Últimas Recensões
Hugo Miguel Santos
Desde 2022, Bernardo Maria Salgado publicou mais de uma dezena de «envelopes», pequenos cadernos, plaquettes agrafadas, postais e outras folhas dispersas. Em quatro anos, este poeta já explorou e abandonou a narrativa breve e o verso livre, reencontrando-se, por enquanto, na senda do soneto. Não é fácil encontrar na história mais recente da nossa poesia outro caso de um poeta que tenha não só publicado, mas também renegado, tantos poemas em tão breve período. Por exemplo, ainda no ano passado havia publicado Sonetos do Manuscrito Novo (1. - 20.) e Sonetos do Manuscrito Novo (21. – 40.). E no princípio deste ano dá ao prelo este novo volume, 77 Sonetos para um Ensaio-Geral, título que é súmula do que foi passado a limpo, mas também prenúncio de futuro.
Pedro Franco
Many celebrated moral philosophers have defended the role of narrative in our understanding of ethics and the nature of a flourishing life. It seems, so this argument goes, that our grasp of morality grows with the experience of reading narrative artworks, such as novels and tragedies. Notable proponents of this argument are Alasdair MacIntyre, Iris Murdoch or Martha Nussbaum at least in the Anglo-Saxon tradition. Paul Ricoeur also comes to mind. However, not so many philosophers have dedicated their work to the ethical stuff of lyric poetry, or to how we develop morally when attending to (non-narrative) poems. Even within literary criticism, so-called “ethical criticism” is mostly concerned with narrative works of literature (think Wayne Booth). Perhaps this hesitation or absence has been due to a concern with the potential moralism that would easily “mis-shape the beauteous forms of things”, if we were to “murder to dissect.” To be sure, some literary critics and philosophers (e.g., I. A. Richards or Richard Rorty) have attempted this in their own ways, but this has been the exception. In the case of Rorty, even though he was very serious about the moral and cognitive value of poetry, his engagement with poems in his philosophical work was neither so frequent nor so central.
Sofia A. Carvalho
Numa escuta activa as perguntas iniciais irrompem de modo espontâneo e desdobram-se numa série imprevista, a partir da qual a luz pode crescer: o que é a distância? Uma ilusão dos corpos, como cantado por Teixeira de Pascoaes? Uma realidade que se define e singulariza? Um espaço habitado por um som em progressão? Um corpo atravessado por sensações? Uma Serra sem Fim a convocar um País Distante? «Phantasmas do passado! Encantadas vizões», como grafado por António Nobre na «Carta a Manoel»? Uma invenção do início? Um começar que se repete? Um paradoxo?
Matteo Pupillo
O escritor francês Emmanuel Bove (Paris, 1898 – 1945) estreou-se na ficção com o romance Mes Amis (1924). As temáticas que atravessam estas (quase) duzentas páginas – a solidão, a busca de si e de um lugar onde se possa ser e existir plenamente, a espera de algo que jamais chegará (antecipando um motivo posteriormente associado ao universo beckettiano), enquanto se deambula pela cidade de Paris – inscrevem, na nossa leitura, esta obra no filão existencialista. Tal enquadramento não é, aliás, periodologicamente controverso, tendo em conta que o autor viveu num contexto histórico marcado pelas duas Guerras Mundiais.
Marana Borges
A faxineira entra em cena de cabelo curto, calça moletom, camiseta velha e tênis. Na mão, empurra um aspirador de pó sem fio da nova geração, estilo vassoura. Em movimentos lineares e ininterruptos, ela vai e volta por toda a extensão do palco vazio. Da esquerda à direita, da direita à esquerda, avança, recua e avança, enquanto o aparato ruidoso e moderno limpa cada rincão vazio.
Maria Rita Furtado
Zachary Leader (professor emérito da Universidade de Roehampton e biógrafo de Saul Bellow e Kingsley Amis) publicou, em 2025, Ellmann’s Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker. Lendo o título completo, percebemos que além de o livro de Leader ser sobre o biógrafo Richard Ellmann, é também sobre a grande biografia que Ellmann escreveu, a saber, a de James Joyce, intitulada, precisamente, James Joyce (1959). Contudo, se por um lado a promessa feita pelo subtítulo (de que leremos «a biografia de uma obra-prima e de quem a fez») é não só cumprida, mas ultrapassada — uma vez que além de nos pôr a par de muitíssimos factos acerca da vida de Richard Ellmann, daquilo que o levou à escrita da biografia de James Joyce e do processo de escrita em si, Leader discute, por exemplo, questões relativas ao que constitui uma biografia e em que consiste a vida de um académico bem-sucedido —, por outro, fica parcialmente por cumprir, já que pouco nos é dito acerca da história de Ellmann depois da publicação da sua grande obra.
Hugo Miguel Santos
No prefácio ao primeiro volume de Poesia Italiana del Novecento (1969), Edoardo Sanguineti descreve a antologia como um género literário anfíbio «que oscila naturalmente entre o museu e o manifesto», convidando o leitor a «percorrer a galeria das suas salas ordenadas», sem nunca deixar de propor «uma linha de investigação, não só crítica como operativa, a partir da qual organiza o todo».
Filipe Marques Fernandes
Quem tem medo não é livre. Esta afirmação constitui o ponto de partida da definição de liberalismo proposta por Alan S. Kahan em Freedom from Fear. A uma vida livre de medo, o historiador aliou a esperança no futuro: eis o pai e a mãe do liberalismo; mas o entendimento de que as comunidades políticas vivem fundamentalmente na intersecção destas duas inquietações suscita algumas perguntas, por exemplo: medo de quê? Esperança em quê? Kahan dá-nos a conhecer as suas respostas nesta obra de síntese. Ao fazer uma história intelectual da unidade, diversidade e evolução dos liberalismos históricos, o autor assume também a ambição de reorientar o debate sobre esta tradição política, nortear os seus defensores e esclarecer os seus críticos, com a consciência de que o «ismo» da liberdade significa (cada vez mais) muitas coisas distintas para muitas pessoas diferentes.
José Álvaro Ruas
Ao longo do deserto tímbrico que habitamos, é um alívio ouvir este álbum. Já muito se escreveu sobre Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir e muito bem, mas no geral a autora continua a ser a melhor crítica. É uma obra completíssima e que abre caminhos: leva-nos a ouvir outros artistas, a conhecer novos velhos instrumentos, a perceber porque é que na primeira faixa a sua contra-voz só dura 7 segundos, a explorar mais a história do Fado, e mais. Mas focar-me-ei em apenas dois pontos. O primeiro é a tentativa de perceber qual é a receita do disco, o segundo é uma investigação arriscada sobre a temática do álbum a partir da crítica de alguns dos poemas.
Miguel Tamen
«On Bullshit,» de Harry G. Frankfurt (1929-2023) começou por seguir o curso normal de muitos outros ensaios escritos por filósofos: com menos de vinte páginas, foi publicado numa revista em 1986 e depois integrado num livro do autor em 1988. O curso normal, característico da filosofia académica contemporânea, só se alterou depois da sua publicação, em 2005, como um pequeno livro de capa dura. A edição muito cuidada e o corpo de letra ampliado (que aumentou a extensão do ensaio para quase setenta páginas) visavam claramente um público não-filosófico; e o êxito foi grande. À primeira vista a memória desse êxito também terá sido duradoura: vinte anos depois, e já postumamente, o mesmo editor republicou o livro numa «Anniversary Edition,» onde incluiu como posfácio a reacção de 2002 do autor a um comentário do filósofo político G. A. Cohen (1941-2009), num total de 84 páginas.