Maria Rita Furtado
Zachary Leader (professor emérito da Universidade de Roehampton e biógrafo de Saul Bellow e Kingsley Amis) publicou, em 2025, Ellmann’s Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker. Lendo o título completo, percebemos que além de o livro de Leader ser sobre o biógrafo Richard Ellmann, é também sobre a grande biografia que Ellmann escreveu, a saber, a de James Joyce, intitulada, precisamente, James Joyce (1959). Contudo, se por um lado a promessa feita pelo subtítulo (de que leremos «a biografia de uma obra-prima e de quem a fez») é não só cumprida, mas ultrapassada — uma vez que além de nos pôr a par de muitíssimos factos acerca da vida de Richard Ellmann, daquilo que o levou à escrita da biografia de James Joyce e do processo de escrita em si, Leader discute, por exemplo, questões relativas ao que constitui uma biografia e em que consiste a vida de um académico bem-sucedido —, por outro, fica parcialmente por cumprir, já que pouco nos é dito acerca da história de Ellmann depois da publicação da sua grande obra.
Ellmann’s Joyce está dividido em duas grandes partes, «The Biographer» e «The Biography», arrumadas entre a Introdução e uma curta secção a que Leader chamou «Coda: Last Years». Os títulos são autoexplicativos. Temos a vida de Ellmann (na verdade, a vida de Ellmann até à escrita de James Joyce), a história da escrita e da recepção da biografia de Joyce (que inclui episódios da vida de Ellmann durante esses períodos) e, finalmente, um apontamento sobre os últimos anos de vida do biógrafo que Leader elegeu. Ao longo da leitura do livro, transparece o entusiasmo de Leader pelo biografado e pelo seu trabalho. Além de Ellmann ser apresentado como um grande biógrafo, ficamos também a saber que foi um homem charmoso, sedutor e prolífico, que nunca deixou de jogar o jogo de estratégia que é a academia e que foi, com frequência, motivado pelo medo constante de «rivais».
Sigamos por ordem e olhemos para o biógrafo Richard Ellmann, um homem de uma família da classe média judaica, nascido a 15 de Março de 1918 no estado do Michigan, Estados Unidos da América. Na primeira parte do livro, Leader conta-nos que Ellmann estudou em Yale, que desempenhou várias funções administrativas durante a Segunda Guerra Mundial e que foi professor em Northwestern e em Oxford. Ellmann foi seguindo o tipo de percurso que se esperaria de um homem inteligente da classe média e de um académico ambicioso (ainda que, enquanto judeu, não tenha cumprido as expectativas no que diz respeito à vida pessoal, uma vez que fugiu para casar com Mary Donahue, que não era judia). Na medida em que Ellmann foi tentando cumprir o que se esperava dele, Leader apresenta-nos um homem não muito diferente de tantos outros. Todavia, procura mostrar-nos o que esse homem tinha de extraordinário, não só à semelhança do que, inicialmente segundo Ellmann, Joyce terá feito em Ulysses relativamente à sua personagem principal, Leopold Bloom, mas também em relação ao que Ellmann terá feito a propósito de Joyce. Diz-nos Leader na introdução: «Ellmann confessa uma crescente identificação com o tema que está a tratar. Também Joyce considerava que documentar momentos aparentemente “triviais” reflectia aquilo a que Ellmann chama […] “a justificação do corriqueiro”, visão que não era, de modo algum consensual antes de James Joyce»[1] (7). Ellmann escreve ainda, cita Leader, que Joyce «retira ao homem aquilo que estamos habituados a respeitar e, depois, intima-nos ao compadecimento» (idem) e, acrescenta Leader, «defenderei que o mesmo é verdadeiro em relação ao modo como Ellmann representa Joyce» (idem). Leader conta-nos, assim, a história de como, muitas vezes, os temas acerca dos quais decidimos escrever recaem, num certo sentido, em questões relacionadas com a nossa autobiografia. Afinal, tal como diz Ellmann numa carta que escreve ao pai em 1940, «o desejo de nos perpetuarmos é muito forte em todos nós» (43).
