Hugo Miguel Santos*

No prefácio ao primeiro volume de Poesia Italiana del Novecento (1969), Edoardo Sanguineti descreve a antologia como um género literário anfíbio «que oscila naturalmente entre o museu e o manifesto», convidando o leitor a «percorrer a galeria das suas salas ordenadas», sem nunca deixar de propor «uma linha de investigação, não só crítica como operativa, a partir da qual organiza o todo»[1].

Esta caracterização ajuda-nos a perceber não só o carácter polimórfico do género antológico, como a sua própria condição flutuante: se, por um lado, existem antologias com uma dimensão museológica mais evidente — como Embriagai-vos – Antologia de Poemas em Prosa de Autores Franceses (2020), de Regina Guimarães e Saguenail, ou Música dos Séculos – Mil Anos de Poesia Alemã (2024), de João Barrento, —; por outro, encontramos exemplos da componente militante em antologias que, no fundo, são extensões da obra poética dos seus antologiadores, como Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes (1985), de Herberto Helder, ou Poetas Sem Qualidades (2002) e A Perspectiva da Morte 20 (-2)(2009), de Manuel de Freitas. E poderíamos ainda lembrar a importância que tiveram para a poesia portuguesa do século XX, volumes antológicos publicados em edições relativamente marginais, como a Poesia 61, o Cartucho (1976) ou a Sião (1987).

Em cada um destes casos, torna-se evidente a definição de Sanguineti, na medida em que tanto o movimento museológico implica a manifestação de uma escolha e, por conseguinte, de um gesto crítico de recusa dos textos não incluídos; como, em sentido inverso, qualquer ímpeto militante se encontra fatalmente condenado à sentença do relicário. As restantes componentes de selecção, sejam epocais, temáticas ou formais, não beliscam em nada esta caracterização, antes a complexificam, tornando possível a distinção do género em várias espécies e subespécies, mais ou menos relevantes.

No caso da mais recente antologia organizada por Rui Lage, Adeus, Campos Felizes — Antologia do Campo na Poesia Portuguesa do Século XIII ao Século XXI (2025), torna-se particularmente difícil perceber qual destas facetas prevalece, se a museológica ou a militante — o que é de saudar. Estamos perante uma antologia que atravessa vários séculos, reunindo uma amostra suficientemente ampla dos diferentes modos de representar o campo na poesia portuguesa. Mais do que uma antologia sobre a tradição pastoral e campestre, trata-se de um estudo atento e rigoroso das diferentes formas e imagens que o campo tem assumido desde a lírica medieval até à contemporaneidade:

 

[...] procurámos selecionar textos portadores de uma ressonância testemunhal, com indícios ou vestígios de dinâmicas sociais, económicas, políticas, geográficas e outras. O campo poeticamente figurado diferiu tão drasticamente do vivido que torna inescapável uma leitura política [...].

Respigámos poemas, das várias épocas, que se encadearam numa história dos modos de ver e interpretar as sedimentações e mudanças do mundo rural português; inclusive que trouxessem à tona o que na nossa relação com esse mundo é da ordem do recalcamento e não apenas da ordem da nostalgia; e que urdissem uma espécie de trama: da idealização ao desengano, da utopia à disforia, da sublimação ao exorcismo, do fisiocratismo à fantasmagoria, do telurismo ao ecocriticismo, do paraíso agrário à perda do campo (p. 636).

 

Este excerto é revelador das antinomias que estão na base do esforço crítico de Rui Lage nesta antologia, tais como a distinção entre figurado e vivido ou, como nos indica o subtítulo do ensaio final do volume, entre campo ideal e campo real. Destarte, trata-se de procurar apresentar imagens e figuras do campo na poesia portuguesa, desde as cantigas de Pedro Amigo de Sevilha até às ervas rasteiras de Joaquim Namorado, que nos ajudam a perceber melhor de que forma o universo rural foi encarado, em grande medida, enquanto ficção bucólica, caricatural e até fraudulenta da realidade vivencial dos homens e mulheres que viviam do trabalho da terra.

