Era um antigo balneário convertido na sede da Associação de Estudantes, numa escola de uma vila que servia sobretudo gentes de aldeias. Paredes rugosas, com posters mal colados, e sofás amarelos que tinham sido comprados em segunda mão a uma daquelas casas mais ou menos clandestinas onde se faziam matinés ao domingo à tarde. Anos noventa ainda mal medidos numa Associação de Estudantes improvisada onde, numa estante debaixo dos antigos chuveiros, se coleccionava dossiers e jornais, e onde havia uma aparelhagem com leitor de cassetes, sempre pronto para carregar no REC, e um precioso gira-discos.

Quando chegava um disco novo o ritual era metódico: com uma boa corrida conseguíamos gravar uma canção a cada intervalo das aulas, e ao final do dia já tínhamos os lados A e B passados para fita. Era o milagre da desmultiplicação: dois lados do vinil num lado de uma cassete, três contos e picos de um bem escasso passados para duzentos paus que faziam barulho até no Walkman a caminho de casa.

Bem vistas as coisas, era a pirataria quando ninguém sabia que era pirata, aquelas cassetes que enternecem os saudosistas e não passam de amontoados mal gravados e com péssima qualidade que eram ouvidas até gastar a fita. Suspeito mesmo que a cassete, e a capacidade de gravar e repetir a audição das canções de que gostávamos na adolescência e juventude, tenha sido uma das razões que levou essa geração a um autismo musical que ainda hoje se reflecte no consumo em massa de êxitos cristalizados dos anos 80 e 90.

Voltando aos sofás amarelos, era dia de Rock Radioactivo: alguém tinha conseguido um exemplar do disco que prometia transformar os nossos dias e, quem sabe, a nossa vida. Colocar a agulha e ouvir «A Minha Sogra É um Boi» parecia-nos um acto de desobediência civil que, mesmo naquele antigo balneário, nos levava a subir o volume até que alguém batesse à porta. Mas quem se aproximou não bateu e acabou por entrar com um sorriso. Era um professor de matemática estagiário; baixámos o volume com a mesma rapidez com que a irreverência se pode fazer cobardia: «Podem continuar a ouvir à vontade, rapazes. Adoro esse disco. Sabem que no meu programa de rádio tenho passado muito outra do lado B, a “Amor Eterno”.»

De repente, virei a capa do vinil para confirmar o alinhamento e o «Amor Eterno» acabou por se tornar premonitório de uma devoção à música e à rádio que ia começar logo ali, na então Rádio-Escola, e crescer na tal rádio onde o professor Fausto Silva fazia (e ainda faz) o «Santos da Casa» — a Rádio Universidade de Coimbra (RUC).

Ao completar o 12.º ano, as seis opções de curso eram todas para Coimbra e a prioridade era conhecer a RUC e tentar tudo para entrar nos seus estúdios e corredores. Quando fui pela primeira vez a Coimbra, para tratar da inscrição na faculdade, a longa fila de horas à porta da Secretaria foi a desculpa perfeita para poder descer a Rua Padre António Vieira e subir a escadaria da Associação Académica de Coimbra. Quando entramos a medo num espaço que fomos aprendendo a venerar mesmo sem o termos conhecido, o resultado só costuma ser uma confirmação ou uma desilusão. Ali, foi uma superação. Encontrar pessoas como o António e o Braga a discorrerem sobre nomes de que eu nunca tinha ouvido falar com uma paixão inabalável ia provar-me que a rádio não é um bichinho, é uma necessidade de aprender primeiro e transmitir depois, de jogar permanentemente ao «toma lá, dá cá» com o que mais gostamos: a música. De nos tornarmos veículos. Mas o final de 1996 e início de 1997 era um ano lectivo atípico na Rádio Universidade e, pela primeira vez em alguns anos, não haveria cursos de programação para novos estagiários.

Passei meses a gravar cassetes com planos de alinhamentos por auto-recreação e a entregá-las à Direcção da RUC, até que a insistência e a evolução deram frutos e, no ano seguinte, conseguia aquele horário da típica e boémia quinta-feira entre a uma e as três da manhã. Aquele horário aparentemente pouco radiofónico acabou por ser uma porta para um envolvimento apaixonado à melhor escola que alguma vez podia ter encontrado.