Assumindo que à escrita de um livro subjaz uma ideia de perpetuação de si, o argumento é mais fino. Não chega o livro enquanto objecto, nem sequer o tema escolhido: aquilo que mais conta é o motivo por que o autor escolhe determinado tema, havendo nesse motivo algo que pode escapar, de modo consciente, ao próprio autor. No caso particular de James Joyce, Leader aponta para a importância das semelhanças que Ellmann parecia encontrar entre si e o autor de Ulysses ou até entre si e Leopold Bloom. A título de exemplo, diz-nos Leader:
[A dificuldade em lidar com os pais] moldou o modo como [Ellmann] via o papel da família não só na sua vida e no seu trabalho, mas também na vida e no trabalho de Joyce. Pensemos […] na descrição que Ellmann faz da decisão tomada por Joyce, em 1902, de desistir da faculdade de medicina em Dublin e de se mudar para Paris, supostamente para estudar medicina, mas, na verdade, para escrever. Esta decisão, descrita em James Joyce […] foi tomada por Joyce quando ele tinha precisamente a mesma idade que o próprio Ellmann tinha quando considerou desistir dos estudos académicos para escrever, plano que também envolvia uma mudança para Paris, supostamente para estudar na Sorbonne. É difícil não vermos a descrição de Ellmann deste momento da vida de Joyce como tendo sido moldada pela decisão, muito diferente, que tomou num momento similar e que foi parcialmente tomada devido ao temor dos pais, à prudência e à razoabilidade. (48)
A influência da família é inegável em ambos os casos e, a par da importância das figuras parentais, temos também descrições da importância que os filhos têm para ambos os homens, Ellmann e Joyce, e para Leopold Bloom, além de Bloom ser um homem brando e judeu, tal como Ellmann.
Há ainda outra característica de Joyce que, segundo Leader, terá tido um peso fundamental na escolha de Ellmann: a arrogância. A propósito de uma das histórias mais famosas sobre o encontro entre W. B. Yeats (autor acerca do qual Ellmann escreveu a sua tese de doutoramento, também sob a forma de biografia) e James Joyce, conta Leader que
um dos «materiais manuscritos» mais importantes que a Sra. Yeats mostrou a Ellmann foi um prefácio inédito que Yeats escreveu para a sua colecção de ensaios Ideas of Good and Evil [Ideias sobre Bem e Mal] (1903). Ellmann perguntara-lhe se «haveria alguma verdade na história de que quando Joyce, então com vinte anos, conheceu Yeats, um escritor consagrado de trinta e muitos anos, lhe disse “é demasiado velho para que possa ajudá-lo”. A Sra. Yeats confirmou que era verdade que no fim da vida, ambos os homens tinham negado que tal tivesse acontecido […]». Depois, mostrou a Ellmann o prefácio inédito, no qual Yeats incluíra o incidente. A observação do jovem Joyce tinha um sentido particular para Ellmann, tal como recordou mais tarde. «Assim como encantaria todos os homens brandos, a sua arrogância encantou-me […]» Na primeira edição de James Joyce, Ellmann foi mais longe: «O meu livro teve origem nesse momento.» (129)
No entanto, além de mais tarde Joyce e Yeats terem negado esta história (segundo a Sra. Yeats), Joyce chegou mesmo a dizer a (Oliver St. John) Gogarty que «mesmo que o tenha pensado, nunca o teria dito ao Yeats. Isso teria sido indelicado» (384). Esta preocupação com a delicadeza, com a brandura — características por excelência de Leopold Bloom — é, além de podermos associá-la por vezes a Joyce (como neste caso), uma preocupação de Ellmann. No entanto, Leader diz-nos que
em Dublin, [Ellmann] passou duas semanas a «provar à Sra. Yeats que era o mais esperto do rebanho» […]. Em cada uma destas áreas da sua vida [família, academia e marinha], em vez de desafiar ou confrontar a autoridade, como fizera o jovem Joyce, Ellmann vergou-se a ela, ou pelo menos era isso que sentia. Para outras pessoas, contudo, a brandura de Ellmann, até mesmo nos seus primeiros anos, encontrava-se à superfície. (130)
Leader acrescenta ainda que «os modos delicados [de Ellmann] mascaravam a ousadia» (132). Aquilo que Ellmann parecia admirar em Joyce não era, pois, a arrogância em si, mas a possibilidade de se ser ostensivamente arrogante.
