Num dia destes, ao espreitar por entre os tapumes para o terreno já há tantos anos em obras da antiga Feira Popular de Lisboa, tive um vislumbre de um bando de perdizes que exploravam as escavações. Pensei: «Se calhar procuram água e têm inscrita na memória genética a informação de que houve ali um lago.»

Os arqueólogos que estudam esta zona dizem que, antes de qualquer mercado, existiu um lago com moluscos e lodo, onde matavam a sede vários animais, como veados e cavalos, e na margem do qual provavelmente também se caçava. Encontraram ali armações de veado.

Por aqui, raramente se ouvem sinos, mas sabemos que fazem parte da paisagem desde o século XVI, quando foi construída uma ermida, que mais tarde se desmoronou parcialmente, durante o terramoto de 1755. Em fins do século XVIII, com os sinos da ermida oportunamente reconstruída, ouviam-se pássaros, arados, chocalhos dos animais. No século XIX, quando começaram a aparecer as fábricas, os sinos assinalavam as horas de entrada e a saída dos operários.

Aos sinos, basta serem audíveis para cumprirem a sua função, mesmo sem ninguém os ver. Nem de ser audíveis precisam, aliás. Nesta zona, apesar de o ruído do trânsito geralmente abafar o seu repicar real e imaginário, continuamos a escutá-los na memória. Como as perdizes captam a memória da água, nós ouvimos os sinos submersos do passado.

Já li um livro inteiro sobre paisagens sonoras no século XIX só para recordar o som dos sinos da minha infância. (Ó sino da minha aldeia.) Até há pouco tempo, aliás, tive uma colecção de imagens de sinos, que entretanto perdi, com todos os ficheiros sem cópia de segurança que estavam nesse computador. Entre as imagens perdidas, estava Ângelus, de Jean-François Millet. Não se discernem os sinos na paisagem do quadro, mas sabemos que se os dois camponeses rezam em contraluz é porque lhes chegaram as suas badaladas, vindas da torre de igreja azulada que ao longe pontua a luz a esmorecer. Millet explicou de onde veio a inspiração para esta obra: «Quando estávamos no campo, se a minha avó ouvisse o sino tocar, mandava-nos parar para rezarmos por quem tinha morrido.»

L’Angélus, de Jean-François Millet (1857-1859, Museu d’Orsay.

Umas avós interessam-se por coisas visíveis, outras por coisas invisíveis. Graças a Millet, também eu recordo a minha avó camponesa, alta, de poucas falas, a contemplar o horizonte, de ar ausente. Era do Norte, onde havia coisas e actividades dos sonhos e dos contos de fadas: bagas venenosas; andar por jardins com árvores de ramos emaranhados onde pouco tempo antes choveu; tempestades violentas que abalavam a casa; um corpo que o mar não quis levar, encontrado na areia; pensamentos com os quais, toda a gente protestava, eu não devia incomodar ninguém.

No Norte, havia naufrágios e barcos-fantasma. Sem dúvida, a violência da tempestade e do mar eram impessoais. Mas, até certo ponto, perguntávamo-nos: o que tem o universo contra nós? Porquê nós? Porquê nós?

Os frascos vazios no jardim da casa eram como sinos sem melodia, sinos sem palavras. Eram formas que se bastavam a si mesmas. Além de ser proibido preenchê-las com alguma coisa, parecia não ser preciso preenchê-las com nada. Também o mundo é uma forma. O corpo é uma forma. Cada momento é uma forma. Este texto é uma forma — não é um derrame de linguagem, uma maré negra de palavras.

No Norte, havia palavras a que eu queria chegar, como quem tenta alcançar um frasco numa prateleira mais alta, mas sem degraus disponíveis. As palavras estavam em livros com páginas quase transparentes. Eram volumes pesados e antigos. Era preciso levantarmo-nos para os irmos buscar às estantes. Às vezes, equilibrávamo-los em cima da cabeça para melhorar a postura, como as camponesas de pescoço elegante levavam o cântaro à fonte, muito tempo antes.

O Norte era um lugar de histórias sem enredo, dentro das quais as personagens, vá-se lá saber como, viviam.

É sabido que há sinos em situações que os tornam incapazes de tocar. Encastrados numa parede, por exemplo. Sobre a terra, abandonados ao lado de uma igreja, entre móveis e outros cacos velhos, depois de um padre ter decidido desembaraçar-se do que considerou desnecessário.

