Últimas Recensões
Sofia A. Carvalho
Numa escuta activa as perguntas iniciais irrompem de modo espontâneo e desdobram-se numa série imprevista, a partir da qual a luz pode crescer: o que é a distância? Uma ilusão dos corpos, como cantado por Teixeira de Pascoaes? Uma realidade que se define e singulariza? Um espaço habitado por um som em progressão? Um corpo atravessado por sensações? Uma Serra sem Fim a convocar um País Distante? «Phantasmas do passado! Encantadas vizões», como grafado por António Nobre na «Carta a Manoel»? Uma invenção do início? Um começar que se repete? Um paradoxo?
Matteo Pupillo
O escritor francês Emmanuel Bove (Paris, 1898 – 1945) estreou-se na ficção com o romance Mes Amis (1924). As temáticas que atravessam estas (quase) duzentas páginas – a solidão, a busca de si e de um lugar onde se possa ser e existir plenamente, a espera de algo que jamais chegará (antecipando um motivo posteriormente associado ao universo beckettiano), enquanto se deambula pela cidade de Paris – inscrevem, na nossa leitura, esta obra no filão existencialista. Tal enquadramento não é, aliás, periodologicamente controverso, tendo em conta que o autor viveu num contexto histórico marcado pelas duas Guerras Mundiais.
Marana Borges
A faxineira entra em cena de cabelo curto, calça moletom, camiseta velha e tênis. Na mão, empurra um aspirador de pó sem fio da nova geração, estilo vassoura. Em movimentos lineares e ininterruptos, ela vai e volta por toda a extensão do palco vazio. Da esquerda à direita, da direita à esquerda, avança, recua e avança, enquanto o aparato ruidoso e moderno limpa cada rincão vazio.
Maria Rita Furtado
Zachary Leader (professor emérito da Universidade de Roehampton e biógrafo de Saul Bellow e Kingsley Amis) publicou, em 2025, Ellmann’s Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker. Lendo o título completo, percebemos que além de o livro de Leader ser sobre o biógrafo Richard Ellmann, é também sobre a grande biografia que Ellmann escreveu, a saber, a de James Joyce, intitulada, precisamente, James Joyce (1959). Contudo, se por um lado a promessa feita pelo subtítulo (de que leremos «a biografia de uma obra-prima e de quem a fez») é não só cumprida, mas ultrapassada — uma vez que além de nos pôr a par de muitíssimos factos acerca da vida de Richard Ellmann, daquilo que o levou à escrita da biografia de James Joyce e do processo de escrita em si, Leader discute, por exemplo, questões relativas ao que constitui uma biografia e em que consiste a vida de um académico bem-sucedido —, por outro, fica parcialmente por cumprir, já que pouco nos é dito acerca da história de Ellmann depois da publicação da sua grande obra.
Hugo Miguel Santos
No prefácio ao primeiro volume de Poesia Italiana del Novecento (1969), Edoardo Sanguineti descreve a antologia como um género literário anfíbio «que oscila naturalmente entre o museu e o manifesto», convidando o leitor a «percorrer a galeria das suas salas ordenadas», sem nunca deixar de propor «uma linha de investigação, não só crítica como operativa, a partir da qual organiza o todo».
Filipe Marques Fernandes
Quem tem medo não é livre. Esta afirmação constitui o ponto de partida da definição de liberalismo proposta por Alan S. Kahan em Freedom from Fear. A uma vida livre de medo, o historiador aliou a esperança no futuro: eis o pai e a mãe do liberalismo; mas o entendimento de que as comunidades políticas vivem fundamentalmente na intersecção destas duas inquietações suscita algumas perguntas, por exemplo: medo de quê? Esperança em quê? Kahan dá-nos a conhecer as suas respostas nesta obra de síntese. Ao fazer uma história intelectual da unidade, diversidade e evolução dos liberalismos históricos, o autor assume também a ambição de reorientar o debate sobre esta tradição política, nortear os seus defensores e esclarecer os seus críticos, com a consciência de que o «ismo» da liberdade significa (cada vez mais) muitas coisas distintas para muitas pessoas diferentes.