Todo o livro de Leader está pontuado de episódios da vida de Ellmann que mostram isto mesmo: uma brandura superficial que esconde muitas vezes uma arrogância real e uma estratégia muito clara no que diz respeito a objectivos precisos (em geral, relacionados com a carreira académica). Ellmann preocupa-se desde muito cedo com potenciais rivais e, a propósito da publicação da sua tese de doutoramento sobre Yeats — a primeira acerca de um escritor do século xx a ser aceite em Yale —, escreve aos pais: «Tenho de publicar antes de Jeffares (outro académico que usou algum do mesmo material) publicar a sua [tese]. O Frank O’Connor diz que não vale a pena deixar que ele estrague o material, publicando primeiro um mau livro» (146) ou ainda, numa carta ao amigo Ellsworth Mason, «estou ansioso para tentar publicar antes de ele estragar o material por o interpretar mal» (194). Apesar de George Yeats ter deixado A. Norman Jeffares consultar manuscritos do marido, conta Leader que também ela estava apreensiva em relação ao trabalho daquele académico e que, numa carta anterior também dirigida aos pais, Ellmann diz: «parece que a Sra. Yeats abordou o O’Connor e que o persuadiu a incentivar a Macmillan a publicar depressa o meu livro» (idem). A pressa compensou, diz-nos Leader, e o livro de Ellmann foi publicado dois meses antes do de Jeffares. Independentemente de o livro de Ellmann ter mais ou menos qualidade, chegar primeiro será sempre uma das suas grandes preocupações. De resto, tendo em conta a escrita deJames Joyce, vemos que a relação que Ellmann estabeleceu com a Sra. Yeats acabou por dar frutos que ultrapassaram o texto da tese.
A ideia de necessidade de estabelecer relações frutuosas, aliada ao trabalho de pesquisa em si (juntamente com os trabalhos administrativos, incluindo a organização de documentos, que Ellmann levou a cabo na marinha durante a Guerra) são, em grande medida, aquilo que fez de Ellmann o biógrafo que hoje conhecemos. Ellmann aprendeu a estabelecer relações e a investigar, e aquilo que acabou por motivar a escrita de uma biografia monumental como James Joyce foi a «emoção da caça e o esplendor do terreno» (225). O uso do termo «caça» e a classificação do assunto enquanto terreno «esplendoroso» que dá vontade de desbravar não são inocentes. Continuamos a ter um académico ambicioso que, qual cão de caça, pretende ser o primeiro a desbravar terreno e a chegar à presa. Porém, é importante frisar que, para Ellmann, conta também que o terreno e a presa não percam parte do esplendor aos olhos de quem possa vir depois: a par do assunto, está a arte de contar a história do assunto.
Recordemos, então, que Ellmann queria ser escritor (chegou até a publicar poemas). Uma das críticas que a biografia de Ellmann foi recebendo, até mesmo enquanto estava a ser escrita, tinha que ver com o facto de «Ellmann olhar para a ficção […] em busca de congruências ou discrepâncias entre a vida real e a vida tal como é retratada nos romances» (296). Enquanto escritor em potência, Ellmann está preocupado com
a narrativa, com o perigo de nos desviarmos da narrativa ou de a abrandarmos [slowing down] ou de deixarmos lacunas. A ficção é invocada nos casos em que não encontramos evidências na vida ou em que tais evidências precisam de sustento ou quando Ellmann vê ligações interessantes entre vida e obra, incluindo ligações que contradizem em vez de corroborar» (297)
Perante descrições como esta, Leader vai problematizando aquilo que constitui uma biografia, que fontes são consideradas fiáveis e se um bom livro não valerá mais do que uma biografia estritamente factual. Para Leader, à partida, podemos ter os dois.
Como seria expectável, estas questões são desenvolvidas sobretudo na segunda grande parte do livro, dedicada à biografia propriamente dita. Enquanto estava em Dublin, ainda a terminar a tese de doutoramento, além da questão dos rivais de que já falámos (chega mesmo a dizer que «aqui, o meu maior problema são as pessoas que roubam as minhas coisas» (194)), Ellmann aconselha o amigo Ellsworth Mason a não escrever a sua tese sobre Joyce, entre outras questões por considerar que «para compreender Joyce tens de vir cá; tens de deitar mão a cartas; tens de falar com pessoas que o conheceram. […] Estás preparado para levar a cabo o trabalho biográfico que é um pré-requisito para qualquer novo estudo sobre Joyce? A vida de todos os artistas criativos está [muitíssimo] ligada ao trabalho que desenvolvem» (195). Pese embora o tom paternalista com que diminui o amigo, e o facto de Mason se ter zangado com Ellmann devido, precisamente, a esta carta, a zanga foi curta e os dois acabaram por colaborar, ainda que Mason tenha acabado por deixar a academia. Além disso, conseguimos ver já aqui algumas ideias de Ellmann acerca de Joyce e do trabalho que viria a empreender: para alguém que gosta da caça, de terrenos férteis e de ser o primeiro, ir aos sítios por onde Joyce passou, falar com as pessoas com quem Joyce privou e ler cartas de uns e de outros, esmiuçando todo o material a que conseguisse deitar mão será a base do trabalho de escrita de James Joyce.
