Um ensaio sobre ótica subjetiva

 

Um pardal é uma ave extraordinária. As suas plumas cor de madeira de carvalho, com matizes de castanheiro, cedro, mogno e cerejeira cobrindo o peito suavemente arredondado, o seu bico triangular, de uma proporção perfeita, com as arestas curvadas em gentil elegância, os pequenos olhos cheios de brilho, vivacidade e enigma. É de facto um animal belíssimo. Mas porque é que é mais fácil elogiar a beleza de uma ave exótica? Dizer «os pardais são aves incríveis» parece à partida distinto de «as araras são aves incríveis». A diferença, a meu ver, reside pouco nas qualidades das próprias aves.

 

NADA NUNCA VISTO

De há uns anos para cá, comecei a ouvir a expressão «nada nunca visto», normalmente na forma «não é nada nunca visto» — uma maneira suavemente depreciativa de observar a banalidade de um objeto. O problema dos objetos banais é que eles portam a sua beleza demasiado à vista. Exibem-na constantemente, vemo-la todos os dias, a todo o momento. Se ela nunca tivesse sido vista, seria, talvez, mais fácil de apreciar. É aqui que me parece que reside a mais importante diferença entre uma arara e um pardal.

Tentar encontrar a beleza de algo que fazia parte do meu quotidiano desde sempre foi uma tarefa com que me defrontei no regresso ao Porto, cidade onde nasci, onde morei até ao limiar da maioridade, mas da qual me mantive distante durante toda a vida adulta. Mesmo antes dos trinta voltei, e, passados esses doze anos, trazia um olho de quem já tinha visto isto tudo, e outro de quem via tudo pela primeira vez. Os pássaros usam os olhos um de cada lado da cabeça, com uma distância considerável entre si, conseguindo com isso um campo de visão muito próximo dos 360º. Lamentavelmente, os seres humanos não têm esta capacidade, pelo que me vi forçada a conciliar estes dois olhares e a constituir uma visão panorâmica dispondo de meros 180º.

Usando o olhar de quem vem de fora, tentei ter com o Porto a abordagem que tive com as outras cidades onde vivi, às quais cheguei inevitavelmente já adulta. Mas não demasiado — para poder ainda brincar nelas e explorar sem limites nem arrependimentos. Tentei acompanhar a agenda cultural portuense, e seguia prontamente os convites que me chegavam. Foi assim que embarquei naquela que foi uma das noites mais divertidas que passei aqui no Porto (é no Porto que escrevo, na casa que renovei, onde casei e onde tive o meu primeiro filho). Nessa noite, havia um churrasco na Oficina Arara.

 

ARARAS

O nome desta oficina de artes gráficas terá sido escolhido por vários motivos, aos quais não será alheia a nacionalidade de uma das fundadoras. De descendência venezuelana, foi criada na Madeira e veio para o Porto para estudar com a mesma idade e por volta do mesmo ano em que eu saí. A nossa relação com o Porto é precisamente diametral. Ela chegou, e eu parti, na idade em que estávamos mais receptivas. Apesar de a nossa burocracia poder dizer o contrário, não tenho dúvidas em apontar qual de nós é mais do Porto. Talvez tenha sido essa sua conjugação particular de identidades que lhe permitiu olhar para a palavra «arara» com simultânea familiaridade e estranhamento.

Aquilo que faz de Arara um bom nome, além do seu interessante lado gráfico (ar — rara — arara, numa decomposição tipográfica possível[1]), prende-se com o seu exotismo, que cria o contraste necessário para que a Arara se estabeleça na cidade como um bicho estranho, uma ave rara, um espaço de experimentação onde a diferença é a norma. Pensando bem, daquilo que me foi dado a ver do panorama artístico da cidade, poucas coisas há que eu considere mais características da dinâmica do Porto do que a Oficina Arara. Para mim em particular, a Arara representava aquilo que, do Porto, eu nunca tinha chegado a ver.

Naquela noite, dizia eu, depois de uma oficina de uma técnica de impressão simultaneamente sofisticada e elementar (à qual chamaram cromotexepraxia), houve um churrasco no quintal do espaço que a Arara ocupava. Estavam presentes as pessoas que participaram na oficina, que eram, sobretudo, estrangeiras, nalgum tipo de experiência internacional temporária. Nessa noite ri, conversei, comi, bebi e, enfim, diverti-me, como poucas vezes o voltei a fazer. Também nunca mais voltei a ver aquelas pessoas. E raramente voltei a ter, aqui no Porto, esses momentos de total desprendimento, que convidam a uma alegria sem restrições. Porquê? Possivelmente, por nunca ter visto aquelas pessoas no passado, nem planear voltar a vê-las no futuro. Eu era mais uma estrangeira numa experiência temporária.