Na verdade, a Rádio Universidade de Coimbra foi muito mais do que uma ocupação extracurricular e assumiu-se como principal formadora e potenciadora de quase tudo o que encontrei nos anos seguintes.

Com um curso de Direito que aparentemente ficou ligado à máquina assim que acabou o período de estágio e se fizeram os exames da Ordem, os vários passos que se seguiram, no sector empresarial ou associativo, têm bases sólidas nas vivências de uma instituição que se supera constantemente, embora a sua organização subsista no limiar da anarquia.

Mais de cem pessoas a tentarem fazer o que lhes dá mais prazer de uma forma que se pretende organizada e profissional pode parecer um mito, mas existe. A RUC era (e provavelmente ainda é) assim. Não há impossíveis quando estamos todos a fazer o que mais gostamos e, desde a gestão corrente à constante reinvenção da programação, passando pelas produções ocasionais, todos os dias havia desafios novos que era preciso mostrar que conseguíamos superar.

Por muito que a tecnologia evolua, e por muitas aplicações e sistemas de organização que se criem, a concretização de uma filosofia com a organização do trabalho em equipa e a gestão de temperamentos e vontades vão continuar a ser os pilares da evolução de qualquer instituição.  

E, com a batuta bem segura no «Podemos fazer o que os outros não podem e/ou não querem», crescemos a dar voltas à procura do nosso ritmo e das nossas notas. Não deixa de ser incrível que, ao longo de meia dúzia de anos passados na Lusa Atenas, possa ter assistido aos últimos anos dos Tédio Boys, às noites na cave das químicas e na States, ao aparecimento de todo o movimento que nos deu os Belle Chase Hotel, os Wraygunn, Bunnyranch, Legendary Tigerman ou os Tu Metes Nojo, os palcos secundários das queimas das fitas, concertos únicos no TAGV (Teatro Académico Gil Vicente) ou no Le Son e festivais como o Coimbra em Blues.

Foi naqueles corredores, e nas salas da técnica e dos discos, que se começaram a criar projectos como Sean Riley & The Slowriders ou Sensible Soccers. Foi ali que se fizeram concertos num estreito corredor ou se tentou bater o recorde do Guinness com o Braga a fazer 70 horas contínuas de emissão.   

Nas fileiras da Rádio Universidade de Coimbra estava um grupo de gente absolutamente brilhante que hoje, espalhada pelo mundo, continua a mostrar a fibra e a valência de uma geração que era tudo menos rasca. Desde cientistas premiados a directores de meios de comunicação, desde artistas consagrados a empresários, a maioria da geração RUC subiu a pulso e provou que a meritocracia não é um termo académico.

Nos anos em que a Internet se reduzia aos canais de chat e a fazer ping de quando em vez para confirmar se mais alguém usava e-mail, fomos aprendendo a procurar, a produzir e a comunicar. E a sermos o que queríamos ser. Nós.

A relação entre a evolução e a revolução é sempre difícil de descrever, intensa de experienciar e morosa de avaliar. Com o advento da Internet, entrámos num estágio sem comparação na história. Passar o início dessa fase num meio de comunicação, e rodeado de pessoas em constante combustão criativa, foi uma dádiva. 

Saber pensar e saber comunicar em plena Revolução Digital pode ser um bálsamo que nos permite o acesso e a partilha de tudo a todos, mas também pode ter um efeito castrador. É talvez por isso mesmo que aumenta a responsabilidade de quem viveu e cresceu sem www para poder passar o testemunho de que a forma como conseguimos pensar e comunicar são mais importantes que qualquer conjunto de links e de aplicações.

A minha ideia de que a única limitação que temos são as ideias teve na RUC um laboratório por excelência, e influenciou decisivamente a grande maioria daqueles que por ali passaram.

Entre os slogans «Uma escola para a vida» e «Todos os que se passam, passam-se na RUC», aprendemos da melhor forma a ficar «sempre no ar».

Quando mais tarde se entra para uma associação cultural como a FADE IN, se começa uma empresa como a TTO (Tratamentos Térmicos do Oeste), quando se arranca com um projecto de uma editora como a Omnichord Records, ou quando se cria um gabinete de exportação musical como a Why Portugal, sente-se que, sem a RUC, provavelmente os meus dias de hoje não teriam metade da piada nem da agitação. E isso, não há nenhum curso que nos dê.  

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