O Século, edição de 15 de Outubro de 1917.

O Século, edição de 15 de Outubro de 1917.

«Coisas espantosas! — Como o sol bailou ao meio dia em Fátima.» Foi este o título emotivo e perplexo da terceira grande notícia do dia, com direito a foto. Destoa na capa sóbria e recatada d’O Século daquela segunda-feira, dia 15 de Outubro de 1917. Apesar de a edição não tratar de assuntos que apressadamente pudéssemos chamar banais, o facto é que, sem emoção nem perplexidade, despachava a guerra mundial em curso com um seco «Alemães e austríacos — O Papa Benedito XV vae falar sobre a guerra», e até mais parece bocejar ao escrever «As eleições suplementares de hontem — Foram eleitos os candidatos democraticos srs. Henrique de Vilhena, deputado, e Lima Aires, senado». Só aquela notícia tinha ponto de exclamação, boquiaberta.

Avelino de Almeida, o jornalista autor da peça, escreveu-a com base nos factos que presenciou no lugar e na hora do dia 13 de Outubro em que ocorreram. Mais tarde, na revista Illustração Portugueza do dia 29 de Outubro de 1917, editada também pel’O Século, publicou uma reportagem extensa e amplamente ilustrada com imagens dos factos. E rematou assim:

 

e, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacifica multidão animada pela mesma obcessiva idéa e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei — disco de prata fosca — em pleno zenith aparecer e começar dançando n’um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superfície solar... Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sabios? Não curo agora de sabel’o, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciencia e com a Egreja...

 

O estranho evento ocorreu «á hora prenunciada». Com efeito, as três crianças andavam a repetir que naquele dia e àquela hora alguma coisa iria acontecer para todos verem. Alguma coisa que mostrasse que, se elas andavam a dizer que alguém do céu lhes tinha vindo propor que pedissem a todos para regressar a Deus e, com isso, obter a paz exterior e interior, não era por gostarem de inventar fantasias para provocar os adultos. A promessa dessa espécie de sinal, fosse lá o que fosse, espalhou-se e explica a agitação. Daí a presença da multidão, e daí a presença do jornalista.

Fátima é um facto ou um conjunto de factos reais observáveis. Tem impacto no mundo mediático, não nasce como uma ficção criada nos laboratórios da ficção. Nasce no meio de interrogatórios, agitação, dúvidas, indignação, protestos, aglomerações, pressões, desdém. É uma notícia que entra na secção «sociedade» antes de entrar na secção «política» ou até «religião».

De Maio a Outubro de 1917 as crianças, que tinham entre sete e dez anos de idade, foram cada vez mais frequentemente convocadas para interrogatórios, tanto de autoridades civis e religiosas como de curiosos. Muitos desses interrogatórios foram transcritos e constituem uma fonte fundamental para reconstruir o que as crianças afirmavam. Contavam o que lhes foi dito, porque achavam que tinham recebido uma mensagem que era para passar e não para esconder: o regresso a Deus, fazer o bem e deixar de fazer o mal, relacionar-se com Deus, pedir a Deus a paz. Com uma excepção: só não contaram o que viram e ouviram no encontro do mês de Julho. Foi-lhes pedido para guardarem reserva. A isso depois se chamou «o segredo», que só foi desvelado por completo no ano 2000, e que tinha três partes: a visão do inferno, a devoção e a consagração do mundo ao imaculado coração de Maria, e a perseguição e martírio dos cristãos.

Não é preciso grande esforço para imaginar como seria difícil uma criança sujeitar-se e resistir a uma pressão tão grande, nem como seria estranho estarem dispostas a pagar um preço pessoal tão alto para defenderem um testemunho falso. Tanto mais que, no caso de Lúcia, a única interlocutora directa dos diálogos durante os encontros com a senhora do Céu, era a mãe quem mais a desacreditava, e hora a hora.

Além do depoimento dos três jovens pastores prestado na altura, são fontes para o conhecimento dos factos uma série de textos posteriores de Lúcia. Em 1922 escreve um primeiro relato do que aconteceu. Depois fará relatos mais longos, as «memórias» distribuídas em seis partes, escritas entre Dezembro de 1935 e Março de 1992, com a descrição das aparições, tanto do anjo de Portugal como da Senhora (2.ª e 4.ª), e as recordações de Jacinta (1.ª), de Francisco (4.ª), do pai (5.ª) e da mãe (6.ª). A terceira memória, datada de Agosto de 1941, regista duas das três partes reservadas do que foi dito e ouvido em Julho de 1917 — o segredo.

Não é este o lugar para entrar em detalhes, embora seja de interesse referir que as crianças anunciaram, com antecipação, os dias em que as aparições posteriores iriam decorrer, a morte próxima de Francisco e Jacinta, uma vida longa para Lúcia, a eleição futura do papa Pio XI, a previsão para o dia 13 de Outubro de um sinal visível, a previsão de uma luz desconhecida anunciadora de uma nova guerra mundial (que muitos associam ao fenómeno atmosférico ocorrido de 25 para 26 de Janeiro de 1938 e que foi visível em Portugal e na Europa), a previsão dessa nova guerra mundial, o anúncio de uma expansão da Rússia e da sua visão do mundo.

