo a viver. São dois parágrafos simples, com itálicos acrescentados por mim, escritos no início da década de 1920, que dizem isto:

 

There was a great question in my mind. Why was so much done remedying social evils instead of avoiding them in the first place? There were day nurseries for children, for instance, but why didn’t fathers get enough money to take care of their families so that mothers would not have to go out to work? There were hospitals to take care of the sick and infirm, and of course doctors were doing much to prevent sickness, but what of occupational diseases, and the diseases which came from not enough food for the mother and children? What of the disabled workers who received no compensation but only charity for the remainder of their lives?
Disabled men without arms and legs, blind men, consumptive men, exhausted men with all the manhood drained from them by industrialism; farmers gaunt and harried with debt; mothers weighed down with children at their skirts, in their arms, in their wombs, children ailing and rickety — all this long procession of desperate people called to me. Where were the saints to try and change the social order, not just to minister to the slaves but to do away with slavery?
 

Quando a Igreja fala de paz, este é o desejo: o de viver já no nosso mundo uma ordem nova, que revele aquilo que Deus é. Falar no Reino de Deus é falar no desejo da transformação do nosso mundo, de recriação, de tal modo que a paz possa ser vivida por todos. A utopia cristã, tantas vezes tão desprezada, não pode ser um desejo mais universal. Construir uma ordem social que termine com todos os tipos de escravidão, ou com todos os tipos de dependência e idolatria, é construir o Reino de Deus já aqui na terra. Por essa razão, Fátima tem de assumir cada vez mais na fé dos cristãos um lugar central: os cristãos precisam de rezar pela paz e precisam com os seus gestos concretos de construir um mundo que viva em paz. Aqueles que trazem verdadeira paz ao mundo poderão ser os santos de que Dorothy falava.

Na nossa realidade portuguesa, em particular, construir esta paz que nasce da justiça é desde há muito a grande preocupação da Igreja. A historiografia contemporânea tem tendência a esquecer a invisível contribuição de tantas freiras, de tantos padres, de tantos fiéis cristãos na sua anonimidade, que procuraram com os seus gestos trazer paz ao nosso país — no seu trabalho invisível em escolas, hospitais, orfanatos e tantas outras formas de trazer justiça a quem dela precisava. Mas a Igreja portuguesa não se deve envergonhar da sua história passada e presente como construtora de paz. O que deve fazer, isso sim, é redescobrir como é que este desejo de paz pode ser trazido para a realidade da nossa política, da nossa educação, da nossa justiça. A paz é a grande mensagem de Fátima. Construir no nosso país e no nosso mundo essa paz que termina com todos os tipos de escravidão é aquilo que compete aos cristãos dos nossos dias.

Partilhe:
Facebook, Twitter, Google+.
Leia depois:
Kindle