Os meus avós tiveram uma quinta na Guiné. Sobre as dificuldades que enfrentou lá, a minha avó nunca contou nada muito elucidativo. A história da doença que se declarou meses depois do regresso deles a Portugal, no entanto, transformou-se numa anedota familiar, repetida vezes sem conta em festas, para fazer sorrir.

Certo dia, a minha avó estava na varanda a conversar com uma visita frequente da casa. A dada altura deve ter havido uma pausa na conversa, porque a minha avó comentou: «Tão brancas que estão as minhas mãos, não acha? Parece que trago luvas brancas.»

Um pouco assustada com a brancura fantasmagórica das mãos da minha avó, a visita recomendou que o médico fosse consultado. Quando o médico viu a minha avó, percebeu que ela sofria de uma anemia grave. Segundo se conta, depois deste diagnóstico a minha avó recolheu à cama, onde passou os meses seguintes.

Não sei se na altura era frequente morrer-se de anemia, mas na mesma varanda com vista para os campos, meses depois dessa primeira conversa sobre brancura, outra visita viu passar uma coruja ao cair da noite. Naquele universo rural, muita gente acreditava que as corujas anunciavam a morte. Preocupadíssimo, o visitante avisou o meu avô sobre o que tinha visto.

Ao visitante, o meu avô explicou que ver uma coruja, para ele, era sinal de sorte. Em vários momentos da vida tinha visto uma coruja antes de alguma reviravolta feliz. Nunca pedi ao meu avô que me falasse das reviravoltas inesperadas que as corujas anunciam, mas depois desse voo da ave nocturna em frente à varanda, de acordo com a história, a minha avó começou a melhorar.

Embora as coisas que não me disseram ou que eu ainda não disse sejam um dos meus temas preferidos, esta crónica não é sobre os meus avós. Os meus avós tiveram uma quinta em África. Eu tive uma colecção de corujas em Lisboa, enquanto escrevia uma tese sobre colecções.

Terá sido por influência desta história familiar que comecei uma colecção de corujas? Em vez desta ave que nunca vi no seu habitat natural e conheço apenas de imagens, dos jardins zoológicos e destas histórias um pouco fantásticas dos meus avós e de outras pessoas que nunca viveram na cidade, podia ter escolhido um dos pássaros que durante o doutoramento me apareciam à janela do escritório, vagamente intrigados por eu passar tanto tempo à secretária – um pintassilgo, um pardal, um pombo, um rabirruivo –, os gaios ou os periquitos-de-colar que via passar ao longe, ou o melro que durante um Inverno apareceu na varanda de minha casa à hora de almoço, com o objectivo de debicar um vaso de manjericão à chuva, para grande indignação da minha gata. É possível, no entanto, que eu tenha escolhido as corujas por, como o meu avô, ver nelas uma espécie de figura protectora.

Uma das colecções mais fotografadas de sempre é a de figurinhas que Freud tinha sobre a secretária no gabinete – ainda hoje visíveis na sua casa-museu em Londres. O fundador da psicanálise encarava-as como companheiras, ouvintes e testemunhas. Talvez tenha imaginado que as corujas da minha colecção poderiam desempenhar uma função semelhante para mim.

O primeiro capítulo da minha tese é sobre umas peças do Parténon, um templo grego erigido no século V a. C. e dedicado a Atena, deusa muitas vezes acompanhada por uma coruja nas suas representações. A associação entre Atena e as corujas perde-se no tempo. Para a imagem clássica da deusa da sabedoria confluem outras tradições com deusas dotadas de alguns atributos próprios das corujas ou rodeadas destas e de outros predadores. Uma das minhas preferidas é aquela que aparece no alto-relevo conhecido como «Rainha da Noite» (1800-1750 a. C.), peça encontrada na Babilónia (agora sul do Iraque) mas que pertence actualmente ao British Museum.

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Enquanto a figura de Atena é a de um ser humano acompanhado de um animal-atributo, a Rainha da Noite ainda é uma deusa semianimal. Tendo em conta as asas e patas com garras de coruja que ostenta neste alto-relevo, a Rainha da Noite tem um aspecto perigoso e feroz. O facto de pisar dois leões indicia o seu poder. A deusa, além disso, está acompanhada, de cada um dos lados, por duas corujas grandes, olhando de frente, muito direitas, o que dá a impressão de ou fazerem parte da sua família, ou de serem suas companheiras e guardiãs.

