Sofia A. Carvalho
Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!
António Nobre
Tudo isto fala, tudo isto tem um sentido oculto, ah pois tem;
mas não quero saber qual é, ao certo, aliás,
acredito que seja bastante incerto.
As nuvens movem-se, desviam-se, cresce muito a luz.
João Paulo Esteves da Silva
Numa escuta activa as perguntas iniciais irrompem de modo espontâneo e desdobram-se numa série imprevista, a partir da qual a luz pode crescer: o que é a distância? Uma ilusão dos corpos, como cantado por Teixeira de Pascoaes? Uma realidade que se define e singulariza? Um espaço habitado por um som em progressão? Um corpo atravessado por sensações? Uma Serra sem Fim a convocar um País Distante? «Phantasmas do passado! Encantadas vizões», como grafado por António Nobre na «Carta a Manoel»? Uma invenção do início? Um começar que se repete? Um paradoxo?
Não excluindo nenhuma das hipóteses, País Distante [AWJ2025001] mostra um universo musical sofisticado, elegante e ecléctico que, desde o jazz de vanguarda, passando pelo rock, até à música clássica, traduz em 38 minutos – até agora o álbum mais curto de João Paulo Esteves da Silva – uma síntese conjunta em nome da «contenção da beleza», resgatando uma apreciação do pianista dada em entrevista a Paula Moura Pinheiro (2009), ainda que a propósito de Mozart.
Gravado no estúdio La Buissonne, no sul de França, e lançado nas plataformas digitais a 3 de Dezembro de 2025, com uma apresentação ao vivo na Fundação Oriente, precedida por uma conversa com João Barradas, Vanessa Pires e João Esteves da Silva, este álbum assinala um marco duplo: o regresso editorial de um dos mais influentes compositores e pianistas do jazz nacional e o primeiro álbum da Artway Jazz, etiqueta da Artway Editions[1], a cargo de João Esteves da Silva, que abre com brilho um catálogo que se antecipa entusiasmante e instigante no panorama jazzístico nacional e internacional.
Na verdade, na última página do livreto de País Distante, o auditor encontra uma passagem reveladora de Só de António Nobre, mais especificamente a «Carta a Manoel», que permite aceder não apenas à origem poética do título, mas sobretudo aclarar o tom íntimo e lírico, e também comunitário que atravessa este álbum. Mais do que isso, permite perceber que esta criação se encontra na cúspide de uma anterioridade dupla – a primeira, Serra sem Fim (1995), um idílio musical que, segundo João Paulo Esteves da Silva, durou quatro anos e terminou antes da gravação do segundo álbum; a segunda, um dos exempla da ars poetica do século XIX, António Nobre, um outro idílio cantado que acompanha o renascimento das sementes que há trinta anos ficaram por brotar. Este anseio íntimo de renascença surge explicitado, igualmente, nas notas de programa de Serra sem Fim [005/95]:
Serra sem Fim quer dizer Portugal. O perpétuo oscilar da terra prolongou-se nas ondas e deu a volta ao mundo. Depois o mundo devolveu-lhe a volta e num turbilhão de música, de línguas, de homens e sementes fizeram-se trocas de quase tudo. A música portuguesa de ontem foi dada e esquecida. Das sementes do nosso tempo, às mais fecundas alguém chamou “jazz.” Em Serra sem Fim o jazz permanece no coração da música como as sementes no coração do fruto. Vieram sementes da América, a árvore cresce em Portugal e o fruto sabe e soa português.
Com efeito, no vídeo promocional de País Distante, o compositor-pianista-poeta-tradutor João Paulo Esteves da Silva afirma que o tema-título do álbum corresponde a uma das composições que o primeiro quarteto – composto por Jorge Reis (saxofones alto e soprano), Mário Franco (contrabaixo) e José Salgueiro (percussões), activo até 1998 e, talvez, a sua única verdadeira working band até à data – não chegou a gravar na altura, o que me leva a aventar que esta anterioridade dupla surge como uma procura incessante pela versão de um idílio ou renascença de algo que apenas a distância pode velar na sua paradoxal proximidade. Ora, a continuidade entre a anterioridade dupla e a versão idílica cerzida na distância, que se sabe inalcançável, lembra o argumento maior que atravessa o ensaio «Tradition and the Individual Talent» de T. S. Eliot, que vê a Tradição não tanto como uma herança adquirida por linhagem, mas antes como um acto contínuo de atenção e esforço, cuja base é o sentido da história e a sua consequente percepção. É este sentido da história que torna o artista, simultaneamente, tradicional e contemporâneo. Prova sonora disto, encontro-a em «País Distante», um diálogo tradicional e refinado entre o piano e o saxofone composto por três brevíssimos solos de cada músico ― prática do primeiro quarteto (cf. diálogo entre Esteves da Silva e Reis em «Serra de Algures», segunda parte da suíte que abre Serra sem Fim), que se vê aqui evocado –, sem esquecer a sensibilidade poética que o envolve, sob a égide de Nobre.
