O que torna um filme cómico é certas pessoas (o realizador, os actores) fazerem coisas cómicas; e o que torna um filme azul é certas coisas (objectos filmados, a emulsão da película, a iluminação) serem azuis. Um filme religioso não é no entanto o resultado de certas pessoas fazerem coisas religiosas; ou de certos objectos terem a propriedade de ser religiosos. Fátima, de João Canijo, não é, apesar do título, um filme religioso. Um filme que se passe em Fátima não é necessariamente um filme religioso. Posso fazer um filme religioso passado num submarino ou num circo; e posso fazer um filme religioso usando um burro, que ninguém consideraria um objecto religioso.

A maior parte das pessoas, no entanto, concordaria trivialmente que Fátima é um filme sobre religião, ou melhor, um filme em que certas pessoas fazem coisas que pessoas religiosas fazem. Pessoas religiosas fazem coisas como: dizer certas coisas; ir a certos sítios; fazer certos gestos. Qualquer actor aprende a fazer essas coisas numa escola de actores, exactamente como aprende a fazer de dama antiga ou de almirante. Os realizadores dizem aos actores coisas como: «Faz-me uma cara muito religiosa»; ou: «Entra-me nessa igreja». Um filme sobre religião depende por isso essencialmente dos seus actores, e de eles saberem fazerem essas coisas.

Os actores de Fátima são sobretudo actrizes. Quase todas as actrizes principais do filme se caracterizam por saber muito bem fazer certas coisas; e coisas que a maioria de nós associa a coisas religiosas. Conseguem rezar a Avé Maria, blasfemar, andar a pé pelas estradas, zangar-se e fazer as pazes umas com as outras. Pode argumentar-se que isso é o que acontece ao resto de nós, mas evidentemente há uma diferença: os actores não fazem as pazes uns com os outros; fazem a cara de quem está a fazer as pazes; fazem os barulhos característicos de quem reza a Avé Maria; fazem movimentos característicos de peregrinos em movimento.

Na escola de actores ou na escola de realizadores eu posso aprender a imitar certas coisas; e fazê-lo muito bem. Posso porém adquirir crenças religiosas nessas escolas? Não decerto porque o queira ou quando o queira; mas posso, se quiser, aprender a fazer cara de quem as tem. E como é que sei que uma pessoa que faz cara de crença religiosa tem uma crença religiosa? Na peça conhecida de Molière, o herói é alguém que faz cara de crenças religiosas e nós sabemos que não tem nenhuma dessas crenças; mas como o herói é um actor, é alguém que pode ou não ter uma crença a fazer de quem tem uma crença de modo a que todos percebam que não tem crença nenhuma. O filme de João Canijo é mais simples: é feito por actrizes que podem ou não ter crenças religiosas a fazer cara de crença, de modo a que todos concordem que alguma coisa deverão ter. Mas exactamente o quê? E exactamente quem?

Tão interessante como o filme, e tão parecido com o filme, é por isso aquilo que o realizador e as actrizes dizem sobre o filme. Por exemplo, o realizador declarou que as actrizes, e ele próprio, se prepararam para fazer o filme andando a pé como os peregrinos fazem: «As nove actrizes que fazem a peregrinação (. . .) tinham de documentar a “romaria”. Com as novas tecnologias foi mais fácil. Elas iam duas a duas integradas em cinco grupos de peregrinos reais, em Maio e Outubro [de 2015], porque se juntasse mais que duas não iriam interagir com os restantes elementos, ou então seria uma interacção muito mais circunscrita. Daí fiquei com as notas e ia transcrevendo os diários e, no fim de cada peregrinação real, reuníamos para resumir e sintetizar e acrescentar as coisas que podiam ter escapado.»[1]  A actriz Anabela Moreira foi uma dessas actrizes. Observou que fez o que fez «só para o João poder saber o que era uma peregrinação e para nós todas também sabermos o que era. Porque só quem vive este percurso tão gigante, tão louco, só quem o conhece, é que pode falar dele com propriedade. Até podes observar de fora, mas nunca vais entender.»[2]  E pelo menos outra actriz, Rita Blanco, declarou que «este filme serviu-me, espiritualmente, para pensar o meu processo de trabalho com o João [Canijo]. (. . .) Era isto que eu levava dentro da cabeça enquanto caminhava».[3]

Deixando de lado a questão de saber se não será injusto descrever atitudes gerais de pessoas a partir destas poucas declarações (e talvez seja), quer o que o realizador diz que queria, quer o que as actrizes dizem que fizeram ajuda a perceber o que todos eles acham que estiveram a fazer. O realizador terá pedido às actrizes que fossem «documentar a “romaria”», usando «as novas tecnologias». Para isso integrou-as em grupos de «peregrinos reais». A distinção entre peregrino real e actriz-a-documentar-a-romaria é uma distinção que só pode ser feita por alguém para quem o valor da religião é sobretudo documental; e para quem a função dos documentos é o de permitirem a certas pessoas fazer gestos e dizer coisas características de «peregrinos reais.». O realizador acha que o filme consiste na descrição daquilo que certas pessoas fazem; embora para isso tenha tido que arranjar pessoas que lhe fizessem essas coisas.

