«O casaco é de malha e estamos no verão»
Rosa Oliveira, «Cazaquistão»

 

O meu interesse por linhas começou na cozinha, ao fim da tarde, alguns meses antes do início do Verão, depois de um dia de trabalho de revisão de texto, quando cozinhava com mel. Uma abelha entrou pela janela entreaberta. Quem trabalha em revisão não se pode distrair da progressão linear dos caracteres na página; tem de ler letra a letra, palavra a palavra, pois qualquer distracção se paga em erros. Esta abelha, pelo contrário, desprezava a linha recta. Dir-se-ia que dançava pelo ar.

Só quando apareceram mais abelhas do lado de fora da janela comecei a suspeitar que a dança transmitia mensagens, provavelmente sobre a localização do mel. Tive de expulsar a abelha e fechar a janela, para as outras não entrarem. Os meus olhos, no entanto, já seguiam outros percursos que não os do texto do dia.

No livro Lines, Tim Ingold conta que certo dia, num ferry entre a Noruega e a Suécia, reparou em três mulheres que conversavam enquanto cada uma delas se dedicava a uma actividade distinta: escrever uma carta, fazer malha e bordar. Ocorreu a Ingold que estas três ocupações tinham em comum o facto de usarem linhas. As linhas com que se borda ou faz malha já foram fiadas; a caneta a escrever segrega uma linha de tinta que desenha as letras sobre a pauta da página.

Na minha cabeça, as três mulheres no ferry transformaram-se em três costureiras. A primeira não era bem uma costureira. A segunda viveu em fins do século dezanove, na Alemanha. A terceira tinha um gato persa branco.

A primeira costureira é a minha tia mais estranha e mais difícil. Sofria de asma, supostamente por, durante a infância, ter andado descalça no rio sem ter pedido autorização, um episódio que a teria condenado a uma vida de doença, como se repisava em tom de advertência. Costurava sem ter aprendido. (Entre outras proibições, o pai não a tinha deixado nem estudar nem aprender uma actividade prática, por considerar desonroso uma filha trabalhar.) A costura absorvia a atenção e distraía. Permitia-lhe, além disso, ficar a um canto, quase passando despercebida, entregue aos seus próprios pensamentos.

Esta minha tia cosia, fazia-me roupas. Picava-me com os alfinetes, mandava-me calar. Impacientava-se comigo porque eu não parava quieta. As roupas, prendendo aqui e ali, demasiado largas noutras zonas, e enrugando-se facilmente, não saíam perfeitas devido tanto aos caprichos do modelo como à falta de preparação formal da costureira. Além disso, os contos de fadas alertam para o risco de as picadas — de fusos ou de alfinetes — darem origem a anos de adormecimento em casas progressivamente rodeadas de silvas densas.

A segunda costureira chama-se Agnes Richter. Era alemã e em 1893, com quarenta e nove anos, foi internada num hospital psiquiátrico. Agnes é recordada porque, no hospital, costurou para si própria um casaquinho de linho grosseiro. Entre as peças fabricadas à mão para passar o tempo e ocupar a mente em qualquer hospital psiquiátrico, esta destaca-se pelo facto de Agnes ter usado a linha não só para coser mas também para bordar palavras e frases numa caligrafia antiga, já caída em desuso e, portanto, praticamente ilegível, muito difícil de decifrar.

Casaco de Agnes Richter, Colecção Prinzhorn, Hospital Universitário de Heidelberg.

Casaco de Agnes Richter, Colecção Prinzhorn, Hospital Universitário de Heidelberg.

Este casaco a desfazer-se costuma ser estudado como documento da «psicose feminina». Percebe-se que não era totalmente confortável. Além de apresentar nódoas de suor, tem uma estrutura semelhante à das camisas-de-forças, ainda que com braços menos longos. Note-se, no entanto, que não é muito diferente da roupa que usamos todos os dias. Talvez se aprenda a viver absorvendo uma espécie de mensagem transmitida de geração em geração, através de uma caligrafia difícil de decifrar, inscrita nas roupas que fazem para nós e nos obrigam a vestir. O futuro é delineado por estas peças que, sem conseguirmos perceber bem porquê, definem comportamentos, contornos e fronteiras, impossibilitando logo à partida determinados gestos e ambições considerados impróprios ou proibidos pelas costureiras.

