Meu amigo 

Hontem recebi telegrama e hoje 2 cartas. Alem da que lhe enviei para o Porto, foi outra para Lisboa, e um telegrama para a rua das Amoreiras. D. Anna Placido, não tendo alguma nova da sua existencia, começou a imaginar que V. Ex.ª estava doente em terra desconhecida, pelo menos em Seide. Á força de a ouvir martelar nesta hypothese, tambem me quiz eu persuadir de qualquer cousa irregular, se não funesta. Tambem me lembrei que estivesse em Portalegre; mas parecia-me que o meu amigo [n]ão sympatizáva com a terra. 

Envio-lhe hoje a nova frontaria da sua caza. Malbario ja está caboucando nas pedreiras, e vae abrir os alicerces. 

Encontramo’nos em principio de novembro em Lisboa. Vamos todos para o hotel Universal. Nada espero das esperanças que tem D. Anna quanto ao Jorge.
O que mais me assusta é o fastio que o vai minando. Pode ser que nos primeiros dias elle se alimente melhor; mas a demencia é irremediavel. 

Vejo que o meu amigo se está saturando de paios. A final, sahiu-me um lusitano pur sang. 

Espero ainda vêl-o em assemblea de ginjas, na botica de qualquer Euzebio, jogando o gamão e expluindo o arrôto sadio das carnes ensacadas.
Nesse andar, a lyra de Narciso de Lacerda tem de involver-se nas escumilhas e nas pelles dos chouriços d’Alem-Tejo. Que destinos! 

Do seu do coração 

Camillo Castello Branco 

Recados nossos ao snr Lacerda.