Se Serra Sem Fim é uma metonímia para dizer Portugal, a verdade é que conferir à música traços portugueses nunca foi um projecto deliberado do compositor-pianista, aspecto explicitado pelo próprio em entrevista a Filipe Melo, datada de 2018, ao confessar que, após oito anos em França, atravessou uma crise de linguagem e que o seu regresso à língua portuguesa, ao seu ritmo, cadências e sons específicos, fez parte de uma procura intensa pela sua identidade artística. Nesta linha, País Distante, longe de qualquer confinamento geográfico, torna-se uma criação que, à semelhança de Serra sem Fim, continua a privilegiar o país de que qualquer artista é nativo: a arte, neste caso, a música e a poesia, uma e a mesma coisa. Neste país absoluto, um desvio do país relativo de que fala O’Neill, privilegia-se a improvisação espontânea sem desprezar a estrutura e a forma da composição[2].
A aposta na improvisação implica movimento e mudança na continuidade. Esta última nuance esquissa uma afinidade entre artistas, tal como sustentado por Eliot que desemboca numa espécie de comunidade de almas, cuja toada pode ser considerada trans-histórica. Neste âmbito, o testemunho artístico de cada um dos músicos do novo quarteto, que apresenta uma formação inédita – João Paulo Esteves da Silva (piano); o britânico Julian Argüelles (saxofones tenor e soprano); Rodrigo Correia (contrabaixo) e José Salgueiro (bateria) – é, por força da oscilação da existência, distinto. No entanto, a maneira de ouvir essa oscilação é compatível entre si, isto é, comporta uma escuta afim que se esteia numa afinidade quase tribal quer pela renovação da antiga ligação artística entre João Paulo Esteves da Silva e José Salgueiro quer pelo início de novas relações com Argüelles e Correia.
A pulsão para o movimento dá-se com o intento que, inicialmente, teria sido apenas a gravação de um conjunto de composições concebidas para o primeiro quarteto; a pulsão para a mudança acontece com a sobrepujança desse intento inicial vertido numa composição colectiva em tempo real. Neste sentido, é possível ao auditor participar desta aventura sonora através da escuta de três temas de composição espontânea da autoria de Esteves da Silva, incluindo dois inéditos (a faixa-título e «Adeus América») e uma nova versão de «Hino» (primeira parte da suíte «Hino-Passagem-Certeza», gravada em Esquina), e seis composições espontâneas colectivas. Esta aventura musical colectiva, ainda que sob a liderança do compositor-pianista, aproxima-se do valor do surgimento, espécie de passagem estrangeira que parte de uma zona de nada para um nada determinado, como lembra Esteves da Silva na já citada entrevista a Filipe Melo.
A dupla anterioridade – a musical e a poética – assenta aqui num processo directo, sensorial[3] e, por isso, orgânico, conduzindo o auditor a uma sequência artística distintiva, cujo fim, embora possa ser do conhecimento dos artistas, como sustentado por Esteves da Silva em entrevista de 2010 a José Fialho Gouveia, progride de modo contra-intuitivo até à invenção de um começar que se move e desvia, sem medo: espaço electivo onde a luz e as visões não cessam de medrar.
[1] Fundada em 2011 no Porto, a editora é dirigida pela violoncelista e gestora cultural Vanessa Pires e, numa primeira fase, o foco foi a edição e a reedição de música clássica e contemporânea. Actualmente, apresenta três catálogos distintos: a Artway Records e a Artway Next, sob a responsabilidade de Filipe Quaresma, e a Artway Jazz, dirigida por João Esteves da Silva.
[2] É João Paulo Esteves da Silva quem afirma que se alguma vez alcançasse uma consistência formal na improvisação comparável à da música escrita passaria a compor sobretudo em tempo real. Álbuns como Scapegrace (2009) e So Soft Yet (2011), com o trompetista norte-americano Dennis González, e, mais recentemente, Brightbird (2017) e The River (2023), em trio com Mário Franco e o baterista suíço Samuel Rohrer, revelam a materialização desse desejo.
[3] Acerca da relevância das experiências sensórias e corpóreas na criação artística, existem duas notas curiosas: na primeira, extraída da entrevista já mencionada de Paula Moura Pinheiro, Esteves da Silva confessa que a sua relação com o piano, à semelhança da de sua avó com a dentadura, é orgânica, pois o instrumento, a prótese, torna-se uma espécie de extensão do seu corpo; na outra, patente na entrevista já referenciada a Filipe Melo, o artista lembra que a sua entrada na música jazz foi, inicialmente, uma experiência gustativa e oral.
REFERÊNCIA:
Silva, João Paulo Esteves da. País Distante. Artway, 2025.