A ideia de «terreno fértil» é, todavia, uma das dificuldades maiores no que diz respeito à escrita da biografia de alguém como Joyce, cuja vida se passou sem grandes incidentes. Ellmann não conseguia acreditar que «um escritor possa conter tanta extravagância dentro de si, expressando-a apenas na arte» (207) e, pegando no «interesse de Joyce pelas vidas privadas de pessoas banais, bem como na capacidade que ele tinha para tornar as suas vidas memoráveis» (idem), está decidido a «tentar tratar a vida de Joyce com alguma da mesma grandiosidade com que ele trata a vida de Bloom» (idem). O que pretende fazer, escreve Ellmann a May Monaghan (irmã de Joyce), é «dar novo significado a acontecimentos vulgares» (208) e assim, diz-nos Leader, «Ellmann estava a assumir o papel de Joyce (“assumamos o papel do poeta”) em vários sentidos, tornando-se como ele para o compreender» (idem).
Poder-se-ia dizer que Ellmann corria assim, e desde logo, o risco de perder a objectividade de vista. Voltando às preocupações narrativas, o que poderia ser entendido como contraditório quando se trata da escrita de uma biografia (documento que, à partida, se considera factual), segundo Leader, para Ellmann parece importar menos a história do que o modo como a história é contada. A questão da plausibilidade por oposição à factualidade acabará por ser uma constante nas críticas que foram sendo feitas a James Joyce. Durante a escrita da biografia, Ellsworth Mason escreveu ao amigo, dizendo: «estás a entretecer obras e não-obras [a vida], criando um único tecido supostamente factual» (296). Além disso, acrescenta Leader, «aquilo que tornava a tendência de Ellmann para fundir “o plausível com o real” particularmente perigosa, segundo Mason (e muitos estudiosos de Joyce que vieram depois) era o facto ele escrever tão bem» (idem). Leader, contudo, não deixa de defender o biógrafo da sua eleição, acrescentando que, além de Ellmann só recorrer à ficção quando encontra lacunas ou quando a vida precisa de «sustento», como vimos, «é injusto que Mason descreva a narrativa que Ellmann tece, o “tecido” do livro, como “supostamente factual”. Em geral, Ellmann tem o cuidado de distinguir o que é factual do que é especulativo, o que é real do que é plausível» (297) A propósito destas questões, em particular a propósito da falta de credibilidade de que Ellmann é acusado, Leader recorre a um exemplo usado por muitos críticos: o facto de Ellmann afirmar que Joyce era infeliz no colégio jesuíta Clongowes, pois, embora em Retrato do Artista quando Jovem, Stephen Dedalus deteste o colégio, Joyce dissera ao irmão Stanislaus, que estava «feliz e bem». A questão que se põe tem que ver com a fiabilidade das fontes: quem será mais mentiroso? O artista enquanto artista ou o artista enquanto pessoa real? Ainda que Leader nos diga que apesar de, por exemplo, um episódio triste que se passou no colégio, em que um rapaz parte os óculos de Stephen, ter acontecido na vida real de Joyce, isso não significa que devamos tomar tudo o que é contado em Portrait (no caso) ao pé da letra. Porém, também não podemos considerar que tudo o que uma pessoa disse a outra, oralmente ou por escrito, seja necessariamente verdadeiro. Aqui temos, assim, a impossibilidade de se escrever uma biografia cem por cento factual e fiável. No entanto, nunca se questiona a possibilidade de se escrever uma boa biografia, já que, com Ellmann, Leader considera que, para que uma biografia seja boa, importa mais que seja um bom livro, isto é, que vá para lá de uma série de factos.
No último capítulo da segunda grande parte do livro, Leader dá vários exemplos de críticas mais ou menos positivas que foram sendo feitas a James Joyce e ao próprio Ellmann, e um dos críticos mais acrimoniosos tanto da obra como de quem a fez é Hugh Kenner, crítico e académico que também se dedicou ao estudo de James Joyce e que Leader considera o «principal antagonista de Ellmann» (336). Os dois homens foram trocando críticas pouco elogiosas e, a dada altura, Leader conta-nos que
Kenner repreendera Ellmann por ter errado em pormenores relativos ao nascimento e ao baptismo de Joyce, que são o tipo de erro «familiar a qualquer pessoa que corrija trabalhos do ensino secundário». Kenner também ataca a biografia propriamente dita como sendo «no fundo» ficção. «Se, ao contrário do autor de romances, o biógrafo não pode inventar factos, pode inventar formas de disfarçar a sua ausência» (339).