Quanto à segunda actriz, enquanto fazia os movimentos que terá visto os peregrinos fazer, ou que o realizador lhe disse para fazer, pensava «[n]o [s]eu processo de trabalho com o João». Pensar no seu processo de trabalho com «o João» é para si uma actividade espiritual; o filme serviu-lhe para exercer essa actividade. No seu espírito a ideia de espírito coincide com o seu trabalho e com a sua profissão, com aquilo que faz. O seu trabalho é neste filme aquilo que «o João» lhe disse que fizesse, ou que ele esperava que ela fizesse.

Ambas as actrizes acreditam, embora de modos diferentes, que aquilo que fizeram fez acontecer certas coisas: acreditam que a sua peregrinação não-real teve efeitos espirituais. No entanto, quer as actrizes quer o realizador declaram também francamente não ter convicções religiosas e, pelo menos num caso, ter a convicção de que todas as convicções religiosas são falsas. Não fazem troça dessas convicções, mas também não conseguiriam fazê-lo. Para fazer troça de uma convicção seria preciso saber imitá-la: mas, sendo possível imitar a cara de quem tem uma convicção, não é possível imitar uma convicção. Será que é por essa razão que respeitam as convicções que não têm? E será possível respeitar uma coisa que não se consegue imitar? A questão tem algum interesse filosófico, mas felizmente não precisa de ser considerada. Pelo contrário, a imagem que prevalece das declarações sobre o filme é a de que ninguém tem crenças religiosas mas todos parecem ter um certo medo, ou uma certa pena, de não as ter. Mas medo de quê, se essas crenças são falsas? E pena porquê?

Há várias maneiras de descrever actividades que normalmente não praticamos e pensamentos que normalmente não temos, isto é, as crenças que não nos ocorre entreter. Uma é transformarmo-las em sociologia, antropologia ou história, quer dizer, em descrições daquilo que as outras pessoas fazem. Nessa altura as nossas descrições serão documentários. Desse ponto de vista não há qualquer diferença entre um documentário com «peregrinos reais» e um documentário com actrizes a fazer de peregrinos reais, porque a atitude de quem filma e de quem é filmado é sempre a de descrever e imitar actividades que não pratica. Não adianta por isso, como faz a primeira actriz, reclamar um privilégio cognitivo que poderia vir de se ter visto peregrinos entretidos nas suas actividades.

Um documentário, com efeito, não nos diz nada sobre aquilo de que fala; mas mostra-nos sempre aquilo que nunca passou pela cabeça de quem o fez. Um bom exemplo disso é o que dizem as actrizes sobre o seu trabalho: que causou a ocorrência de sentimentos e opiniões, nomeadamente sobre religião; é a isso que chamam ter uma experiência «espiritual». A maneira de descrever os pensamentos religiosos que não temos é descrever os pensamentos que temos como sentimentos, experiências ou opiniões; e portanto de transformar as crenças religiosas em ocorrências psicológicas ou mentais; transformar a religião em experiência espiritual.[4] Para as duas actrizes, o que se passou com elas é de natureza psicológica.

Embora não seja um filme religioso, e especialmente porque não é um filme religioso, Fátima é uma imagem muito exacta daquilo que a religião é para quem não é religioso: a descrição de um conjunto de práticas características e de ocorrências mentais com efeitos benéficos e valor documental. Desse ponto de vista, o filme é um sintoma de um entendimento sociológico, histórico, antropológico e psicológico da religião. É todavia errado pensar que só tem este entendimento quem não se considera religioso. Referindo-se a Fátima, um bispo católico recentemente declarou que as visões dos pastores de Fátima «são fenómenos psicológicos naturais».[5] João Canijo e as suas actrizes não o teriam posto melhor.

 

[1] João Canijo a Ana Pina, «Confissões do realizador de Fátima». Diário Económico, 26 de Abril, 2017.

[2] Anabela Moreira a Bernardo Mendonça, «Este filme foi a maior loucura que todas nós actrizes fizemos por um realizador». Expresso online, 27 de Abril, 2017.

[3] Rita Blanco a Inês Lourenço,«Gosto muito de interpretar mulheres portuguesas. É qualquer coisa que me comove». Diário de Notícias, 26 de Abril, 2017.

[4] Anabela Moreira, idem: «Desenvolvi o meu próprio sistema de crença. Acredito que de facto não somos só o corpo.»

[5] D. Carlos Azevedo a Rosa Pedroso Lima, «Nossa Senhora não aprendeu português para falar com Lúcia». Expresso online, 25 de Abril, 2017. 

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