Em certa medida, este trabalho procura servir-se da literatura como veículo para recolher provas de um delito maior, na esteira das investigações de autores como Edward Said e Raymond Williams. Lage demonstra em que medida este campismo tem sido sinónimo de escapismo, confrontando os versos dos poetas escolhidos com a realidade socio-cultural, o que transforma a curadoria desta galeria de poemas campestres num manifesto político extra-literário. Se quisermos, uma das teses desta antologia passa por afirmar que a literatura, mesmo a mais pretensamente realista, na maioria dos casos não soube retratar a «fome endémica» (p. 583), a «infelicidade campesina» (p. 585) ou a «agricultura de subsistência» (p. 586):

Não obstante a politização da sociedade rural e as mudanças culturais engrenadas no século XIX, será preciso esperar pela produção literária da última década desse século para ter um vislumbre da verídica vida no campo. Apesar do professado realismo, da destreza paisagista, da desenvoltura descritiva, a escrita oitocentista pouco fez para desentronizar o ruralismo idealizado, sequer para descamar a pintura estereotipada do Portugal agrário (p. 588, sublinhado meu).

De facto, o longo ensaio à guisa de posfácio de Lage consegue revelar com bastante eficácia e clareza esta falta de correspondência entre o campo dos poetas, ou os poemas do campo, e a agrura existencial daqueles que no campo tiveram de penar e viver. Ao longo de mais de seiscentas páginas, esta antologia apresenta-se como um documento robusto da ausência de uma «ética da representação» (p. 636) na generalidade dos poetas portugueses que decidiram falar do campo. E, poderíamos acrescentar, nos casos em que a dimensão ética está mais presente, como acontece com alguns autores neo-realistas, parece estar ausente, ao invés, a dimensão estética da representação literária.

Não faltam dados e argumentos neste volume, como costuma ser apanágio do seu antologiador. O campo, aliás, tem atravessado a obra poética de Rui Lage, autor de poemários importantes como Um Arraial Português (Ulisseia, 2011), Rio Torto (Língua Morta, 2014) ou Estrada Nacional (INCM, 2016) — assim como em Portugal Possível (Museu da Paisagem, 2022), livro que conta com fotografias de Duarte Belo e do geógrafo Álvaro Domingues, cujo trabalho em torno das dinâmicas territoriais e paisagísticas parece ter influenciado muito positivamente a reflexão de Lage. Contudo, chegados ao final da leitura apetece perguntar: como poderia ter sido de outra forma? Como seria uma poesia renascentista ou romântica na qual o campo real estivesse patente? Ou seja, num país onde a maioria da população até finais dos anos 70 do século XX, e não só aquela que vivia nas aldeias, era em boa parte analfabeta ou pouco escolarizada: como poderíamos ter tido poetas próximos desse campo real? Aliás, não é preciso viajar muito no tempo: os resultados de um estudo da OCDE e da World Economic Forum, de 2018, sugerem que em Portugal são necessárias cinco gerações para que alguém nascido numa família pertencente ao grupo dos 10% mais pobres possa atingir o rendimento mediano. Posto isto, não é de estranhar que a poesia não seja capaz de representar a vida dos pastores e dos camponeses, já que são raros (e até improváveis) os casos de poetas que tenham conhecido em primeira mão essa realidade.

São vários os méritos desta antologia, como o próprio Rui Lage parece afirmar, quando confessa a sua surpresa perante o facto de «ninguém, antes de nós» se ter «empenhado em compilar poesia dedicada a matéria tão abundantemente tratada por quase todos os nossos poetas, desde as pastorelas medievais a poemas de autores estreados no presente século» (p. 637, sublinhado meu). Lamenta-se, no entanto, que fique por analisar a qualidade da sublinhada abundância. A verdade é que se compararmos a nossa tradição pastoral com a de outras latitudes, percebemos rapidamente que não tivemos nenhum Milton, Sidney ou Matthew Arnold, só para citarmos alguns anglo-saxónicos. Não por acaso o verso epónimo desta antologia vem de um poeta nascido em Londres que nunca conheceu o Alentejo ou as Beiras.