 

OUTRAS AVES

Talvez a familiaridade com que me revi nesse papel se deva a que já por várias vezes me vi nele. Devo referir que a minha experiência pessoal de deslocação de identidades já foi descrita noutro texto, «Pombos e Maritacas»,[2] onde falei sobre a nacionalidade de um bando de maritacas encontrado em Lisboa, e sobre a minha experiência de ser uma mulher portuguesa a viver e a cozinhar bolinhos de bacalhau em São Paulo.

Quando voltei do Brasil pela primeira vez, esqueci-me de trazer na mala um amassador de limas para fazer caipirinha — um objeto de madeira esculpido e pintado na forma de um papagaio. Esqueci-me dele precisamente porque era importante no meu dia-a-dia e estava guardado na cozinha, junto com outros utensílios comuns, pronto a ser usado. Esse papagaio amassador para fazer caipirinha acabou por voltar com um casal amigo a quem dei guarida por uns dias. A dona da casa onde eu o tinha deixado sabia bem o quanto eu lhe sentia a falta e teve a enorme amabilidade de o fazer retornar. Quando esses amigos brasileiros chegaram, juntamente com o papagaio, fomos dar algumas voltas pelo Porto. Esses dias foram, também, dos mais estimulantes que aqui passei. A razão, já se sabe, é que me fiz acompanhar de pessoas para as quais o Porto era algo nunca visto. Tínhamos, assim, uma azafamada agenda e uma longa lista de coisas bonitas a ver. Por sorte, uma das atrações estava fechada — motivo para fazer conversa com o zelador e assim acabar por descobrir um restaurante local onde nunca teria ido sozinha, sem nenhuma indicação. E nunca teria tido esta indicação se não me tivesse posto no lugar do turista, no sentido daquele que descobre a cidade, do que vê pela primeira vez, a perguntar onde é que se come um bom peixe grelhado.[3]

 

PARDAIS

Ver pela primeira vez é o verdadeiro luxo que nos trazem as viagens. É essa a característica que, por hipótese, faz de uma medina norte-africana um lugar buliçoso e estimulante (para alguém que vem de fora) e não simplesmente agitado e barulhento (para alguém que nela interage a todo o momento). Ver como se fosse pela primeira vez é apenas possível quando fazemos esse exercício com alguma regularidade, seja viajando ou, sobretudo, praticando-o com tenacidade no nosso próprio lugar. Olhar de novo, olhar como se tudo fosse novo. Pode exigir mais, pode parecer mais difícil, podemos mesmo nunca conseguir fazê-lo bem. Mas, se não tentássemos, nunca seríamos capazes de apreciar a verdadeira beleza de um pardal em tons de mogno, delicadamente debicando palhas com seu bico de perfeita proporção.

A true revelation, it seems to me, will only emerge from stubborn concentration on a solitary problem. I am not in league with inventors or adventurers, nor with travellers to exotic destinations. The surest – also the quickest – way to awake the sense of wonder in ourselves is to look intently, undeterred, at a single object. Suddenly, miraculously, it will reveal itself as something we have never seen before.
Cesare Pavese, Dialoghi con Leucò, 1947[4]

O facto de já termos visto aqueles pardais não nos deve impedir de os apreciar; pelo contrário. Só olhando afincadamente, com resoluta intenção e absoluta concentração, nos conseguiremos distanciar de ideias superficiais pré-concebidas e apreciar a verdadeira beleza do bicho. Teremos de decapar as sucessivas camadas que nos vão tentando convencer da banalidade do objeto, para realizar esse verdadeiro descobrimento.

 

EX-ÓTICO

Para mais facilmente observar a beleza de um pardal, seria talvez útil fazê-lo no Brasil, onde aves coloridas e extravagantes como as araras abundam e a delicadeza desta ave comum pode saltar à vista com mais facilidade. Algum editor da página da Wikipedia descreve: «Sua [do pardal] chegada ao Brasil foi por volta de 1903 (segundo registros históricos), quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, autorizou a soltura deste pássaro exótico proveniente de Portugal».[5] Sublinho a expressão «pássaro exótico», e relembro o étimo ex-ótica. Exótico qualifica, portanto, aquilo que está fora da vista, longe do olhar. Algo nunca visto.

