A presente carta enviada por Camilo Castelo Branco a Silva Pinto faz parte do conjunto de cartas autógrafas do romancista existentes na Coleção Camiliana de Sintra, que integra 341 epístolas a diferentes destinatários, entre as quais 39 a Silva Pinto.
As relações do escritor e jornalista António José da Silva Pinto (1848-1911) com Camilo Castelo Branco remontam ao início dos anos 70, período em que o panfletário se confrontou com o escritor de Seide a propósito de um artigo publicado no 1.º fascículo de Noites de Insónia, miscelânea camiliana publicada mensalmente de janeiro a dezembro de 1874. Reconciliando-se pouco depois com o romancista, Silva Pinto tornou-se seu correspondente e visita assídua, planeando, já no início da década de 80, a construção de uma moradia perto da casa de Camilo em S. Miguel de Seide (cf. Cabral 1988: 496-498).
Esta carta, datada por Silva Pinto de 4 janeiro de 1882, versa precisamente sobre a construção dessa casa (o «Malbario» referido na missiva era o empreiteiro da obra), além de outros assuntos particulares relacionados com Silva Pinto e a família de Camilo, nomeadamente o agravamento da doença do seu filho Jorge, o que denota a familiaridade existente entre os dois correspondentes nesse período. A epístola inclui ainda referências a Narciso de Lacerda (1858-1913), poeta amigo de Silva Pinto, para quem o jornalista procurou favores junto de Camilo, apresentando-o ao romancista em 1879 (cf. Cabral 1988: 349).
Silva Pinto publicou esta carta do «Mestre» em dois volumes: Cartas de Camilo Castelo Branco (Pinto 1895: 75-76) e Camilo Castelo Branco: Notas e documentos: Desagravos (Pinto 1910: 62-63). Nestas edições, introduziu variantes ao texto original, algumas das quais visíveis no autógrafo através de intervenções aí feitas pela mão do próprio editor. A lápis azul, Silva Pinto cancelou os cumprimentos finais a Narciso de Lacerda, à semelhança de outras cartas, e as duas páginas iniciais da missiva, que incluem assuntos particulares relacionados com a falta de notícias por parte de Silva Pinto, a construção da referida casa, deslocações da família de Camilo e a doença do seu filho Jorge, adicionando reticências em substituição deste truncamento inicial. Estas supressões refletem a opção do editor por não divulgar na edição de 1895 assuntos de cariz pessoal e familiar dos correspondentes, sendo que noutras cartas os truncamentos incidem também sobre nomes de pessoas, opiniões polémicas ou críticas de carácter social e literárias. Com o mesmo lápis azul, Silva Pinto adicionou ainda a data da carta, sendo a datação das missivas uma característica da edição de 1895. Já a caneta preta, o editor acrescentou no manuscrito uma chamada de nota para explicitar um passo da carta («Vejo que o meu amigo se está saturando de paios.»), adicionando a seguinte nota, por ele assinada, nessa primeira edição: «Era em Portalegre. De paios e de ladroeiras — soffridas. Contos largos!… S. P.» (Pinto 1895: 75).
Outras variantes não ficaram registadas na carta autógrafa, mas podem ser detetadas através da colação do manuscrito com as edições de Silva Pinto, incluindo variantes de pontuação e parágrafos, além de uma variante linguística na edição de 1910 («involver-se» > «envolver-se») que pode decorrer de uniformizações editoriais. A substituição da forma de tratamento na saudação da carta na edição de 1895 («Meu amigo» > «Meu caro Silva Pinto») reflete a explicitação do seu destinatário, sublinhando a proximidade entre os correspondentes, prática que se repete noutras cartas. Finalmente, as restantes variantes parecem ser acidentais, provavelmente decorrentes da complexidade na decifração da letra de Camilo («D. Anna» > «a Anna», na edição de 1910; «lyra de Narciso» > «lyra do Narciso», na edição de 1895) ou do próprio editor (o sinal (1), inserido por Silva Pinto no manuscrito como chamada para uma nota adicionada na edição de 1895, foi integrado na edição de 1910 não como chamada de nota, inexistente nesta edição, mas como um ponto de exclamação dentro de um parêntesis no corpo do texto).
Além destas duas edições feitas por Silva Pinto, a carta foi mais tarde publicada por Cardoso Marta, no segundo volume de Cartas de Camilo Castelo Branco (Marta 1923: 201-203); e por editores não identificados, responsáveis pela segunda edição de Cartas de Camilo Castelo Branco, de Silva Pinto (Pinto 1924: 87-89). Finalmente, Justino Mendes de Almeida transcreveu no volume XVII da sua edição das Obras Completas estas duas últimas edições da epístola (respetivamente Almeida 1994: 992-993 e Almeida 1994: 682-683).
A tabela seguinte apresenta as variantes substantivas das edições (a cinzento) em relação ao texto original:
Através da colação dos testemunhos da carta, conclui-se que as duas edições feitas por Silva Pinto (1895 e 1910) são edições independentes, ambas baseadas no manuscrito e introduzindo variantes ao texto original. Deduz-se também que as edições seguintes foram feitas com base nestas duas edições, sem consultarem o manuscrito e propagando as variantes introduzidas por Silva Pinto: a edição de Marta (1923) fixa o texto com base na edição de Desagravos (Pinto 1910), incluindo a data apresentada na edição de Pinto 1895; a edição de 1924 fixa o texto com base na edição de Pinto 1895, inserindo o passo inicial aí omitido, mas contemplado em Desagravos (Pinto 1910), e introduzindo uma variante substantiva («abrir alicerces»); Almeida 1994 transcreve os textos de Marta 1923 (transcrição «a») e de Pinto 1924 (transcrição «b»).
O esquema seguinte sistematiza a relação entre as diferentes edições:
Através do exemplo desta carta, que constitui uma amostra das variantes introduzidas por Silva Pinto no conjunto da correspondência de Camilo a ele endereçada, compreende-se a necessidade de uma edição crítica das cartas do romancista a Silva Pinto que estabeleça o texto segundo a vontade do autor, a qual está em curso no âmbito da Cátedra Camilo Castelo Branco. Baseada no estudo dos testemunhos existentes, assinalando as variantes de transmissão e restituindo o texto original de Camilo, a edição crítica traz a garantia de uma leitura fundamentada das cartas do romancista a Silva Pinto, contribuindo, assim, para aprofundar o conhecimento sobre a vida e a obra do escritor, 200 anos após o seu nascimento.
Referências
Almeida, Justino Mendes de (dir.). 1994. Obras Completas: correspondência I. Vol. XVII. Porto: Lello & Irmão.
Cabral, Alexandre. 1988. Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
Marta, Cardoso. 1923. Cartas de Camilo Castelo Branco. Vol. II. Rio de Janeiro: H. Antunes e C.ª Editores.
Pinto, Silva. 1895. Cartas de Camillo Castello Branco. Lisboa: Editores Tavares e Cardoso & Irmão.
Pinto, Silva. 1910. Camillo Castello Branco. Notas e Documentos: Desaggravos. Lisboa: Editores José Antonio Rodrigues & C.ª.
Pinto, Silva. 1924. Cartas de Camillo Castello Branco. 2.ª ed. Lisboa: Emprêsa Literária Fluminense, L.da.
