Já para não falar da rapariga que não podia sair da cama por não ter sapatos. E tantas outras ninharias semelhantes. Embora a questão dos sapatos não seja uma ninharia, claro.

Etty Hillesum, numa carta com data de 18 de Dezembro de 1942 (tradução livre, a partir do inglês)

Pouco mais conheço da obra do fotógrafo da Magnum Mark Power do que uma imagem intitulada West Bromwich (Samantha), de 2011. Esta fotografia integra-se numa série com o título de «Black Country Stories», dedicada a uma região a oeste de Birmingham muito afectada pela crise nesse período. Observando que, contra o pano de fundo de edifícios decrépitos e lojas desocupadas, os habitantes continuavam a esforçar-se por ter boa aparência, Power fotografou (segundo ele próprio explicou, prostrando-se no chão) algumas pessoas que lhe chamaram a atenção por usarem sapatos vistosos.

West Bromwich (Samantha) mostra uns sapatos vermelhos, de verniz, com um ar extraordinariamente incómodo e assentando mal a quem os calça. Não se vê o resto do corpo da pessoa assim calçada. Quando Samantha apareceu na inauguração da exposição usando os sapatos com que tinha sido fotografada, a filha do fotógrafo reconheceu os sapatos imediatamente, mas constatou com surpresa que a imagem que tinha construído de Samantha a partir da fotografia era muito diferente da realidade.

Sempre associei esta imagem de Mark Power a outra, da minha avó paterna, tirada em fins dos anos vinte ou início dos anos trinta do século vinte. Vendo apenas a cara corajosa e melancólica, o cuidado com que escolheu a roupa e o aprumo com que enfrenta o fotógrafo, ninguém associaria a minha avó aos sapatos gastos e deformados que usa nesse momento, provavelmente por ter percorrido vários quilómetros a pé antes de chegar até ali e decidir tirar aquela fotografia. Se o fotógrafo tivesse captado só a imagem dos sapatos rasos e poeirentos, calçados por alguém com tornozelos inchados, ninguém os relacionaria com aquela mulher alta e triste.

Não só não convivi muito com esta avó, como também raramente me falavam dela. Sei que no jardim cultivava plantas para todos os usos, mesmo os mais perigosos, e também que, como Agustina — outra pessoa que usava sapatos práticos, como é possível constatar numa fotografia dos anos cinquenta em que aparece com Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade — , ou certas personagens agustinianas, bebia vinagre para não engordar.

Convivi mais com o lado feminino materno da família, mais baixinho e atarracado. Acreditando que os pés pequenos eram mais elegantes, este lado da família sempre se caracterizou por usar sapatos demasiado apertados, postos de lado depois de terem sido usados uma única vez, tal era a memória da dor e das feridas que haviam causado. Para ser justa, é possível que esta escolha não se devesse só à pretensão de elegância. Havia também um certo desejo de passarem despercebidas, sem deixarem uma grande pegada no mundo, ou de deixarem só uma pegada enganadora, para desorientar possíveis predadores.

Em ambos os lados femininos da família reconheço, no entanto, uma desconexão entre a maneira como as pessoas em questão percorrem o mundo e a maneira como parecem percorrê-lo. É possível que a melhor forma de descrever esta conexão seja chamando-lhe instinto de sobrevivência. Do mesmo modo, há uma incongruência na imagem dos sapatos vermelhos de Mark Power; apesar dos pés e dos tornozelos inchados de Samantha, algumas pessoas poderão pressentir, mesmo sem lhe ver o resto do corpo, que ela calça aqueles sapatos difíceis com prazer e alegria.

Usarmos sapatos confortáveis e que nos fiquem bem não acontece tantas vezes como seria desejável. Quase nunca acontece, na verdade. Muitas vezes temos de optar, como a minha avó paterna, por sapatos confortáveis mas que ficam mal; ou, como a minha avó materna, por sapatos que ficam bem mas magoam. Curiosamente, nem sempre o mais confortável nos deixa mais felizes. Como acontece com a Samantha de Mark Power, por vezes são os sapatos que nos assentam mal que nos deixam mais contentes.

Além disso, nem sempre os sapatos que a nossa família prefere são os mais indicados para nós. No ensaio «Sapatos Gastos», incluído no livro As Pequenas Virtudes, Natalia Ginzburg conta que a sua família era constituída por pessoas que preferiam sapatos sensatos e sólidos. Estas pessoas olhavam com reprovação para os sapatos já deformados e velhos que ela não se importava de usar. Ginzburg explica que durante a Segunda Guerra Mundial tinha vivido momentos em que se vira obrigada a usar sapatos praticamente a desfazer-se porque, como não tinha um par a mais, se os levasse ao sapateiro para arranjar, deixaria de poder sair de casa. A partir desse momento tinha percebido que, apesar de as pessoas com sapatos bem conservados terem o passo firme de alguém que não desiste, aquelas que usam sapatos gastos, mesmo que se vejam obrigadas a caminhar com passos lentos e arrastados, sabem distinguir o essencial do acessório.

A pintura O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt, já gerou muita discussão pelo facto de o artista ter optado por esconder o rosto do filho regressado, enquanto as representações tradicionais do encontro entre pai e filho, como a de Murillo, os mostram habitualmente olhando-se nos olhos. Alguns autores suspeitam da insinceridade do arrependimento e das intenções do filho pródigo de Rembrandt. Se, no entanto, repararmos bem nos seus sapatos gastos e nos seus pés ensanguentados, poderemos pensar que o pintor usou a expressividade dos pés e dos sapatos, tapando o rosto da personagem, por achar que esta seria a melhor forma de representar o seu sofrimento.

O Regresso do Filho Pródigo , Rembrandt (detalhe).

O Regresso do Filho Pródigo, Rembrandt (detalhe).

Por muito que certas almas caridosas nos recomendem que só devemos prestar atenção aos assuntos mais elevados, por vezes é preciso desviar a atenção da cabeça para o chão, para o que suporta e transporta o corpo, mantendo-o em contacto com a matéria do mundo. Ainda que por vezes destoem do conjunto de que fazem parte, talvez os nossos pés e os nossos sapatos sejam, afinal, o mais autêntico em nós e as marcas mais fiéis do percurso que cumprimos – independentemente de calçarmos sapatos cómodos, sapatos velhos, sapatos de verniz ou sapatinhos de cristal.

No caso dos tradutores, a relação diária com o calçado reduz-se à mínima expressão. No Inverno, os tradutores calçam pantufas e meias grossas; no Verão, trabalham descalços. Fora de casa, com sapatos menos cómodos e mais resistentes, os tradutores têm dificuldade em andar. Os pés enchem-se de bolhas e têm de os arrastar, quando preferiam andar depressa.

Como o filho pródigo, todos nós temos os pés cansados. Vá-se lá saber se a meta caminha ao nosso lado ou nos espera pelas costas! Alguns fogem de casa, mas acabam por regressar ao ponto de partida. Outros enveredam por um caminho que, pelo contrário, os leva para longe e nunca mais lhes permite regressar. Ainda assim, mesmo aqueles de nós que nunca mais poderão regressar por vezes encontram inesperadamente em certos retratos de família o que tanto procuraram, dentro e fora deles mesmos, para lá de florestas e oceanos, de cidades labirínticas e de montes fragosos, como lembra Cristina Campo. 

Faca de Papel #7

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