José Álvaro Ruas
Ao longo do deserto tímbrico que habitamos, é um alívio ouvir este álbum. Já muito se escreveu sobre Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir e muito bem, mas no geral a autora continua a ser a melhor crítica. É uma obra completíssima e que abre caminhos: leva-nos a ouvir outros artistas, a conhecer novos velhos instrumentos, a perceber porque é que na primeira faixa a sua contra-voz só dura 7 segundos, a explorar mais a história do Fado, e mais. Mas focar-me-ei em apenas dois pontos. O primeiro é a tentativa de perceber qual é a receita do disco, o segundo é uma investigação arriscada sobre a temática do álbum a partir da crítica de alguns dos poemas.
Miguel Tamen
«On Bullshit,» de Harry G. Frankfurt (1929-2023) começou por seguir o curso normal de muitos outros ensaios escritos por filósofos: com menos de vinte páginas, foi publicado numa revista em 1986 e depois integrado num livro do autor em 1988. O curso normal, característico da filosofia académica contemporânea, só se alterou depois da sua publicação, em 2005, como um pequeno livro de capa dura. A edição muito cuidada e o corpo de letra ampliado (que aumentou a extensão do ensaio para quase setenta páginas) visavam claramente um público não-filosófico; e o êxito foi grande. À primeira vista a memória desse êxito também terá sido duradoura: vinte anos depois, e já postumamente, o mesmo editor republicou o livro numa «Anniversary Edition,» onde incluiu como posfácio a reacção de 2002 do autor a um comentário do filósofo político G. A. Cohen (1941-2009), num total de 84 páginas.
Lúcia Evangelista
Para a professora e investigadora Joana Meirim a «modéstia» é um tópico central para articular poéticas que se fazem numa contracorrente de um sentimentalismo lírico e «palavroso» – a expressão é da própria Meirim. É sob este tópico que a autora tem dedicado sua atenção a poetas como Adília Lopes, Alberto Pimenta e Alexandre O’Neill. A «modéstia», em sentido positivo, apontada nestes poetas é também marca estilística de Uma Carta à Posteridade. Jorge de Sena e Alexandre O’Neill. Tratando-se, como a própria autora revela na «Nota Prévia», de uma versão da sua tese de doutoramento, Uma Carta à Posteridade. Jorge de Sena e Alexandre O’Neill não incorre às marcas de muitas das obras que partem de teses. Em outras palavras, é um livro que consegue ser profundo sem ser pedante, erudito sem ser cansativo, generoso de referências sem esgotar a paciência dos leitores em infinitas notas de rodapé e pormenores bibliográficos. É, pois, um livro que faz do tema da «modéstia» um caminho tanto para rigor quanto para a abertura de liberdade na leitura e no ensino de autores já canônicos como o são Jorge de Sena e Alexandre O’Neill. Ou usando as palavras da canção de Caetano Veloso faz da modéstia um jeito de corpo: de corpo de texto e de experimentação de atuação acadêmica.
Daniel Pérez Fajardo
A cidade de Paris sabe muito bem habitar as contradições próprias de uma grande urbe, como também dos tempos modernos que nela nasceram. Indício disso é a atual exposição oferecida pelo Musée des Beaux-Arts de la Ville de Paris focada na obra do artista Jean-Baptiste Greuze. O andar inferior do edifício cuja academia repudiava o artista é hoje adornada com uma curadoria notável que chama o visitante a se aproximar, se calhar, do lado mais íntimo e complexo da obra do artista: a infância. A exposição «Greuze, l’enfance en lumière» aprofunda numa obra cheia de matizes que bem podem ser índice da redenção do artista nos círculos da academia francesa ou, por outro lado, uma condenação subtil, mas, quase definitiva. A ambivalência abunda na casa das musas de Paris, coisa que bem pode abrumar o visitante pouco habituado às subtilezas.