Em Canções que a Minha Mãe Me Ensinou, Marlon Brando conta que no colégio militar em que estudou como aluno interno havia um sino que tocava pela noite fora, sem o deixar dormir. Certa noite, exasperado, Brando subiu à torre, arrancou o badalo do sino e enterrou-o algures. Uma semana depois, no entanto, ofereceu-se para fazer parte do grupo responsável por investigar o delito e identificar os culpados.

Também eu me interrogo se não terei enterrado esses sinos por cuja ausência ou invisibilidade recrimino os outros; se não fui eu, obedecendo ou não ao que me pediam, a neutralizar a narrativa. As histórias tinham enredo; eu é que de bom grado me reduzi à minha colecção de ardis para escrever sobre tudo menos coisas que parecem fábulas, quer para adormecer, quer para ficar acordado.

Noutro dia, li que, quando não arranjamos maneira de contar uma história, esta nos conta a nós: sonhamos com ela e agimos de modos que não conseguimos compreender. Se não houver alternativa, terei de sonhar estas histórias, em vez de as narrar. Nos sonhos, é sabido, não se morre, mas não sei se é a única vantagem. Temos vislumbres de acções, emoções e atmosferas, pessoas, objectos e incidentes intercambiáveis, maneiras de contar os episódios que se fazem passar pela sua ausência, um texto com frases estranhas e significado oculto, mas só para quem o escreveu.

As torres de sinos são bons arquivos. Se deixarmos, os pássaros constroem aí ninhos com cartas, recortes de jornais, notas, calendários. É um bom material de estudo. Séculos depois, será possível analisar as datas, as caligrafias, os sentimentos e as experiências de outrora.

Do cimo da torre, há outra perspectiva. Com o vento, o espaço quase oscila. Temos vertigens. A nossa cabeça é uma espécie de torre do sino. Convém visitá-la de vez em quando, para que não se torne um lugar intransitável. Caso contrário, torna-se difícil subir até lá por escadas tão íngremes. Quanto menos subimos, menos vontade temos de subir. As pernas deixam de ser o que eram. As escadas sujam-se e povoam-se de ecos. Pode haver estranhas criaturas aladas pelo caminho.

Há um conto de Andersen em que várias personagens procuram a origem da melodia de um sino sem o encontrar. Como não o encontram em lado nenhum, têm de se interrogar. Virá o som de uma coruja escondida dentro de um tronco de árvore? Da fronte que brota de uma rocha? Da sineta musical de uma pequena cabana revestida de flores? Do ruído das vagas, das árvores e do vento?

Que canções me ensinou a minha mãe? Folheando um livro de António Nobre em busca de sinos, encontrei de repente uns versos sobre alguém que dormia que ela, provavelmente sem se lembrar do nome do autor, citava a despropósito, por tudo e por nada. Relendo o poema, parece-me um tanto sinistro, mais sobre insónias do que sobre o sono, menos sobre o sono do que sobre os sonhos. Pensamos que vemos uma coisa e ouvimos outra, achamos que procuramos uma coisa e encontramos outra, que afinal é mais reveladora do que aquilo que inicialmente julgávamos procurar.

Desenho de Van Gogh, 1880.

Os sinos dobram inaudivelmente no quadro de Millet, objecto de fascínio e fonte de inspiração para vários pintores. Salvador Dalí, que o recriou várias vezes na sua obra, descreveu-o como a pintura mais perturbadora, mais enigmática, mais densa e mais rica em pensamentos inconscientes que já existiu. Van Gogh copiou-a a lápis e giz num desenho tosco, mas comovente. Um crítico escreveu que é um quadro em que continuamos a pensar porque parece dizer mais do que consegue exprimir, chamando como um sino no crepúsculo. Talvez perplexo com as emoções que lhe suscitava, um visitante do Louvre vandalizou-a com facadas.

Quando um amigo meu perguntou à mãe o que ouvia das conversas depois de ter sido operada para pôr implantes cocleares, ela respondeu: «Ouço sinos e os sinos têm palavras lá dentro.» Em suma, é assim. Quem procura sinos encontra palavras. Entretanto aprendi a percorrer a paisagem como se faz nos sonhos, em todas as suas camadas recordadas e esquecidas, no Sul, no Norte e em todo o lado. Escuto os vivos e os mortos e deixei de fingir que não capto o que perdeu a voz. Por isso, nunca mais vou aceitar que há coisas que não posso dizer. E, se não conseguir falar, vou pelo menos escrever sobre isso.

Faca de Papel #22

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