MATTEO PUPILLo
O escritor francês Emmanuel Bove (Paris, 1898 – 1945) estreou-se na ficção com o romance Mes Amis (1924)[1]. As temáticas que atravessam estas (quase) duzentas páginas – a solidão, a busca de si e de um lugar onde se possa ser e existir plenamente, a espera de algo que jamais chegará (antecipando um motivo posteriormente associado ao universo beckettiano), enquanto se deambula pela cidade de Paris – inscrevem, na nossa leitura, esta obra no filão existencialista. Tal enquadramento não é, aliás, periodologicamente controverso, tendo em conta que o autor viveu num contexto histórico marcado pelas duas Guerras Mundiais.
O romance é narrado por Victor Bâton, personagem principal, um homem solitário, regressado da guerra com a mão ferida, que vive em Paris, num quarto miserável, obcecado com a ideia de fazer amigos. Na casa dos trinta, enfrenta constantes dificuldades financeiras, mas recusa-se a trabalhar; sobrevive da sua pensão e deambula pela cidade com roupas gastas que pouco o favorecem. Ainda assim, agarra-se a cada encontro, deposita esperança em cada olhar e não cessa de imaginar um futuro que uma amizade magnífica poderá vir a iluminar. O romance abre-se com o capítulo homónimo, «Os meus amigos», em que desfilam algumas das personagens secundárias. Com efeito, os seis capítulos que compõem o romance (e cada capítulo tem subcapítulos) são ditados pelos encontros que a personagem vai tendo ao longo das suas deambulações. É o caso de Lucie Dunois, patroa de uma pequena tasca na rua do Sena, única figura que se mantém ao longo de toda a diegese e talvez a única pessoa que nunca se nega a esboçar um sorriso a Victor, ou a troçar dele, o que, implicitamente, revela uma certa simpatia (no sentido etimológico) para com ele. Outros figurantes são Henri Billard (um egoísta interesseiro) e Nina, jovem de dezoito anos que coabitava com Billard e por quem Victor começou a nutrir alguma paixão; ou ainda, «Neveu, o marinheiro», que queria suicidar-se no Sena, pois, à semelhança de Victor, padecia de uma forte solidão, pelo que a ideia de suicidar-se lhe pareceu a única saída plausível, por ser, talvez, uma forma de os outros repararem nele; «O senhor Lacaze», industrial que lhe oferecerá um emprego; «Blanche», um namorisco com uma cantora de cabaret que durou pouco tempo; e, por fim, «Mais um amigo». Este, no princípio do capítulo, não é nomeado («o desconhecido»), mas, no epílogo, associa-se-lhe um nome («o sr. Boudier-Martel»).
Vale dizer que este conjunto de personagens e episódios evidencia a génese existencialista da obra, na medida em que cada capítulo funciona como um microcosmo de relações humanas – ou, mais precisamente, de esforços frustrados por estabelecer alguma ligação significativa. Todas as tentativas se revelam falhadas, daí o desespero da personagem principal, traduzido numa busca incessante por alguém que se interesse por ele, que o ame, que não o tome por louco e que o trate como qualquer outra pessoa. A propósito de tentativas falhadas – e o Billard, por exemplo, não era propriamente o amigo sonhado[2], mas Victor contenta-se com qualquer companhia –, transcrevemos alguns excertos (entre inúmeros) que evidenciam – de forma quase aforística (não é por acaso que a narrativa se paute pela parataxe) – por um lado, o falhanço, e, por outro, um certo desejo de ser compreendido, de ser aceite e de despertar alguma (ou muita) compaixão, inclusive no narratário. Ao longo da narração, Victor mostra-se disposto a tudo, roçando, por vezes, o ridículo, chegando a revelar o seu lado mais desengonçado:
i) «São tão raras as pessoas que gostam um pouco de mim e que me compreendem!» (Bove 2017, p. 42);
ii) «Procuro um amigo. Creio que nunca o encontrarei.» (Ibid., p. 85);
iii) «Ninguém me ligava. Estava triste. Esforçava-me por me manter assim. Queria que os viajantes tivessem remorsos ao partirem, que pensassem em mim ao irem para outros países.» (Ibid., p. 85);
iv) «Quando saio de casa, conto sempre com um acontecimento que revolucione a minha vida. Fico à espera dele até voltar. É por isso que nunca fico no quarto.» (Ibid., p. 108).