Depois de muitos terem considerado a biografia de Ellmann «definitiva», Kenner escreve uma crítica à segunda edição de James Joyce intitulada «A Impertinência do que é Definitivo». Afinal, Ellmann não considerou nada do que fora produzido entre uma edição e outra da sua biografia de Joyce (entre 1959 e 1982, data da segunda edição e do centenário do nascimento de Joyce) e, diz John McCourt, um outro crítico, Ellmann «acreditava no seu próprio Joyce, não gostava de concorrentes no seu campo e ficava muito abespinhado diante de críticas que ameaçassem a sua versão e a sua dita definitividade» (344). Ora, defende Leader,
Ellmann era, de facto, prudente em relação a concorrentes, em particular na sequência da publicação de James Joyce, e ficava abespinhado diante de críticas (o que dificilmente pode ser considerada uma característica singular). Ele abespinhava-se diante de Kenner porque as críticas de Kenner eram muito agressivas e os seus modos eram insuportáveis. Kenner diminuiu não só a sua biografia, mas a biografia em si, caracterizando-a, na recensão publicada no TLS, «não como ciência, mas como um subgénero de ficção». […] Qualquer pessoa ficaria abespinhada diante dos ataques persistentes de Kenner. (344)
Quem escreve biografias e, mais, quem escreve a biografia de um biógrafo e da sua biografia maior, como Leader, não pode senão ficar abespinhado ao ler esta opinião de Kenner, sejam ou não os seus modos insuportáveis.
Depois da defesa da sua arte e do seu biógrafo, Leader dá-nos conta dos últimos anos da vida de Ellmann num conjunto de dez páginas agrupadas numa última secção chamada «Coda: os Últimos Anos». Num livro de 358 páginas (449 se contarmos com notas, agradecimentos, índice etc.), é difícil não nos espantarmos com o facto de os últimos anos de Ellmann serem contados numa tão curta extensão de texto. Ficamos a saber das mudanças institucionais e de país, que Mary Ellmann voltou a trabalhar, mas que sofreu um aneurisma que a deixou incapacitada, do caso amoroso que Ellmann teve com Barbara Hardy, de como os filhos iam reagindo ao que ia acontecendo na vida dos pais, de Ellmann ser diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica — tendo ficado «inválido como Mary» (356), ainda que tenha concluído a escrita da biografia de Oscar Wilde — e que acabou por morrer em 1987.
Como dissemos no princípio deste texto, Ellmann’s Joyce ultrapassa em grande medida aquilo que se esperaria de uma biografia e sabemos, pelo título, que o livro se dedicará sobretudo à biografia da biografia e menos à biografia do seu autor. No entanto, o subtítulo faz-nos achar que ficaremos a saber muito mais sobre Ellmann do que aquilo que, de facto, nos é dito. Tal como acontece com o que muitos, como Hugh Kenner, esperariam de uma biografia (factos) e que, perante o incumprimento da expectativa, se sentem gorados (afinal, as biografias podem mentir e omitir), poderíamos acusar Leader de nos tirar o tapete ao deixar por cumprir a promessa que nos faz. Contudo, ao chegarmos ao fim, percebemos que, apesar do subtítulo enganador («A biografia de uma obra-prima e de quem a fez»), Zachary Leader procura ser perdoado escrevendo que «este livro foi uma tentativa de mostrar de que modo, e por que razão, devemos escrever biografias longas, no processo de honrar tanto James Joyce como o admirável académico/artista que foi o seu autor» (358). Leader nunca nos diz tintim por tintim por que a biografia é uma arte nem por que o biógrafo é um artista, mas ao defender James Joyce e Richard Ellmann, «pondo-se no lugar do poeta», procura dar-nos a resposta, enquanto se perpetua a si próprio. No fundo, mais do que um académico, um biógrafo é um artista, e a biografia é a sua arte. E é assim que devemos ler.
[1] De modo a tornar a leitura mais escorreita, traduzi as passagens citadas.
REFERÊNCIA:
Leader, Zachary. Ellmann's Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker. Harvard: Harvard University Press, 2025.