Não deve haver na literatura portuguesa escritor mais prejudicado pela reputação do que Camilo. Desde sempre uma reputação de famigerado, com tanto de menosprezo como de elogios e superlativos, piorou quando se infiltrou na escola, que a difunde a título de saber consolidado. Na raiz dessa reputação encontramos a ideia errónea de que os escritores do passado vão sendo superados por outros que surgem entretanto, cada vez mais perto de nós, da nossa língua, da nossa cultura e até da nossa vida. Então, a escola lança mão do «enquadramento histórico», e assim difunde a crença de que nos aproxima de uma obra historicamente enquadrada no passado. Porém, como essa operação apenas tem propósito e proveito quando dedicada a autores que ultrapassaram o seu «enquadramento histórico» — e por isso continuam a assombrar o chamado ensino da literatura —, acontece-lhe realçar justamente o contrário: eis um autor remoto, viveu e escreveu no tempo em que...
Dessa incongruência, não é sensato esperar que venhamos a libertar-nos. Daí a necessidade de, fora da escola — mas sem a esquecer —, ir recapitulando certos autores que parecem perdidos no seu tempo sem necessariamente lhes exigir que iluminem o nosso, pois que nunca se sabe se, pela repetição, não nasce novidade. Aliás, o caso de Camilo, que não pretendeu iluminar nenhuma posteridade, ilustrará bem a orientação dessa recapitulação se, em vez de enquadramento histórico pretensamente neutro, procurarmos a lição de literatura que ainda hoje nos importa — ou que hoje é urgente aprender!
Essa lição é a definição do romancista. Com efeito, o decisivo é que Camilo se fez romancista numa época em que já havia romances mas não havia romancistas — ele foi o primeiro romancista português, assim mesmo conhecido por muitos contemporâneos. Dir-se-á que a expressão designaria tão-só uma condição de primazia histórica; ainda que o seja, a expressão é feliz desde que nos conduza aos motivos causadores dessa primazia, que a ele o caracterizaram enquanto inabilitaram outros que se julgaria mais capazes. Camilo representou o paradoxo do romancista, a um tempo precário e duradouro, por isso mesmo histórico, e continua a representá-lo; e há-de ser assim enquanto houver romances, mesmo que quem os escreva pouco caso faça da versão camiliana.
Em que consiste esse paradoxo? Por um lado, Camilo nunca deixou de considerar o romance uma futilidade, até reclamando com veemência: «Nada de tirar à novela a sua inutilidade que a faz preciosa.» O romancista não tem de responder pelos seus romances, que rigorosamente nunca o exprimem enquanto intelectual, ideólogo, pensador mestre de pensadores: o romancista não tem programa nem missão moralizadora ou outra. Por outro lado, Camilo é figura plenamente presente no texto como formidável escritor que não renunciava ao merecimento legítimo do romance, que acreditava ser assegurado sobretudo pela linguagem. Assim se define a responsabilidade específica do romancista, irredutível a qualquer outra. Um dos equívocos da reputação, diz respeito ao segundo termo, o do merecimento pela linguagem. Camilo reclama-se da lição de clássicos como Frei Luís de Sousa e P.e Manuel Bernardes, e daí a crítica, com alguma justiça, deduziu exigências de pureza vigiada e vernaculidade impoluta. Mas essa língua, sobre não ser homogénea nem de apreensão fácil e directa, não seria susceptível de se transferir para o romance como se fosse instrumento neutro. Camilo constituía os clássicos em princípio de equilíbrio, contenção e avaliação da sua imensa energia de escrita, mas não os reproduzia: sempre tomou liberdades com a lição dos clássicos e fez disso a sua língua só dele, capaz de ser aprendida e apreciada por quem se dedique a lê-lo na sua invenção fulgurante em vez de frisar a vernaculidade ou a dificuldade supostas pela reputação.
A arte de Camilo, não estando ausente das histórias que contou, arrisca o merecimento e duração na sua prodigiosa imaginação verbal, sempre em primeiro plano nos «casos tristes» e nos ridículos, na sentimentalidade e na intransigência perante a brutalidade do mundo — sem o desvanecimento da presunção de contribuir para a dissolver nas frases impecáveis das novelas.