Nenhum leitor, cremos, ficaria impassível diante da solidão de Victor; qualquer um, aliás, gostaria de percorrer a Cidade-Luz de braço dado com ele, enquanto flana pelas ruas. O seu vaguear, apreendido mediante a focalização interna, revela a cidade em planos sucessivos, quase cinematográficos. Partindo, pois, de Montrouge, bairro onde a personagem vive, Victor conduz o seu leitor até à Praça Madeleine, nos dias em que lhe apetece deter-se nas vitrines de algumas boutiques de luxo, ou passar por alguns cafés, pondo-se à espreita de alguma bela madame e lançando-lhe olhares furtivos, imaginando como seria a sua vida com ela, se fosse rico. A título de ilustração, leia-se o terceiro subcapítulo do primeiro capítulo («Os meus amigos»), cujas páginas abundam em descrições especulativas sobre um futuro imaginado. Terminada esta divagação, Victor é, novamente, confrontado com a crua realidade da sua pobreza, deslocando-se «à sopa dos pobres» (Bove 2017, p. 29) do cinquième arrondissement. Volvida a hora do almoço, volta a vaguear pelas margens do Sena até ao cair da noite e a fazer tempo em estações, sobretudo na Gare de Lyon, «porque, por trás dela, há o Sena com as suas margens, com as suas gruas que revoluteiam no ar, com as suas barcaças imóveis como ilhotas, com os seus fumos que, no céu, pararam de subir» (Ibid., p. 108). Dessa descrição ressumbra uma Paris baudelairiana; noutro registo inscreve-se a Rue de la Gaîté, e a própria toponímia evidencia as oscilações do estado de ânimo de Victor, para onde ele vai passear quando tem uns tostões a mais na algibeira («Os bolos lá são mais baratos», ibid., p. 155) e onde encontrará a sua cantora de cabaret, Blanche. A cartografia parisiense prossegue, de tão incansável que é o seu andar, e este romance pode ser igualmente lido como um guia; contudo, à medida que Victor erra pelas ruas, os seus pensamentos adensam-se e a sua solidão agudiza-se, sugerindo que a vida urbana, com todas as nuances e encontros efémeros, não consegue preencher o vazio íntimo que o acompanha.
Ora, apesar do desalento e da condição humana miserável que Victor vivencia e que simboliza, igualmente, a de todos os seres humanos (ele é, no fundo, uma personagem-tipo) – inclusive, a dos vizinhos que o detestavam tanto a ponto de o senhorio expulsá-lo do quarto («Nesse prédio de operários, eu era o louco que, no fundo, todos queriam ser. […] Era o que, sem querer, lembrava todos os dias às pessoas a sua condição miserável», Ibid., p. 168) –, a personagem principal não cessa de cultivar uma fagulha de esperança, nem a sua fé, pois, a um nível, quer «crer que um dia hei-de ser feliz, que um dia alguém me amará» (Ibid., p. 171); a um outro, «Deus sabe como sou generoso. Deus sabe todas as boas acções que pratiquei» (Ibid., p. 168), deixando entrever um existencialismo cristão que faz eco ao pensamento de certos filósofos (e.g., Kierkegaard). A relação com Deus configura-se como possível estratégia de mitigação da solidão. Ao postular um Outro, absoluto e infinito, Victor reconhece a própria finitude e constitui-se, reflexivamente, como sujeito existente e actante narrativo mesmo quando a solidão ameaça anulá-lo. Nesse diálogo ensimesmado com o invisível, persiste, pois, a esperança de que talvez existir signifique, afinal, continuar à espera de um olhar que nos reconheça e de uma mão que se estenda até nós.
[1] Existe uma tradução em Portugal, pela mão de Manuel Resende, e publicada pela editora Cotovia (2017). Sempre que algum trecho for aqui citado, recorrer-se-á à versão portuguesa, já que esta recensão se destina a um público lusófono.
[2] «De facto, não tenho sorte. Tomam-me por louco. No entanto, sou bom, sou generoso. Henri Billard era um casca grossa. Nunca me havia de restituir os cinquenta francos. É sempre assim que as pessoas nos recompensam. Estava triste e furioso. A impressão de que toda a minha vida havia de se passar na solidão e na pobreza acentuava o meu desespero» (Bove 2017, p. 75).
REFERÊNCIA:
Emmanuel Bove. Mes Amis. Paris: Éditions de l’Arbre vengeur, 2022.