Os que pensam que a Rainha da Noite, deusa da fertilidade, da guerra, relacionada com o mundo dos mortos, é uma antepassada de Atena salientam que a natureza agressiva e predatória da primeira é moderada na segunda. O percurso genealógico de Atena, de acordo com esta perspectiva, sugere que a sabedoria resulta de uma moderação. Para quem faz um doutoramento, há, obviamente uma espécie de advertência: se não queres ser dominado pelo caos, aprende a filtrar.

Parece certo que a sabedoria não é selvagem nem desordenada, mas o percurso de Atena mostra que o ponto de partida da sabedoria pode ser imperfeito e conturbado. A dificuldade reside em chegar à sabedoria sem esquecer nem neutralizar o ponto de partida; em ter consciência do caos, respeitá-lo e ser capaz de o tomar em consideração, sem sucumbir a ele. Quem escreve uma tese enfrenta muitas vezes a tentação de simplificar problemas complexos para bem do argumento. Ao mesmo tempo, não se pode deixar enredar na complexidade ao ponto de não ser capaz de a clarificar de algum modo.

Escusado será dizer que nem sempre se sobrevive intacto ao confronto com o caos e os seus perigos. Como Atena demonstra, é preciso ter pulso e presença de espírito. A coruja da sabedoria pode ser violenta. Sem dúvida, a minha tese de doutoramento foi visitada por uma coruja, mas esta, descontente com o resultado, despedaçou a tese com o bico e as garras. Teria sido mais assisado ter optado por uma colecção de pintassilgos.

Nem sempre as histórias da nossa família contêm lições e pistas que nos ajudam a resolver problemas no futuro. Talvez chegar à idade adulta seja constatar que as figuras que nos habituámos a ver como protectoras afinal viveram tão perdidas como nós, cometeram tantos ou mais erros, tresleram acontecimentos e sinais, deram-nos conselhos totalmente errados, sonegaram informação essencial e o que sugeriram que nos protegeria afinal só nos prejudica.

No poema «Madmen», Billy Collins diz que, se falarmos dos textos por terminar, estes voarão para longe – como lhe aconteceu determinada noite, durante uma conversa num bar, em que, aproveitando a porta aberta por um cliente, um poema que preparava lhe fugiu, voando para a noite. Neste sentido, os poemas já imaginados mas ainda por escrever seriam comparáveis a pássaros. As coisas que ficaram por dizer ou ainda não dissemos têm um estatuto semelhante. Se falarmos muito sobre elas, dissolvem-se. Se quisermos escrever sobre elas, é recomendável aproximarmo-nos com cuidado e fazê-lo com a nossa própria voz.

Na última estrofe de «Madmen», Collins explica que na noite em que perdeu aquele poema ainda alimentou a vaga esperança de vislumbrar por momentos, à luz dos faróis do carro, esse texto perdido, talvez empoleirado num sinal de trânsito ou num candeeiro de rua. Sempre que leio «Madmen» imagino que se o autor encontrasse esse «pobre pássaro por escrever, de asas recolhidas» a observá-lo com olhos luminosos lá do alto, o vulto seria o de uma coruja.

Da coruja misteriosa de uma história familiar à coruja difícil de agradar de Atena, passando pelo pássaro indistinto de Billy Collins, há corujas de muitas formas e feitios. São o tipo de ave que merece uma colecção. Entre aquelas que Desmond Morris descreve no volume sobre corujas da excelente colecção da Reaktion Books de livros sobre animais, sinto particular simpatia pela coruja-buraqueira. É possível que goste dela por apresentar várias características pouco próprias de corujas. Não sendo muito grande (mede entre dezanove a vinte e seis centímetros), não mete medo: provavelmente não estraçalharia uma tese, por muito mal impressionada que esta a deixasse. Além de voar, corre pelo chão. Aliás, ao contrário das outras corujas, passa quase o tempo todo no chão, ou em túneis subterrâneos, e tem patas bem visíveis. É a coruja menos noctívaga, mantendo-se activa de dia e não só de madrugada ou ao crepúsculo. Em contraste com a maioria das corujas, alimenta-se de fruta e sementes, e não só de pequenos animais.

 
 "Two Owls", da artista Julie de Graag (1877-1924)

"Two Owls", da artista Julie de Graag (1877-1924)

 

A coruja-buraqueira, indiferente quer a mistérios por dizer, quer aos fracassos e às derrotas dos ensaios mal escritos, passa a correr por este texto, em direcção às duas colecções – de abelhas e de tartarugas – que comecei depois do doutoramento.

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faca de papel #4

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