Apesar de o escopo desta antologia não ser necessariamente de ordem estética, a selecção merece ser discutida. Torna-se difícil compreender a inclusão de poemas tão débeis como «Poema da Terra Adubada», de António Gedeão, «Charneca», de Joaquim Namorado, os dois poemas de Fernando Namora e, sobretudo, os textos de Rosa Alice Branco e João Habitualmente. Este último caso é particularmente paradigmático, tal é a fragilidade de versos como «Tenho sonhado às vezes / com as coradas raparigas da aldeia / trazem um leve cheiro à palha / e preenchem-me a necessidade / de mamas abundantes (...) // Tenho a impressão / de que fodem como animais antigos: / na lentidão de enormes carapaças». Para um antologiador tão preocupado com a «integridade e crueza representacionais» (p. 592), por razões louváveis e já explicitadas, torna-se difícil perceber em que medida estes versos são dignos desta antologia.

Nunca é demais elogiar a atenção dada a um poeta como A.M. Pires Cabral, cujo primeiro livro, Algures a Nordeste (1974), representa uma drástica mudança na dicção da nossa poesia no que toca ao tratamento do rural quotidiano. Mas não se pode deixar de lamentar, no entanto, o facto de poetas maiores do século passado como Ruy Cinatti ou Fernando Assis Pacheco terem o mesmo número de poemas incluídos que autores muito menos relevantes. Em relação a este último, seria interessante perceber a ligação não só ao mundo rural português, como à Galiza dos seus avós.

À semelhança de outra antologia organizada por Rui Lage, refiro-me a Filhos da Época – 50 Poemas Políticos nos 50 anos do 25 de Abril (2025), importa notar o relativo desconhecimento do organizador face aos poetas mais jovens — facto, aliás, compreensível, se tivermos em conta a actual fragmentação do universo editorial português e a escassez de crítica especializada. Basta recordarmos o mais recente número da revista Relâmpago, para se perceber como tem sido difícil mapear o que de mais interessante tem acontecido na poesia dos últimos anos.

Outro problema desta investigação prende-se com a distinção entre campo real e campo ideal, o binómio que, no fundo, norteia a investigação que está por detrás desta antologia. Conseguimos intuir, é certo, que género de contraste entre realidade e idealização Lage tem em mente. Mas sendo este um dos eixos centrais desta recolha, e tendo em conta a extensão e o rigor terminológico da mesma, seria útil perceber de que forma o antologiador entende cada uma destas categorias, até pela ambiguidade natural a que elas se prestam. Restam dúvidas a respeito do que seria, por exemplo, uma representação poética do campo real? Aliás, em que medida é que a realidade em literatura se distingue de outros modos de idealização? Citando Manuel António Pina, um autor muito caro a Lage:

 

Mas há alguma coisa que não seja real? Tudo é real. O problema é que há muitas realidades. O sonho é tão real como estar acordado. De facto, nós sentimos os efeitos físicos dos sonhos, dos desejos, dos medos, das esperanças. É tudo real.[2]

 

Não será o campo idealizado de Camões tão ou mais real quanto tudo o resto? Aliás, arriscar-me-ia a dizer que é mais real do que as estrofes de Miguel Torga ou Mário Beirão. Mas isso já são outros quinhentos. Até neste ponto devemos elogiar o trabalho de Rui Lage pela forma como nos convida a reflectir acerca dos conceitos de realidade e representação na arte poética. Oxalá Adeus, Campos Felizes encontre mais leitores e seja tema de verdadeiro e apurado debate: merece-o.

[1] AAVV. Poesia Italiana del Novecento, Volume Primo. A cura di Edoardo Sanguineti. Seconda Edizione. Turim: Einaudi, 1972, p. xxvii, trad. minha.

[2] Manuel António Pina. A vontade que tenho era pôr um cinturão de bombas e rebentar com essa malta toda – Entrevista concedida ao Jornal i. Obtido de https://ionline.sapo.pt/artigo/451049/manuel-antonio-pina-a-vontade-que-tenho-era-p-r-um-cinturao-de-bombas-e-rebentar-com-essa-malta-toda-?seccao=Mais (último acesso em 28/05/2021).

* Doutorando financiado pela FCT (2024.06124.BD). Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Email: hugomiguelsantos@edu.ulisboa.pt.

REFERÊNCIA:

AAVV. Adeus, Campos Felizes – Antologia do Campo na Poesia Portuguesa do Século XII ao Século XXI. Selecção e Ensaio de Rui Lage. Lisboa: Assírio & Alvim, 2025.