José Álvaro Ruas
Mudo Cipreste, Surda Áspide
Ao longo do deserto tímbrico que habitamos, é um alívio ouvir este álbum. Já muito se escreveu sobre Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir e muito bem, mas no geral a autora continua a ser a melhor crítica. É uma obra completíssima e que abre caminhos: leva-nos a ouvir outros artistas, a conhecer novos velhos instrumentos, a perceber porque é que na primeira faixa a sua contra-voz só dura 7 segundos, a explorar mais a história do Fado, e mais. Mas focar-me-ei em apenas dois pontos. O primeiro é a tentativa de perceber qual é a receita do disco, o segundo é uma investigação arriscada sobre a temática do álbum a partir da crítica de alguns dos poemas.
Um dos melhores escritores da actualidade portuguesa, o senhor das frigideiras, disse que o disco é uma obra-prima (que subscrevo) e fez uma profecia Schoenberguiana (pela qual torço). Ora, a ser verdade que a descoberta contida neste disco dominará a música nos próximos 100 anos (eis a profecia, suponho) seria interessante perceber qual é a receita para isso. A meu ver há uma série de ingredientes: trabalho, tradição, pesquisa e riqueza.
Carminho esteve 6 álbuns a preparar este, a criar uma voz; agora tem uma voz sua. Há quem diga que primeiro temos as vozes dos outros, depois imitamo-las para nos desfazermos delas (eu próprio aqui me tento desfazer de algumas), e eventualmente encontramos a nossa. Curiosamente, Carminho diz numa entrevista que encoraja os seus músicos a criar, a «criar corpo» – como se para que uma série avance seja preciso que um estágio esteja completado. Noutra entrevista ainda diz que «o fado está na voz… Uma voz sozinha é fado», o fado está completamente presente na voz deste álbum (à excepção de talvez duas faixas menos, o que prova a regra). Assim, a tradição foi dominada e personalizada, e mantém-se neste disco; mas aconteceu mais qualquer coisa.
Há mais fadistas a cantar bem e a dominar a tradição, o que traz em alguns a necessidade de ir mais longe, de criar, de acrescentar à série. Muitos deles foram buscar tradições estrangeiras e foram comidos por elas, desapareceu o fado e desapareceram os fadistas. Mas Carminho não fez isso. Como a própria disse várias vezes este é um disco de fado; a novidade reside, por um lado, nos timbres e ferramentas, por outro, na sofisticação, na seriedade, no luxo.
Para além da voz e das cordas típicas do fado, ouve-se também guitarra eléctrica (como no álbum anterior), e um sexto músico que toca uma série de instrumentos pouco comuns. Os fados são muito bons, muito bem escritos e tocados – como já eram no último disco – mas o eerie garçon é a grande contribuição musical, principalmente na riqueza tímbrica. No artigo/entrevista mais interessante sobre o álbum, publicado na revista songlines, há coisas interessantes sobre os novos timbres: Carminho a dizer que procurou com os novos instrumentos «some background, … sound that surrounds all those instruments [os originais do fado], to create the ambience of a fado house». E de facto, mesmo as outras vozes que aparecem no disco se aplicam bem às vozes da casa de fados, às que se ouvem e às que não. Embora nalguns sítios se escreva que estes novos instrumentos ocupam a região grave, faz mais sentido a noção de que ocupam um registo recuado. Finalmente, na mesma passagem a autora do artigo diz que no fado «Trazes-me tanta saudade» o instrumento que se ouve «adds a weeping portamento». Então, para além de nuns sítios fazerem a cadeira, o sussurro ou o copo de vinho, fazem o espírito do sítio e da música. Como os monges no início da polifonia começaram a cantar a voz que ouviam na reverberação do claustro – e a que chamaram a voz do Espírito Santo –, também aqui se toca a voz do sentimento e da sala. Talvez estes instrumentos nos refresquem a memória do que a guitarra já foi e da analogia de que nos esquecemos.
O outro aspecto formal deste disco é o luxo. Nos últimos 60 anos temos visto uma democratização da produção artística, em particular na música. Viu-se proliferar o piroso genuíno, a disrupção, o punk, a falta de gosto, gerações rasca, o trash, e nos anos mais recentes o saudosismo desses géneros. Todos eles com produções que todos ouvimos com mais ou menos gosto, mas parece que a disrupção tem um limite.
Carminho nunca participou neste projecto. Trabalhou desde cedo com outros bons artistas, com sobriedade. E já há alguns álbuns que há um grande cuidado com a imagem, com o vídeo, com o movimento, e este vai mais além. Há uma série de elementos que exprimem luxo imediatamente, na sua versão mais fina, menos berrante, quiet luxury: o vestido que usa na capa, a imagem a preto e branco com muito grão, um fado chamado «Ritz». Quiet luxury signaling. E depois de alguma pesquisa só se confirma mais essa intuição. Carminho usa fatos feitos por uma designer, a poetisa mais referida é Ana Hatherly, os instrumentos exóticos têm o habitat na arte contemporânea. E com isto consegue fazer uma coisa ainda mais importante, trazer as coisas boas da arte contemporânea para o registo imersivo, acessível – despojar os egípcios. Na música erudita perdeu-se, para alguns autores, a simples noção de musicalidade (o que é menos bom). E não se perdeu na música popular, porque aí não há desculpas; mas nem tudo o que se faz no outro lado é mau.
