Já por várias vezes teve morte anunciada, mas a realidade é que a Rádio sempre teve a capacidade de se reinventar e de se adaptar às novas circunstâncias.

A principal ameaça terá surgido porventura com a chegada da Televisão mas, em 1981, um projecto inovador, a MTV, intrometia-se objectivamente num domínio reservado à Rádio. Este canal novo estreava a sua emissão com «Video Killed the Radio Star», tema celebrizado pelos The Buggles. Provocação? Constatação de facto? Inevitabilidade histórica? A música acompanhada de imagem seria o golpe derradeiro? Afinal não. Mais uma vez, as notícias sobre a morte da Rádio eram manifestamente exageradas.

Mas é inquestionável, são vários os desafios que continua a ter de enfrentar. Tal como a maioria dos média clássicos, a Rádio tem de lidar com novas formas de consumo, novos hábitos, novos concorrentes.

Sem pretender ser exaustivo, é possível elencar alguns pontos que concorrem para alterar a sua natureza ou questionar o seu enquadramento e posicionamento.

Desde logo, a sua eventual fragilidade perante os meios de natureza visual. Nos tempos que correm, o apelo da imagem é muito forte e, pelo menos para alguns, essa realidade acarreta uma desvantagem para a Rádio. Por alguma razão, são cada vez mais frequentes os vídeos feitos a partir de estúdios de Rádio, como se de um sucedâneo da Televisão se tratasse.

A Rádio começou por ser um meio «efémero, fugaz, volátil, imediato, instantâneo, irrepetível, de fluxo contínuo, um meio do presente com linguagem no presente, o meio de informação do aqui e agora, do directo» (Reis, p. 13). Mas, se analisarmos em detalhe estas características, facilmente reconhecemos que actualmente a Rádio é isto, mas que também poderá ser o oposto. A noção de temporalidade, por exemplo, foi totalmente alterada com a digitalização e posterior armazenamento de conteúdos sonoros: o momento do locutor não é necessariamente o do ouvinte. Os podcasts introduziram a fragmentação onde antes havia continuidade. A transmissão na Internet, em paralelo ou complementarmente à hertziana, abre espaço a novos públicos. Por outro lado, a imediatez característica da Rádio deixou de lhe ser exclusiva, já que a Internet conferiu essa capacidade a outros média. Por exemplo, é frequente o recurso a directos no Facebook, realizados por órgãos de comunicação social que integram esse expediente na sua rotina, dada a simplicidade de meios técnicos exigida.

Há mais factores que contribuem para o abalo deste edifício. As plataformas de disponibilização de música para audição em streaming têm conquistado adeptos, principalmente entre os jovens. Uma série de novas funcionalidades, aliadas à desmaterialização da música, tornam estas novas estruturas bastante atractivas para quem consome música. Para além dessa tendência actual, importa igualmente analisar o impacto que estes novos hábitos terão nas audiências a médio e longo prazo.

E o estatuto da Rádio, enquanto legitimador de qualidade, é posto em causa? Um jovem músico que acabou de editar o seu primeiro disco sente algo de especial em ouvir a sua música pela primeira vez no éter? É provável que seja tão ou mais relevante ler uma recensão num blogue ou receber uma centena de «gostos» na sua página de Facebook após disponibilizar a sua música nova no SoundCloud.

Incontornável nesta discussão é também a tendente concentração de estações por grupos económicos. Este caso é ainda mais grave quando assistimos à aquisição, ou pelo menos ao direito de uso, de frequências locais. Significa isto que muitas rádios locais se tornam meros retransmissores das emissões nacionais.

Sem me querer alongar muito nesta questão, dado o seu carácter demasiadamente complexo, importa no entanto ressaltar alguns pontos que considero importantes. O primeiro aponta para o esvaziamento da programação destas emissoras locais de qualquer conteúdo respeitante ao seu meio de origem. Do ponto de vista jornalístico, as rádios locais contribuíram «para o exercício de um jornalismo de proximidade, trazendo para o cenário radiofónico um olhar sobre os pequenos problemas locais das populações, bem como novos protagonistas que eram frequentemente esquecidos pelas principais rádios do país» (Bonixe), algo que paulatinamente tem vindo a desaparecer.