Chegados aqui, é altura de deter a prosa e perguntar: mas será que faz algum sentido admitir que tais coisas possam ter acontecido? A pergunta é legítima, mas para começar a resposta devia manter-se aberta à observação do que aconteceu, ou pelo menos atender àquilo que pessoas improváveis como Avelino de Almeida afirmam ter visto. Mas continuemos a perguntar: não seria melhor conformar-nos com respeitar as crenças, e as pessoas que as aceitam, já que são tão gratas a quem nelas se revê, mas sem nos apressarmos irresponsavelmente a aceitá-las como reais?; não deveríamos, em pleno século XXI, concordar que o mundo do sobrenatural, se não houver uma qualquer explicação científica e psicológica que o desmonte, não pode, mesmo assim, ser algo mais que fantasias de uma mentalidade infantil e crédula que apenas nos cabe eventualmente tolerar?

Fátima faz reaparecer estas questões. A mensagem de Fátima diz que há um Deus preocupado com os homens, que está desgastado com o seu comportamento desviado (em Outubro, a Senhora disse a Lúcia: «não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido»), mas que não desiste deles, de lhes querer bem, nesta terra e numa premeditada vida futura, e para isso procura gente de boa vontade, a começar pelos pequeninos, que livremente se queira associar na tarefa de reendireitar os caminhos modernos.

Será ainda admissível pensar que isto possa ser assim? Haverá razões para pensar que tudo isto possa ser mais que uma versão actualizada dos contos de Grimm?

Aparentemente, do lado dos crentes católicos encontramos uma desvalorização destes eventos, pois já todos teremos ouvido católicos dizerem que fenómenos como o de Fátima não precisam de ser aceites para a pessoa viver confortável e legitimamente a sua fé. E é mesmo assim, pois os católicos estão convencidos de que tudo o que de importante Deus tinha para dizer aos homens disse-o com Jesus Cristo e nenhuma comunicação posterior terá realmente acrescentado alguma coisa de relevante.

Só que essa posição, que esclarece o lugar de Fátima na vida dos crentes, não diminui a força dessas perguntas se as dirigirmos, já não às aparições de Maria em Portugal, mas ao coração da tradição cristã. Essa tradição pode resumir-se assim: Deus criou o mundo e o homem, e fê-lo por bem e para o nosso bem. Abriu-se à relação com os homens: a oração não é apenas uma homenagem unívoca da criatura ao criador, mas deve ser uma relação, com falas cruzadas entre as partes. Esse plano só não foi cumprido plenamente porque o homem rejeitou-o de uma forma que não conhecemos em detalhe, e que abalou a harmonia inicial substituindo-a pelo desarranjo que experimentamos na vida diária: limitações e erros, injustiças sofridas e cometidas, amores fracassados ou traídos, rejeição do outro, obscurecimento de Deus, e por aí adiante. Mas Deus não desistiu dos homens, e não se conformou com esse estado. Contra todos os prognósticos humanos, resolveu fazer-se homem em Jesus Cristo. Viveu uns trinta anos na terra, foi admirado e seguido, fundou um povo novo, o dos seus seguidores, e prometeu uma vida futura que fosse eterna, sem defeito, reunindo todos os que querem aceitar Deus. Confessou que ele mesmo era Deus, e isso escandalizou e custou-lhe a morte, que aceitou voluntariamente. Morreu com a intenção de carregar em si os sofrimentos de todos os homens de todos os tempos para que chegasse um momento em que os homens nunca mais sofressem. Ressuscitou três dias depois da morte, semanas depois ausentou-se até um regresso que se espera. Então refundará este mundo em que, num novo estado da matéria, viveremos novamente em corpo junto de Deus bom e sem morte nem dor.

O Papa Francisco resumiu tudo isso numa ideia principal que o discurso cristão nunca deve omitir nem secundarizar: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar.»

Esta é a narrativa essencial cristã. A narrativa de Fátima situa-se em pleno dentro dela e replica alguns dos seus grandes pontos. Olhando para uma e para outra, vê-se que aquelas grandes questões sobre Fátima são afinal as grandes questões que a narrativa cristã levanta, e que podemos resumir assim: que sentido faz a fé religiosa nos tempos modernos?