Carminho cita Camané com a frase «a tradição constrói-se», e Carminho construiu a sua. Pôs em si muito trabalho e os melhores atrás dela – essa é a grande lição. E esta atitude já vinha do disco e EP anteriores, e deve continuar; quanto ao arrojo tímbrico e poético, esperemos que também.
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O outro lado do disco são os conteúdos e os poemas. Todo o tema do álbum e de tudo o que o rodeia são as ideias de mulher e de resistência, e de alguma forma das duas juntas. Há também subtilmente outra mensagem sobre a natureza da mulher e por isso do homem, e de alguma forma dos dois juntos.
Toda a comunicação do álbum foi feita à volta da crítica de um verso que dá nome ao álbum. A primeira vez que li o título do álbum, li-o com uma vírgula: Eu Vou Morrer de Amor, ou Resistir, como se de uma peça do séc. XVIII se tratasse. Na verdade o título não tem vírgula, e na verdade pouco importa. Se o título tivesse vírgula, isso faria de «morrer de amor» uma forma de «resistência», o que seria bastante romântico e implausível. Mas sem vírgula ficamos com duas únicas opções, «morrer de amor» ou «resistir», o que é redutor e também implausível.
O amor, a sua paixão, e os seus desgostos, funcionam sempre mais ou menos da mesma maneira, quer nós morramos do mesmo, resistamos, telefonemos, ou apaguemos o contacto; tem sempre o mesmo remédio. Mas curiosamente há poucos fados onde se diga «olha, vais sofrer, depois vais sofrer mais, depois menos, depois vais-te esquecer, depois afinal voltas a sofrer, e depois um dia passa.» A ideia que há nos fados é a de que podemos fazer alguma coisa, de que vai acontecer alguma coisa, de que nos vai acontecer alguma coisa. Por isso, os poemas dão-nos algum alento; fazem ressoar conselhos de tias e terapeutas. As ideias são engraçadas: morrer de amor; resistir; resistir morrendo de amor; mas são mentira. Daí a independência da poesia e da sua qualidade em relação à verdade. Para além disso, o que é talvez ainda mais curioso é que mesmo sabendo que estas palavras não são verdade, que não se morre de amor nem tampouco se resiste, elas não deixam de fazer coisas. A poesia pode estar desligada da verdade, mas é melhor que esteja ligada ao mundo, e às suas expressões.
Há um outro poema no álbum que é menos fadista (mas num fado tão bom ou melhor), e que lida com verdades, e verdades sérias. O poema é de Ana Hatherly e tem o título «Saber». É um poema curto com estrofes a fazer lembrar premissas num silogismo hipotético: a primeira é «saber/ é saber saber-te/ sabermo-nos unir//»; a segunda «unirmo-nos/ é conhecermo-nos/ sabermos ser//»; a terceira «por fim sermos/ é sabermos/ sabermo-nos//». Depois destes três tercetos, onde parece haver uma tese circular com aspecto de ter conteúdo, chega um dístico em forma de coda que dá a chave: «conhecermos/ a surda áspide». O poema é cantado por várias vozes e uma delas canta-o em inglês, o que funciona como crítica dentro da própria canção. A tradução é muito bem feita em todo o poema, contudo traduz este último dístico por «by learning/ Our hidden barriers». Ora, a palavra «hidden» é bem escolhida, porque de facto a palavra importante, a palavra mais importante de todo o poema está escondida por trás de um nome científico; áspide quer dizer serpente. A serpente, essa sim, é de facto associada à mulher. Porquê surda? Porque com a serpente não se dialoga, sempre morde, sempre é serpente.
Em conclusão, conhecer a teimosa serpente é o verdadeiro saber, que possibilita tudo o resto.
Os outros grandes fados do disco curiosamente falam mais da falta de resistência do que de resistência. Na primeira faixa, cujo som inicial foi bem descrito como «foghorn-like drone,» a protagonista descreve uma cena trágica e dolorosa sem ter agência. Na «Canção à ausente», de Homem de Mello, o poeta diz que «à força de esperar a tua vinda» fez de cada braço (esticado, imagina-se) um mudo cipreste – a árvore do cemitério. E no fado «Sofrendo da alma», com letra de Amália, ouve-se «não sabia que te amava/ e agora não sei quem sou». Mas é a própria Carminho que reconhece que o fado é normalmente a morte de amor e por isso quer resistência. A expressão que usa para explicar a demarcada presença da morte de amor no fado é «catarse», e a ideia em si é pouco apetecível, sabe a pouco, soa a entretenimento. A resistência pertence à outra escola – tem impacto e até influencia.
Cantar o poema «Saber», de Ana Hatherly, é uma forma de resistência, é uma forma de sinceridade e de maturidade. Talvez seja esta a forma de resistência de que fala Carminho, que vai para além da simples catarse. Onde se pode falar, por mais que ainda subtil, da natureza humana, e das nossas diferenças, e da profundidade da união entre duas pessoas – união essa da qual é exemplo todo este trabalho. Cantar tudo isso é mais difícil; mas é o que se espera de uma grande artista. A boa poesia é melhor com boa filosofia, e com melhor música melhor.
REFERÊNCIA:
Carminho. Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir. Sony, 2025. CD.