Por outro lado, esta aglomeração é uma grave ameaça à riqueza e à diversidade de conteúdos da Rádio. Uma uniformização da programação é também evidente em algumas rádios nacionais, patente nas estafadas playlists que repetem músicas várias vezes ao dia ou nos omnipresentes programas de humor, que reforçam o papel da Rádio enquanto mero meio de entretenimento, desvalorizando o seu papel formador e informador.

Estes são apenas alguns dos desafios que se deparam à Rádio enquanto meio de comunicação. Reafirmo que não é meu objectivo a enumeração e análise exaustivas destes desafios e/ou oportunidades que se colocam à Rádio, antes a chamada de atenção para pontos que considero relevantes. Porque convém perceber que relevância merecem estas questões para quem diariamente faz Rádio: que influência têm no seu trabalho quotidiano? Recorrendo ao meu exemplo e à minha prática, estes são aspectos tidos em linha de conta nas várias funções que desempenho.

Na emissão diária que medeia entre as 8 e as 20 horas, designada de programas de faixa ou de continuidade em contraponto aos chamados programas de autor, a presença do locutor/animador assume um carácter mais impessoal ou, pelo menos, a marca autoral está mais diluída. São espaços principalmente preenchidos com programação musical, com a presença de rubricas sobre temas vários — ambiente, tecnologia, cinema, saúde, sugestões de livros, crítica musical ou apontamentos históricos. Esse esvaziamento autoral torna-se mais flagrante em estações onde exista um sistema fechado de playlist, ou seja, onde as opções musicais estão condicionadas a uma lista pré-existente que reduz as escolhas do locutor. A playlist acaba por subverter a essência da Rádio, anula o lado humano, automatiza aquilo que é suposto ser genuíno. E o mais estranho é que ao ouvirmos certas emissões, o próprio elemento humano, a voz, surge pouco natural, sem enganos ou hesitações e num estado de quase euforia. Naturalmente que não me revejo neste modo de comunicar/entreter. Concebo a Rádio como meio de descoberta, de apelo à curiosidade, é aí que reside o seu fascínio e riqueza. É dessa forma que gosto de a ouvir e de a fazer.

Enquanto elemento com contributos na definição da linha editorial da estação à qual estou ligado, tenho também tido a preocupação de dar visibilidade e apoio a projectos de comunicação divergentes, seja através de produção externa como «Rádio Aurora — A Outra Voz», um programa feito a partir do Hospital Júlio de Matos, seja com produção própria de programas e rubricas que criem algo de novo e distinto. Só assim a Rádio se consegue afirmar enquanto meio de comunicação, através de conteúdos formativos e informativos diferentes.

Assim, desenvolvo desde 2011, numa parceria com António Ferreira, uma rubrica intitulada «Leitura em Dia», que consiste numa sugestão literária por dia. Com especial incidência no romance, apresenta igualmente literatura infantil e juvenil, ensaios e alguma poesia. Além da abrangência de géneros, é preocupação central dos responsáveis incluir editoras e autores com menor presença no espaço mediático.

Esta rubrica surge na sequência de outro programa, também dedicado aos escritores e à literatura: «Livros com RUM». Este espaço semanal de uma hora arrancou em 2005 e na sua génese contou, para além de mim e do António Ferreira, com a Marie Silva, que abandonou o projecto volvido cerca de um ano. Começou por ser um programa de entrevistas a escritores, acompanhadas de música alusiva ao tema falado, com sugestões literárias e um destaque mais alargado a um livro. O programa foi sofrendo algumas mutações e acabou por assumir um carácter de grande entrevista, passando as sugestões a ser apresentadas na já referida rubrica diária.