A terceira costureira, ao contrário das outras duas, era competentíssima e por isso tinha muito trabalho. Falei com ela talvez duas ou três vezes, quando a minha avó mandou fazer um casaco para mim, mas nunca mais me esqueci dela nem daquela casa. Chamava-se Dinorah. Tinha olhos azuis muito claros, cabelo em tom alaranjado, com franja. Vivia sozinha, num apartamento pequeno, com um gato persa branco. Usava sapatos ortopédicos com saltos de tamanho diferente e por isso, como Vulcano, coxeava ligeiramente.

Quando passávamos pelo corredor, à entrada e à saída da casa, víamos de relance o gabinete de trabalho, muito desarrumado, com a máquina de costura e várias peças de roupa amontoadas, em diversas fases de desenvolvimento. Os clientes eram recebidos numa saleta arrumada onde o imperscrutável gato branco estava quase sempre, instalado numa almofada de veludo azul-escuro. Nesta saleta, Dinorah devia contactar com muitas pessoas diferentes. Conversava com elas, tirava-lhes as medidas, dava-lhes sugestões e executava pedidos, tentando não parecer demasiado inteligente e feliz. É possível que Dinorah tenha sido a primeira pessoa feliz que conheci.

Para o gato, o desfile de clientes devia ser garantia de entretenimento permanente. Num destes dias, lendo sobre uma exposição de arte asiática, reparei na imagem de um monge budista acompanhado do seu tradicional tigre de estimação. Tanto o monge (representado com características «exageradamente humanas», de acordo com a autora do artigo) como o tigre pareciam prestes a transformar-se noutras criaturas: o monge em algo inumano; o tigre numa serpente perigosa que poderia estrangular o corpo do dono, se quisesse. O gato branco de Dinorah também não parecia só um gato. Talvez fosse dotado da capacidade de se transfigurar. Desconfiada, a minha avó recomendava-me que não me aproximasse. A própria Dinorah, contudo, como fazia com os tecidos e as linhas, também parecia susceptível de metamorfose iminente.

 
Arhat  com Tigre , de Utagawa Kunyoshi (c. 1820).

Arhat com Tigre, de Utagawa Kunyoshi (c. 1820).

 

Alguns psicanalistas comparam o trabalho de luto ao acto de desfazer, linha a linha, a nossa ligação à pessoa que desapareceu. A minha tia cosia, eu descoso, recuperando a linha para escrever isto. O problema é que, quando descosemos as coisas, estas parecem rotas e feias, como os morcegos naquele poema de D. H. Lawrence, onde figuram como criaturas esfarrapadas que esvoaçam como ideias tumultuosas, lançando ecos no escuro, criaturas medonhas, que até para poderem repousar têm de se pendurar de pernas para o ar — ao contrário das andorinhas, comparadas com simpáticos carrinhos de linhas que cosem as sombras e restabelecem a harmonia.

As abelhas, no entanto, não querem saber de harmonias. Se as abelhas cosessem os ares com agulhas e linhas, os pontos seriam escandalosamente irregulares. Uma das minhas canções preferidas é «Águas de Março», composta por António Carlos Jobim. Gosto da canção em português, claro, mas sinto um carinho especial pela versão em inglês, trabalhada pelo próprio Jobim, que, além disso, acrescentou estrofes à letra original. Em inglês, a letra ainda soa mais como um dicionário contraditório, com umas entradas relacionadas com a felicidade e outras mais próximas da tristeza e do desânimo. Parece-me bastante apropriado que, entre outros objectos e criaturas inesperadas, apareça uma abelha, ausente do texto em português. Na voz de Stacey Kent, o  ritmo da canção lembra precisamente uma abelha a voar, pousando aqui e ali, e preparando-se para transportar ou fabricar mel. Se calhar a felicidade depende desta capacidade de transformação.

Uma abelha que entra pela janela e recorda uma ou duas canções; uma palavra que se transforma noutra em dicionários refractários ao seu princípio de organização; três costureiras que antes foram vistas a conversar num ferry num lugar a que nenhuma delas pertencia; um poema sobre morcegos inicialmente disfarçados de andorinhas; uma peça de roupa a desfazer-se que passa a ser objecto de investigação; um felino imprevisível e perigoso que nos acompanha desde sempre, observando com indiferença toda esta agitação. Dormiste durante cem anos, mas acorda para o Verão.

A Faca de Papel #8

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