Mas há várias formas de não ser visto, de estar longe do olhar. À partida, pensamos naquilo que desconhecemos: o novo que está lá longe, do qual nos aproximamos para ver pela primeira vez. Mas há também aquilo que conhecemos bem, que nos é querido e familiar, mas do qual estamos afastados, que deixámos de ter por perto. Por contraste, o antigo que está longe, que sentimos a falta de poder ver.

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade contrariou a corrente nacionalista sua contemporânea, e, depois de hesitar, não deu ao seu primeiro livro de poesia o nome «Minha terra tem palmeiras»,[6] um título que recuperava o primeiro verso da «Canção do Exílio» de Gonçalves Dias. [7] A verdade é que Drummond não via as palmeiras com espanto. Nem tinha o espanto de quem vê de fora, nem lhe interessava o de quem olha fixamente para o que lhe é familiar. Não as via pela primeira vez, nem estava longe delas para lhes poder sentir a saudade. Não é por acaso que esse mais do que revisitado poema que canta a terra das palmeiras e do sabiá se chama «Canção do exílio» — só do lado de fora, quando exilado em Portugal, é que Gonçalves Dias teve a predisposição para cantar as palmeiras, tão próximas e tão longínquas. Se a fome é o melhor condimento, a saudade é o melhor verniz, melhorando a suavidade das superfícies, eliminando os riscos e marcas de uso, abrilhantando as memórias. Também Coimbra, terra a partir da qual o poeta brasileiro escreveu esse poema, se enche de encanto, dizem, no momento em que se está prestes a deixar de a ver.[8]

Quanto a mim, depois de várias chegadas e descobertas, partidas e despedidas, e enormes saudades e distâncias, vivo hoje na mesma freguesia em que nasci. Com o olhar de quem vem de fora, aqui encontrei araras extravagantes. Com o olhar de quem já viu tudo, olhei para o Porto fixamente; e nele puder ver, pela primeira vez, um filho, e a beleza dos pardais.

 

[1] Seguindo a linha daquela que abriu a exposição retrospectiva da sua produção na Galeria Zé dos Bois – http://contemporanea.pt/edicoes/04-2018/oficina-arara.

[2] Publicado num número anterior desta revista: https://formadevida.org/sabinofdv5/.

[3] Deixo um sentido agradecimento ao senhor Caravela, extremoso zelador da Piscina das Marés. Deixo também uma outra reportagem sobre esse dia: http://migueldelcastillo.tumblr.com/post/51515842010/no-hemisf%C3%A9rio-norte-j%C3%A1-%C3%A9-quase-ver%C3%A3o.

[4] Infelizmente, não tenho meios de reproduzir aqui o texto original desta citação, pelo que deixo esta tradução para o inglês, cuja autoria não sei precisar. Ela encontra-se, tal como é aqui reproduzida, como epígrafe na obra do poeta e tipógrafo canadiano Robert Bringhurst, The elements of typographic style, ed. Hartley and Marks, Vancouver, 1992, p. 8.

[5] Em https://pt.wikipedia.org/wiki/Pardal, com referência a http://www.wikiaves.com.br/pardal.

[6] Agradeço ao prof. Abel Barros Baptista a inspiradora aula aberta sobre este livro, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de Coimbra, a convite do prof. Osvaldo Silvestre. (http://www.ieb.uc.pt/?p=1616). A referência à hesitação quanto ao título encontra-se na correspondência compilada em Carlos e Mário: correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade, ed. Bem-te-vi, Rio de Janeiro, 2002.

[7] Escrito em 1843, foi muitas vezes re-escrito, parodiado ou referido até hoje. Reinterpretar a Canção do Exílio tornou-se quase um ritual de passagem para um novo poeta, e é uma forma de constatar o seu olhar sobre o seu próprio país. No original:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

(Disponível em www.dominiopublico.gov.br.)

[8] «Coimbra tem mais encanto na hora da despedida» é o refrão da Balada do VI Ano Médico de 1958, conhecido fado de Coimbra, escrito por estudantes finalistas do ano referido no título e repetido todos os anos desde então.

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