Mais recentemente, há cerca de um ano, iniciei uma colaboração num outro espaço semanal, o «(In)Confidências». Trata-se de uma rubrica de duração variável — entre os quatro e os sete minutos — onde se fala de uma pessoa numa dimensão mais íntima ou num aspecto singular da sua obra. Aliás, dada a natureza da rubrica, seria impossível uma apresentação exaustiva da pessoa em causa; o objectivo prende-se mais com a evidência de aspectos menos conhecidos ou pequenas particularidades. Mais do que retratar, a ideia passa por dar pequenas indicações e estimular a curiosidade para descobrir mais sobre a pessoa e o seu trabalho criativo. Lou Andreas-Salomé, Chavela Vargas, Ruy Belo ou Luna Andermatt são apenas alguns dos autores que passaram por esta rubrica, que, a meu ver, apresenta um enorme potencial de exploração e de enriquecimento sonoro.

Tenho centrado grande parte deste texto em pontos que constituem ameaças à sobrevivência da Rádio, mas é inegável que os avanços tecnológicos trazem novas oportunidades, novos ouvintes, facilitam o arquivamento e a partilha de conteúdos sonoros. As ferramentas de edição e produção áudio, aliadas à facilidade de acesso a música e ao enorme espólio existente, permitem criar conteúdos sonoros com uma simplicidade inimaginável há poucos anos. Com os recursos disponíveis, consigo usar uma entrevista do William S. Burroughs ou um excerto de um filme do João César Monteiro para ilustrar um programa sobre estes autores. Mas a tecnologia não se aplica apenas ao modo de fazer, tem implicações no modo de ouvir. Os conteúdos radiofónicos não se esgotam na emissão, perduram na sonosfera digital. A criação de arquivos radiofónicos tem sido uma preocupação minha desde há muito e a recente profusão de plataformas exponencia o seu alcance, alarga a base potencial de ouvintes. Este novo modo de ouvir reconfigura a relação locutor-ouvinte, distende-a no tempo, altera os contextos para os quais foi concebida. Por exemplo, recentemente percebi que alguns programas produzidos por mim foram usados num enquadramento diferente, em sala de aula.

Ainda que partilhe da opinião de Madalena Oliveira e Pedro Portela, quando referem que a Rádio carece de mais reflexão e análise, já que tem sido «uma espécie de parente pobre dos estudos dos média» (p. 6), estou em crer que, na sua diversidade e plasticidade, os novos tempos vão obrigar a reconfigurar a forma da Rádio, mas jamais a alterar a sua essência. Em Fevereiro passado, aquando da celebração do Dia Mundial da Rádio, e quando questionado sobre os desafios que a Rádio enfrenta, Pedro Portela, radialista e investigador da Universidade do Minho, afirmou que «o Homem sempre gostou que lhe contassem boas histórias», e enquanto houver quem queira contar histórias a Rádio não morre.

Arriscaria dizer que a Rádio é o meio de comunicação mais natural, já que vive sobretudo à base da voz e da palavra e, na sua essência mais básica, não precisa de qualquer artificialismo. Na sua diversidade, vai existindo e assumindo várias formas por esse mundo fora: numa estrutura nacional e altamente profissional, num modelo voluntarista numa rádio comunitária (e que falta faz a regulamentação em Portugal deste tipo de estruturas), numa rádio-escola ou, eventualmente, num podcast, um modo de fazer Rádio amador no amplo sentido do termo, mas que acarreta um grande compromisso com o ouvinte e uma efectiva vontade de comunicar. Conheço alguns projectos desta natureza, muitas vezes feitos de forma caseira e completamente solitária e que, em certa medida recuperam o espírito das rádios livres que marcaram o panorama radiofónico nos anos 80 em Portugal.

É esta a magia da Rádio, ser profunda e intimamente humana.

 

BIBLIOGRAFIA
 

Bonixe, Luís. «O local como especialização – as rádios locais portuguesas enquanto espaço para a comunicação de proximidade». 2014. Consultado em: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/5287/1/Lu%C3%ADs%20Bonixe.pdf

Oliveira, Madalena & Portela, Pedro. «A rádio na frequência da Web». Revista Comunicação e Sociedade, Vol. 20 (2011): 5-8.

Reis, Isabel. «A reconfiguração da temporalidade da rádio na era da Internet». Revista Comunicação e Sociedade, Vol. 20 (2011): 13-28.

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