Os últimos séculos olharam com espanto para como a ciência experimental construiu êxito após êxito numa caminhada triunfal que não tem fim à vista. A descoberta da linguagem física e matemática da realidade fez desvendar inúmeros segredos cuja explicação tínhamos entregado durante milénios às religiões e deu-nos, além do conhecimento, um domínio surpreendente sobre a realidade. As criações da técnica, desde as mais simples às mais sofisticadas, são uma prova irrefutável e constante da força humana, e consolidaram uma convicção mais ou menos subliminar de que, se nos derem tempo e nos deixarem trabalhar, os problemas que a técnica ainda não resolveu acabará mais tarde ou mais cedo por resolver. A razão humana, se lhe derem liberdade — pensamos todos, pelo menos de modo inconsciente —, é uma força de bem que tem capacidade para construir soluções de bem. A fé neste progresso linear e crescente faz com que o futuro nos apareça habitualmente de rosto risonho e as soluções do passado venham já fora do prazo de validade. Neste universo mental, o conhecimento que vale é o experimental, e passa a considerar-se não como conhecimento, mas mera leitura subjectiva da realidade, qualquer afirmação que seja insusceptível de ser cientificamente testada. Assim, as grandes perguntas sobre a vida, o seu sentido, o bem e o mal, são consideradas perguntas que nunca poderão ter uma resposta que seja válida para todos, da qual se possa dizer que é em si mesma verdadeira ou falsa. Já só pedimos que seja uma afirmação genuína (ou seja, válida para aquele que afirma), ou que seja tolerante em função do que é comummente aceite num espaço cultural (e aparece o politicamente correcto). A fé vista como verdade comum a partilhar deixa de fazer sentido, assim como perdem a categoria de modo de acesso à realidade todos os exercícios intelectuais próprios da filosofia e das «humanidades».

Este longo processo cultural, que parece não ter terminado, não nos torna, contudo, cegos aos problemas que a técnica tem criado ao serviço de sistemas de opressão e violência, ao facilitar os poderes que não se cansam de apertar o controlo de cada gesto de cada cidadão, numa cada vez maior constrição da liberdade. Ao mesmo tempo, a saturação tecnológica em que as pessoas optaram por viver está a deixar cada vez mais a descoberto o preço de não se ter resposta a essas perguntas sobre a realidade a que a ciência experimental nunca poderá responder.

Não se pode deixar de reconhecer que as questões sobre Deus, o sentido da existência e o além são questões difíceis e que a sua abordagem nunca terá aquela nitidez da demonstração matemática. Os filósofos de todos os tempos não parecem, aliás, ter tido essa pretensão. Mas não desistiram da questão da verdade, ainda que os caminhos para ela sejam sinuosos e sempre necessitados de revisão.

A questão de Deus é uma das questões que seria preciso não desistir de manter em aberto, e as tentativas de respostas merecem ser seguidas com interesse. Tanto mais que, se Deus for o que dele se diz no cristianismo, abrir-se a Deus pode ser determinante para o homem ir buscar luz e força para fazer o que é bom e verdadeiro.

Em 2011, nas vésperas de ir à Alemanha, Bento XVI improvisou uma vídeo-mensagem. Consciente de que a Alemanha é um país em que 35% das pessoas não têm qualquer religião, e os que se consideram crentes têm uma muito baixa prática religiosa, Bento XVI encara de frente a questão essencial sobre Deus a propósito do tema da viagem: «Onde estiver Deus, aí há futuro». Dizia:

 

devemos procurar que Deus regresse ao nosso horizonte, esse Deus tão frequentemente ausente, e de quem, no entanto, precisamos tanto. Talvez me perguntem: «Mas Deus existe? E se existe, ocupa-se de nós de verdade? Podemos nós chegar até Ele?» Sim, é verdade que não podemos pôr Deus em cima da mesa, não O podemos tocar como fazemos com um utensílio, ou pegar Nele com a mão como fazemos com qualquer objecto. Temos de voltar a desenvolver a capacidade de percepção de Deus, capacidade que existe em nós. Podemos intuir algo da grandeza de Deus na grandeza do cosmos. Podemos utilizar o mundo através da técnica, porque está construído de maneira racional. Na grande racionalidade do mundo podemos intuir o espírito do Criador, de quem provém; e na beleza da criação podemos intuir algo da beleza, da grandeza e também da bondade de Deus. Nas palavras das Escrituras podemos escutar palavras de vida eterna que não vêm simplesmente dos homens, mas vêm Dele, e nelas escutamos a Sua voz. E, finalmente, quase que vemos Deus também no encontro com as pessoas que foram tocadas por Ele. Não penso só nos grandes: de Paulo à Madre Teresa passando por Francisco de Assis, mas penso em tantas pessoas simples de quem ninguém fala. No entanto, quando nos encontramos com eles, emana deles um não sei quê de bondade, de sinceridade, de alegria, e sabemos que aí está Deus e que Ele nos toca também a nós. Por isso, nestes dias queremos empenhar-nos em voltar a ver Deus, para voltarmos nós mesmos a ser pessoas através de quem entre no mundo uma luz de esperança, que é luz que vem de Deus e que nos ajuda a viver.

 

Francisco, o pastor de nove anos apenas, certo dia confidenciou à prima Lúcia: «gostei muito de ver o anjo, mas gostei ainda mais de Nossa Senhora. Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!» Fátima é Deus a dizer «come back home».

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